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13.11.09

#13 Queridos Bandidos XI

Introdução à exposição

Óleo, acrílico, nanquim, café, urucum, jornal, giz. A obra do Philippe Bacana, 22, é uma reorganização ousada das categorias do imaginário. Como Miró e Pollock, põe o quadro no chão, e com música e café adentra noites sem esquecer que tem que acordar cedo, o trabalho convencional ainda o chama todas as manhãs.
Essa é a sua primeira exposição individual em circuito comercial, onde trabalhos de 2007, acrílico e óleo, figuraram ao lado de quadros à pastel e selante, e café e urucum. Em meados de 2008, o artista, ex-estudante de ciências sociais, criado na pequena cidade do interior de São Paulo - Artur Nogueira - começa a trabalhar o nanquim, após um rápido curso de gravura no Instituto Tomie Otake.
Noções de quebra de plano, e de invenção de formas para uma nova figuração e narrativa já apareciam em sua obra, o contato com o nanquim dá força à essa vertente. Bacana traz à tona todo um mundo de personagens fantásticos, meticulasamente sérios e compenetrados nas suas funções - seringueiros, juízes, rueiros e animais. As linhas finas quase inimagináveis ao traço da mão, encadeiam complexas tramas onde uma natureza viva feita de objetos outros encena com esses personagens e enriquece as obras, onde a linha entre figura e fundo desaparece.

Influenciado e influenciador de alguma literatura contemporânea, Bacana foi motivo de poemas ainda na sua fase com o giz pastel - que inauguraram a revista de artes Maná Zinabre. Executou murais onde a poesia e objetos cotidianos abriram a possibilidade de interferência no mundo puro da pintura.
Ainda em 2007, o quadro O parlamento, reação à série de poemas O parlamento, inaugurava uma outra ilustração para a literatura: não são objetos ou cenas descritas nos poemas que vem à luz da obra, mas construções fruto das reações do artista, assim literatura e pintura atuam em relação de complementaridade e ao mesmo tempo autonomia.
O livro Lagarta o faz pensar em casulos, esses viram carretéis, e dos carretéis sai sua primeira série concisa em nanguim, onde seres, plantas e objetos do mundo tangível e da imaginação aparecem enrolados nas suas linhas finas.
Em 2008 e 2009 essa relação se intensifica e o artista faz várias capas de livretos, se inserindo no contexto da literatura contemporânea descartável e ao movimento de poesia de rua, principalente do Rio de Janeiro, e se torna principal ilustrador do selo Peri Go.

A relação de Philippe Bacana com as artes plásticas é uma relação de contaminação, onde em momento algum há a preocupação de estabelecer divisões entre a figuração e o abstrato, entre o hermético e a narrativa, entre o não-obejto e as categorias conhecidas. Bacana é um artista do limiar, um fronteiriço, suspende e torna concreto o chão onde pisa quando quer.


30.10.08

Circulação de Shows


Participar do Circulação está sendo incrível, apesar dos problemas de público e de estrutura de algumas cidades. A grana te instrumentaliza a realizar um show melhor e isso está indo além dos 6 shows do programa [realizamos apenas dois até agora, Rio Novo do Sul e Aracruz (foto acima)]. O Sol na Garganta pôde montar uma equipe, passamos de 10 pessoas, que tem estado junta também nos outros shows. Nosso trabalho cresceu para além do Edital.

Entretanto, o problema de divulgação é evidente. Não só pelo fato dos teatros estarem longe de lotados nos shows a fora; o burburinho na cidade é pequeno. O projeto tem um potencial incrível. É preciso trabalhar a construção de uma identidade, uma marca para um projeto tão ousado e grande. Isso precisa ser pensado, levado em conta, colocado na mesa para as próximas edições. Pela novidade é importante que sejam apontados os problemas, pois o público, acredito, é curioso e vai querer conferir sempre o que a caravana oferecer.

