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29.7.08

EGONAUTAS II

Espúria fúria e túnica diz

Em bocejo abraça um carma

Espécie de asilo e exílio

Os dois

Causa de progresso o efeito que é.

Por que são espúrias as gulas como são os ausentes

Hipócritas de

Que somente os abstêmios sinceros na simplicidade

São

O que não sois vós nem eu há muito.

Espúria corcunda de si beleza não vela.

Há simplicidade e aguda e tênue revela

As mais belas formas de amor que eu e vós somos nós

E o egoísmo é espúrio é fome de nada que fome de fome

Espia

Perniciosas educações.

Guila - 03/01/2006, retirado de Filho de Meu Pai

27.6.08

GAIA EM RESUMO

Cometa esperma no açude imemorial
planta banquete
.
.................x
- p.........i.........e -
.......e
.
embrião das praias répteis.

Macaco cacho pende
maduro bem brilha dos
saltos à terra
saltos à morte
ao inundar de porra e cimento
o feto dos doze andares.
.
.
.
.
Guila - 23/04/2008
.
.

7.5.08

Ensaia! 2

Alguns aspectos de entendimento

Adquiridos da experiência

E de vossas influências


A sintaxe síntese. O poema sintético. O significante em série para o ambíguo significado. Mais imagem em menos espaço. Para acompanhar a constante transformação da língua fermentada nas massas, no homem do dia-a-dia, a transformação pelo processo da feira e da praça. Para acompanhar a constante transformação do intelecto, capaz agora de mais informação em menos tempo. Por que o século cibernético é realidade. Por que computador e televisão cospem os fatos em série. Posicionar-se contra esta realidade é expor-se à uma comunicação estéril. Que envelhece na parede ou na prateleira aguardando pelo futuro promissor. Suposto. Subjetivo, por quanto, imagina um ponto zero