A divulgação não é de responsabilidade do grupo, a bola está com as prefeituras locais, que ficam incumbidas, em contra-partida ao investimento estadual, de lotar o teatro. Entretanto, o que percebi e tenho ouvido conversando com amigos de outros grupos contemplados, é que algumas dessas cidades estão desarticuladas, desmotivadas, sem compromisso. Talvez reste, ainda para esse ano, que a SECULT crie uma espécie de cartilha básica e um check-list de exigências para que as cidades sigam e a divulgação aconteça e as pessoas optem em ir ou não ir, e mesmo que prefiram ficar em casa ou girando na praça o façam sabendo que na cidade dela passou um projeto super-bacana com artistas que dão tudo de si.

Outro ponto que prejudica é a arrumação de um evento-atrás-do-outro no mesmo fim de semana. A maioria dessas cidades tem poucos atrativos culturais; talvez três ações ocupando o teatro no mesmo fim de semana seja muito repentino. Sendo a produção, estrutura, sonorização toda decentralizada (por conta de cada grupos) fica fácil agendar tudo em fins-de-semana separados, ocupando mais a agenda da cidade e o boca-a-boca poderia correr mais solto.

Outra sugestão, que surge nas conversas com outros contemplados, seria o de contratar uma produtora para visitar os locais, preparar conceitualmente e fisicamente as cidades, resolver alguns detalhes. Uma sugestão mais radical seria de contemplar uma empresa, por meio do mesmo pacote de Editais, para cuidar especificamente da promoção/divulgação por todo o ES. Essa produtora entraria com um plano de ações de divulgação, que seria avaliado e o projeto que se adequa aquele corpo de artistas daquele ano seria escolhido. A empresa receberia uma verba e para fazer o projeto acontecer, caminhando junto e dando suporte as prefeituras locais.

Vejo que o problema não está no interesse das pessoas das cidades do interior – como pode apontar um mais preconceituoso. O público tem se mostrado receptivo, mesmo para um trabalho mais experimental como o nosso. É só a divulgação ser planejada, porque todos chegam de coração aberto a fim de mostrar seu trabalho da melhor maneira possível para o maior público possível. E a receptividade ao nosso trabalho até agora tem sido muito boa, durante e depois dos shows – no bate papo de camarim e na cervejinha no bar.

Não só penso que o projeto precisa continuar como o defendo como política pública para além de qualquer governo; uma ação a ser exportada, copiada por outros governos. Penso que nosso papel, mesmo enquanto contemplado, seja o de dar algumas sugestões para que os próximos grupos contemplados aproveitem mais da potência do projeto. Sexta-feira embarcamos para Venda Nova com toda a empolgação!

FABRICIO NORONHA

publicado originalmenteee no Blog Garganta

27.10.08

Revista Chute III - compartilhando a idéia

Ficou pronta nesse sábado, dia 18/10/2008 o terceiro número da revista proposta e editada pelo movimento Dulcynelândia - Revista Chute, e será lançada no 6º Chute, dia 02/11/2008, dia dos mortas, dia mexicano dos mortos, dia de festa.
Mantendo o formato do segundo número, a revista tem 32 páginas, xerocadas, capa de papelão pintada à stencil, formato 14x21cm e costura à barbante. O custo médio de produção por revista é de R$ 0,96 se descartados custos de corte, pintura e costura. Os autores publicados não são pagos e contribuem para e com a revista propondo obras sem restrição prévia. O conteúdo só é cortado se as contribuições ultrapassarem o número de páginas pré-estipulado, o que ainda não aconteceu.
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Vai aí um chorinho:

Um dia seremos abortados, Bruno Zagri, técnica mista. Publica em http://www.flickr.com/photos/brunozagri/

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Esse número é o primeiro coom alguma unidade de diagramação e design, posto que os trabalhos entregues o foram em sua maioria feitos digitalmente, diferente dos números I e II onde grande parte das páginas foi entregue pronta para ser colocada na matriz para xerox. Deu-se prioridade para uma diagramação limpa e pouco variada, aproximando-se o produto final mais com um livro do que com a revista quase interativa que é hoje padrão.
Integram seu conteúdo tirinhas, poemas, contos, micro ensaios, textos políticos e artes visuais de artistas de diversos estados do país.
Ainda não sabemos o fim da coisa, mas sobre ela bastanos para o agora vivê-la.
Fundamentos e outros do gênero foram escritos em http://revistachute.blogspot.com em agosto de 2008 e publicados na Revista Chute II sob o título de Saiba sobre e faça junto, acompanhe a conversa.

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E mais um. Conto publicado na Revista Chute III em primeira mão.

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Estou no Flamengo e de repente as palavras perdem significado, não sei mais o que significa "de repente", talvez por isso tenha começado o texto me localizando no espaço: "estou no Flamengo" e depois uma palavra da qual exprime uma sensação - a de não saber localizar-se no significado - "de repente". Talvez seja a fome. A mão tremida, uma leve cólica e as pernas cansadas. Eu tinha então exatos um real e cinquenta centavos, tentei sim me situar à minha fome estomacal e fome de lucidez. Apesar disso fui ao Cine Paissandu e não resisti: comprei um ingresso para a "A grande ilusão" de Jean Renoir. Por quê? Será mero estímulo consumista burguês? Confesso que assim que comprei o ingresso me arrependi, depois pensei: "foda-se". Também penso que é mais fácil que eu conheça alguém que me alimente, com cerveja e alma, que faça uma boa história. E... De qualquer forma, sou uma assalariada. A minha fome de arte é suicida, vai até onde o corpo aguenta. E é o último dia do Cine Paissandu. Talvez eu queira sentir um pouco daquele ar sessentista, tanto é que estou num restaurante vizinho onde a galera costumava beber. Ps: "estou" de corpo presente, sem consumir nada, apenas escrevendo este texto com devaneios de cheiros vindos da cozinha. A mão está mais ágil agora, como a de uma velha pensante. Então: tomei decisões difíceis, todo mundo toma. Sem elas eu não estaria aqui. A escrever, a divagar dentro do meu próprio vazio, a esperar por um filme, não sei mais o que é, só sei o existir. A questão é justamente essa: não há entendimento ou explicação [símbolo], há o existir? O viver dentro da gaiola da Liberdade, onde cedemos para ter nossos desejos existentes. Pensar que vamos saber, simplesmente porque temos uma linguagem desenvolvida... Não, ainda somos tão animais quanto o cachorro de Clarisse. E somos tão reflexos de reflexão que sentimos o ser, não mais como ilusão alienada, mas como responsabilidade, por vezes, vazio - a dita má-fé -, sempre, às vezes, é bom repetir velhos lemas. Não mais estou confusa. Não mais sinto angústia. Sinto cheiro de comida e lembro que não tomei banho hoje.
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Raísa Inocêncio, é de Fortaleza, radicada no Rio de Janeiro atualmente, estuda Filosofia e publica em http://opao.blogspot.com

3.8.08

FLAP



!Hola amigos! Em Sampa tá rolando o Flap - uma "festa alternativa de literatura" - que começou dia 1, e vai até essa sexta, dia 8. O evento tá na quarta edição, e tá bem movimentado. O clima é bem descontraído, a língua oficial é o portunhol, e rola a participação de um punhado de escritores, poetas e dramaturgos de toda a américa latina.

A abertura, no dia 1, foi lá na Biblioteca de Poesia Alceu Amoroso Lima, e teve a presença de poetas como Alfredo Fréssia, Frederico Barbosa (diretor da Casa das Rosas), e o Eduardo Lacerda, do pessoal d'O Casulo. A apresentação dos autores ganhou seqüência com uma discussão curta sobre a relevância da poesia, e sobre a poesia contemporânea na américa latina. Coisa leve, com cara de introdução de evento.

Hoje, domingo dia 3, a coisa foi mais ampla e os debates foram mais focados. O lugar foi a Casa das Rosas, ali no começo da Paulista. O freeshop de poesia foi comportado, mas teve pontos altos. O poeta Berimba de Jesus (do grupo Maloqueiristas), ao explicar aos amigos hispanófonos os significados do termo "Maloqueirista", retrocedeu à origem da palavra e seguiu pela multiplicidade do seu uso. De certa forma, a explicação levou ao assunto da vivência do poeta em São Paulo, e dos tipos de públicos aos quais declama e oferece sua arte. Seguiu-se, ao relato, a impressão de cada poeta convidado a respeito desse cenário poético existente em suas respectivas cidades. Coisa bacana.

Dei um pulinho rápido no freeshop editorial, e o assunto ia bastante relevante. Discutia-se, entre muitas outras coisas, o livro como objeto de fetiche e a conseqüência social disso. Tinha gente da Cosac Naify, da Toró, da Amauta, entre outros convidados.

O freeshop de dramaturgia (do round 2) foi legal, e teve a presença do dramaturgo e poeta cubano Reinaldo Monteiro, e do diretor de teatro Rodolfo García Vázquez, dos Satyros. O debate - também super comportado - girou em torno da dramaturgia contemporânea, e eventualmente se expandiu à arte toda (chegando ao caso do cachorro-arte morto de fome, pra variar um pouco).

Às 17h teve leitura de poesia - sem dúvida, o clímax do evento hoje. O poeta Héctor Hernándes Montecinos foi especialmente encantador, com as poesias cheias de beleza e conteúdo que trouxe à voz.

Por fim, logo depois da leitura, rolou o Posto da Polícia Aduaneira (Maloqueiristas), com música com linha narrativa. O espetáculo - que tem dança, gente com jeito circense e expressão plástica - começou bem acanhado, mas foi ficando bom. A última música foi ótima.

Enfim, foi um dia de poesia, de encontros e debates. Um dia de pouca discordância, de aceitação de idéias, todas em tom de sensatez e amizade. Bom pra requentar umas idéias meio frias na cabeça. Bom pra conhecer poetas e trabalhos diversos; renovar o círculo de leituras. Bom pra viver poesia e arte.

17.6.08

filé de peixe 21/06 21h


Abre as guelras sobre nós. Para quem não lembra, já falei do filé de peixe na resenha do homemúsica, do michel melamed. O filé é o melhor multitudo que o Rio de Janeiro apresenta hoje. Ele é filho torto do geringonça (projeto de produção cultural do sesc), nasceu pra dar conta das demandas que o geringonça não deu. E foi pra rua. Nasceu num bar da Tijuca. Parava o trânsito pra deixar as performances passarem, os poetas, os filmes, o filé. Não falo à toa que o filé é legal, ele resolve duas questões muito importantes no trato com a arte hoje: linguagem e acessibilidade.

Na linguagem o filé de peixe estabelece uma idéia de fluxo: as formas de arte que se apresentam pra galera acontecem sem muita interrupção, sem muito abre-alas, sem muita pompa: umas coisas vão substituindo as outras ou ocorrem em conjunto e a festa corre bonita. As coisas que correm no filé andam entre a intervenção sonora (pra isso cabe a banda misticow, cadeira cativa e parceira do filé) e corporal (nesse campo chamo atenção pro grupo 13 numa noite de quem quero tratar em breve) e visual, filmes e vídeos, poesia, performance e artes plásticas . A proposta é o experimento avançado, a proposição de proposições, intencionalidades e um monte de coisa do campo de sensível, que muito me interessam. O mote da coisa é seguro e assegurado pela PEP (película epidérmica pulsante), projeção de slides e 8mm que dão cama pras outras coisas, e passa o bastão pros filmes muito bem.

Na acessibilidade o filé já se explica: nasceu na rua, pro povo ver. Hoje tá na Lapa, num casarão bem curioso, com ingresso a dois reais. E a filipeta, o flyer, corre pra todo lado, na mão e na internet.

Aí o que sai disso: linguagem contemporânea e ousada a custo de cd pirata. O Filé é um puta contraponto à arte de virar funcionário da globo, um puta contraponto às vernissages fechadinhas só pra quem é da aristocracia neurótica carioca, uma puta contraponto a arte pausterizada e tentativas de torná-la tal e uma puta alternativa pra quem tá levando a brincadeira da arte a sério. Gran Filé de Peixe, com maiúscula.

Para quem quiser ver mais filé, e eu aconselho, clique aqui

8.6.08

59%

O domingo tá baixando,
cinquenta e nove por centena

não grita nem sangra o chão;
vomita o pão em silêncio
cardume do devaneio distópico:
um capô encerado com pretérito perfeito

mais uma vez é lançado
aos bodes e semáforos
da segunda que funciona assim:

"A mula de carga
tremula metálica
sobre sujas rodas
de letras garatujas"

o enigma
vive rabiscado.



Heyk resenha:

Daqui aponto dois problemas:

1 - "sujas rodas". A inversão substantivo-adjetivo para adjetivo-substantivo incomoda pela carga de formalidade, inexistente no trato corriqueiro da língua; e pelo fato de remeter a uma poesia que não cabe desde os modernistas nas nossas prateleiras literárias. Seriam então os dois problemas apontados, um só: traços de velhice.

2 - "garatujas". A mesma coisa. Termo que designa desenho mal feito; nos esconderijos do país, centro-leste de Minas, usa-se pra denominar cara feia / careta. Mas aos faladores do português de sempre, "garatuja" já saiu de moda há dois séculos.

Confio no Victor quando ele diz que o poeta é esse: Usa o vocabulário que for para dizer o que for. Mas ainda assim me incomodam as velhices.


De resto, e que não é pouco, 59%, o poema, é uma obra em que fica muito claro o que é um poema: a condensação do sublime da linguagem, a abstração do concreto através de exemplos concretos que remetem a mundos outros com uma força de sentidos e significados que cabem como uma luva nos ouvidos e nos lábios, ah, e às outras demandas todas. 59% é um poema poema. Sem empréstimos à outras formas de linguagem, sem dever nada aos desenvolvimentos defeituosos dos amontoados culturais-pastiche e kitsch do cinema e da tv e do rock e da música popular. Um poema sincretismo entre um hoje e a poesia poesia mesmo.

Acertou na mosca.

3.5.08

Interrompido

Que fez, menino trapo?
Que carrega tanto fardo
Que reflete tanta dor na carcaça-escarro
Que mendiga um olhar, um pão, um trato?

Que fez molambento das ruas por aí?
Que há tanta fome de ti estampada
e ela grita dos teus olhos que te acudam
Pelo amor da Virgem Imaculada.

Que fez, desgraçado?
Ignorado?
Abondonado?
Despachado?
HUmilhado?
Cuspido?
Ofendido?
Abafado?

Que carrega nas costas o caixote-adorno do
......................................sapato fino-trato.
Que carrega nas costas o desamor e o pecado calado.
Que carrega em si a esmola escassa.
Que só carrega menino-desgraça,
Menino-engraxate coberto de limo,
Menino-mendigo vestido de trapo.

6/10/2004 Guila Sarmento

Em demonstrato à obra plena. Esse aí é a página 30 do Filho de meu pai, de Guila Sarmento, de 2008, publicação da Ibis Libris, mais eu prefiro considerar como publicação independente. Autores como Rod Brito e Tavinho Paes já chamaram a atenção para esse volume leve, 40 páginas. Filho de mau pai é a primeira publicação solo em formato tradicional do Guila, esse poeta-sonho-e-verve que a gente topa na rua, no metrô oferecendo poesia como quem oferece tapioca ou coador de café pras empregadas domésticas, pros estudantes, pros executivos, bandidos e pra polícia. Junto comigo e com Xisto da Cunha, esse guri que está pelos 28 anos, é um entusiasta da sintaxe sintética, da poesia rápida, poderosa, o relâmpago no papel, da poesia de rua, que no formato descartável leva popularização da arte tida por menor, ou pior, por hiper-erudita, cá nesse império luso-tupi-nagô. Em formato de asfalto, publicou Os treze piratas em 2007, com mais de mil e quinhentas cópias vendidas, e agora vai às ruas com Na trilha do amor, ambos com oito páginas.
Nessa primeira viagem do Guila às letras oficias, vem e tem muita coisa boa. Ali tá uma junção poderosa de paixão gostosa e contemplante no bom humor e ardência que paixão que é paixão mesmo tem, com uma coisa de dar tiro do olho, que a denúncia, colada na proposta da zona livre, trazem um poesia política de enfrentamento, de insurgir, de largar o santo e chamar pra briga.
Filho de meu pai é prato cheio e não tem erro. É prato cheio porque o Guila e a obra dele, em conseqüência, são filhos disso mesmo: dum Rio sem parada; de uma coisa que engasga mesmo e que não adianta dissolver com cerveja; de um real que é absurdo, de mais um absurdo, de tantos outros, diário; de uma proposta de levar arte-verdade pra quem não muda o canal da tevê; de delegar pra arte também o papel de mostrar caminhos; de um momento em que o artista ou é autótrofo ou tá fora. E assim me colo nesse cara. Vamos juntos falar: "Gosta de poesia, senhorita?" nas saídas do Arco Verde.

26.10.07

CACHORRO MORRE DE FOME EM EXPOSIÇÃO DE ARTE


CACHORRO MORRE DE FOME EM EXPOSIÇÃO DE ARTE

Na parede do fundo da galera está escrito em letras grandes e é possível ver desde a entrada. “Tu és aquilo que lês”. As letras são formadas por comida de cachorro.
Logo adiante, um cachorro doente amarrado numa corrente. Morreu na galeria por falta de alimento.

Na tarde que antecedeu a inauguração da exposição, o artista Guillermo Vargas Habacuc perseguiu e resgatou num bairro da periferia, por entre barracos, o pobre animal.

A obra critica as convenções e limitações das instituições de arte, levantando debate. Isso é eficácia.

Agora vêm as pessoas sentindo a morte do cachorro. Um cachorro abandonado ou morto na rua não comove. Tudo é a troca de cenário.

Que demônios é a liberdade criativa? Te parece criativo matar de fome um cachorro? Várias organizações de proteção dos direitos dos animais estão organizando um grande protesto.

Contudo, arte não é para “fazer o bem” ou se “fazer o mal”. A arte registra. A arte se camufla.

É fácil expor nossas idéias politicamente corretas e ficar posando de herói, Somos entendidos de arte - essa forma que tem os artistas de ver as coisas da arte está protegida, e sempre estará, pela instituição de arte.

Já que se buscava uma grande ruptura, porque tiveram o cuidado de retirar o seu cadáver? Porque não o deixaram ali aguardando seu apodrecimento?

Guillermo Vargas Habacuc, o artista, tem em casa quatro cachorros vira-latas que ele cuida como se fossem de raça.

FABRICIO

*esse texto é uma colagem.


http://www.marcaacme.com/blogs/analog/index.php/2007/08/22/5_piezas_de_habacuc

http://www.elpais.com/articulo/ultima/Respeto/elpporopi/20071016elpepiult_2/Tes
http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html
http://caoquemorde.blogspot.com/2007/10/co-morre-de-fome-em-exposio.html
http://www.interney.net/blogs/inagaki/2007/10/17/o_cachorro_que_morreu_de_fome_em_nome_da/


17.9.07

Resenha - Passei por lá.


2ª edição. Por pedidos essa edição vem com notas do tradutor e correções ortográficas de erros que saíram à publico por falta de revisão e ainda um comentário a mais a respeito da música no espetáculo. Obrigado pela compreenssão.

Eu passei, vi o povo juntando, mas não cheguei a ir ver se eu conhecia o morto, ou o estribuchante. Bom, a sensação foi essa. Tirando uma parte, nessa até achei que o morto era meu parente. Mas para o resto digo: sim, passei por lá.

Neste sábado, 15/09, às 20:00hrs, depois de ter passado uma meia hora na fila esperando as desistências, fui com a excelentíssima primeira dama, minha esposa , ao CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, ver Homemúsica, a terceira parte da trilogia Regurgitofagia, Dinheiro Grátis, Homemúsica, que estreou nessa quinta, 13, e vai até dia 28 de outubro, peça escrita, dirigida e encenada por Michel Melamed, primeiro poeta, depois ex- CEP 20.000, ex- Comentário Geral, atual apresentador do Recorte Cultural, melhor programa da tv aberta no Brasil.

Tem muita coisa ali, caramba, tem mesmo. vamos imaginar o seguinte: essa brincadeira do circo de variedades simultâneas, do multi-tudo apertadinho, que é moda unânime para a nossa juventude pseudo-intelectual carioquesca, a la Filé de Peixe, Geringonça, Cep 20.000, Lap Top Violão, a Mariola ou os capixabas Sol na Garganta do Futuro, sabe? Música, teatro, vídeo, poesia, performance e alguma coisa grotesca no meio, pois é. Homemúsica traz em processo de pesquisa, susto e desconforto e humor, um grande (talvez dentro da sua premissa e proposta o melhor) circo de variedades simultâneas, e não achem que isso é xingamento - como eu já disse é unânime.

O negócio do Helicóptero, O Protagonista é assim: ele é um prodígio, um santo da música, uma coisa que a cada osmose celular faz som de algum instrumento musical, que faz música com o corpo, perna, braço, pescoço, o resto. Ele é um menino, um moço, rapazzz, que vive os dramas sócio-geo-político-psico-dramatúrgicos-ambientais na tentativa de se explicar e de, como todos nós, virar um astro, também unânime. A peça sofre por falta de misé-en-scene, se é que dá para falar de misé-en-scene no teatro (vamos brincar que dá), se é que o monólogo do Michel – em que grande parte do espetáculo ele se junta à guitarra com a coadjunvância de uma banda, nos formatos de banda, convencional mesmo, de música - dá para ser carimbado na testa com a inscrição de teatro, de peça, que seja. Ou se talvez tenha até essa tal misé-en-scene só que os parênteses são tão grandes que o espectador se perde mesmo. Aí aparentemente, com ou sem misé-en-scene, parece que ela falta.

Mas tenho que de respeitar e consagragar duas coisas. Primeiro: sendo peça ao não, o espetáculo, ou show, a música não é inovadora mas é tecnicamente interessante, principalmente nos metais e percussão, as letras são à altura do resto do espetáculo e as versões são louváveis. Segundo, o trombone e tocado por movimentos de quadris que ficarão marcados como umas das faces inovadoras do espetáculo.

A história que é contada do avesso. O que já está com uma certa normalidade, mas não se empobrece por isso não. E no mais, e olha que eu já tinha chego [nota do tradutor: do português coloquial assimilado - chegado] à essa conclusão antes, só a experimentalidade é mãe de todas as coisas. No que tange a linguagem, a construção do período e a fala junto isso ficou claro de verdade e deu para tirar a boina em honras. Agora o que eu disse no começo, que teve hora que parecia que o morto era meu parente, vou explicar: No fim da conta se a história é decidida no bureau, a vida, a nossa, é decidida no próprio quarto, como sempre, quatro paredes. Sai a peligrinação [nota do tradutor: do português padrão peregrinação] do guerreiro e entra a vida doméstica. Ê Helicóptero.

Agora, se é para ver ? É para ver, e para ver mais de uma. A questão é essa coisa que é minha, de um espírito meio maracatu tribal, que gosta do que deixa em trânse. E isso o Homemúsica não faz.

13.9.07

Sol na Garganta do Futuro
























no Rio, Geringonça

Enfim, a boa é essa. Música, Poesia e um pouco de farinha de trigo. A seis anos o Sol na garganta do Futuro, banda capixaba acredito eu filha de Vitória mostrar uma mistura brava e mais o diabo a quatro no meio. Eu já ponho no som de casa faz um tempo. Gosto. Os caras tocam pra burro e outra, é diferente. Ah! aquilo, isso, também é diferente, mas senhores e senhores, simpatizantes e similares, os caras não conseguem se explicar porque não tem com quem comparar o som que eles fazem. Quando vão se apresentar acabam falando " somos nós mesmos" porque não dá pra falar de que fonte bebeu esse bando. Viva! É Sol na Garganta do Futuro. Na próxima quinta-feira dia 20 de setembro no sesc Tijuca. No Geringonça, que eu vi o de julho e gostei até. Bom, vão tocar junto com o Zéu Britto e vale até chegar pra ver. Faço de cara ressalvas especiais pro sopro do Daniel, que é arretado, pro Érico, que quando larga a bateria e vai pro carron ou pro Derbac, só não tenho certeza se era mesmo um Derbac, arrebenta com força e agente sua se de sentir a onda vindo, isso pra pra vcs se atentarem, o resto é surpresa mas já adianto, o baixão estrala, e as seis cordas da guitarra, e do violão, porque também vi e achei que só precisava disso, resolvem qualquer coisa, viva Vinícius, viva Hugo. E pro mom senhor Fabrício que bate a cabeça na parede e o resto todo pra falar os versos que, dele e de outras santas que têm por aí, conseguem fazer um trem danado, tem mesmo é que falar amém! Amém, Sol. E estamos conversados

29.8.07

Resenha, Frankstein à brasileira

Se o tempo é o da tecnologia, o do progresso, o da invenção, não a nossa, mas dos que montam em cima de nós, inventando formas de segurar o cabresto e não sair de cima. Celebremos o de vez em quando em que a tentativa frustra, não a nossa, a deles. Celebremos Frankstein, e todas as revoltas do monstro contra o médico. Para tanto evoco também outra forma de ver o costurado mais famoso do cinema, quem dirá da literatura, o fato da própria costura, da montagem, do juntar cá com lá na tentativa do unir. Com essas duas, a revolta ao progresso técnico – esse como geralmente se apresenta, cabeçudo em si mesmado – e a montagem - a costura a dedo furado bonita até de perto - , é que venho chamar a tenção pros 90 minutos que passei com a Cia Onírica de Teatro neste último sábado, dia 25 de agosto.
Em última apresentação da temporada Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, Santa Teresa - Rio de Janeiro, com a peça A Queda o ‘quê’ de correr atrás de duas moças rindo pra poder acompanhar o enredo já indicava que seria saboroso o meu sábado. Com troca de ambientes, sendo muito bem aproveitado o casarão oitocentista do centro cultural, tinha medo, tinha vela, tinha escuro, tinha lanterna apontando pra cara. Bonito. Entre o caos interno de ser agredido-desafiado pelos atores a qualquer momento, visto que o clima era favorável, e o êxtase de acompanhar de perto o meu e o frio na barriga que dava aos outros expectadores os diálogos sussurrados e sedutores, resolvi brincar de ser levado e pronto.
O diálogo do teatro convencional está se transformando não numa construção ator-diretor, mas numa forma padrão de fazer teatro, numa forma padrão de falar no palco, numa forma padrão de cansar a gente na platéia, mas bingo! A Cia Onírica rompeu em momentos essenciais esse falar com força que mais cansa do que atrai, rompeu com jeito, chamando pra prestar atenção no texto. E eu, eu fiquei ali rindo com eles, fechando a cara quando o negócio era sério, e gostando muito quando a poesia tomava a cena e levava a gente pra dentro do personagem. Teve coisa que doeu de verdade. Bonito. Bonito de ver. Teve Caio Fernando Abreu pra quem gosta, no trechinho que mais deu vontade de entrar no meio e sentir junto. Sentir doer como eu já disse. A peça tem, com palavras do próprio Henrique Britto - o diretor, um dark side. E é com trechos de Morangos Mofados e de Contos, do Caio Fernando, que o dark side pega a gente pelo pé. Dá aquela coisa de “viu como tudo é uma bosta mesmo!”, mas passa. Passa porque a companhia não tem convênio com nenhum analista da região, pra mandar a gente pra lá pra enriquecer o cara. Passa porque tem piada, tem erotismo gostoso sem ser piegas nem novelesco, tem reflexão e crítica. Viva! Tudo isso pra falar da Morte, escrevo com letra maiúscula mesmo porque ela pesa igual gente. É nome próprio. Morte! E termina com dança, com música, com vinho – como foi gritado no durante no antes e no depois: Evoé Baco! E santa dança, santo e belo movimento. Quem tocava a batuta dos corpos na obra era Wagner Carvalho, que deixou redondo a hora que tinha que ser e jogou o soco no vento quando foi preciso. Se a arte fosse só conteúdo não tínhamos saído da tragédia grega. É preciso o gosto pelo que aos olhos toca, pelo que o corpo sente. E assim o movimento vem correndo pra mostrar pro texto o que tem de dança na paixão humana – quase tudo. Belo Wagner.
A peça não pode deixar de correr. A Queda, não a nossa a da Cia Onírica, tem que continuar.E pra fechar explico: sem verba – foi à merda o discurso que só se faz coisa boa com o bolso cheio de dinheiro, por isso a conversa da revolta ao progresso técnico – e montando tudo, recortando – fica claro que é tudo junto e misturado é que funciona, diversidade e completude, numa coisa só – é que A Queda se mostra o Frankstein mais bonito que já vi.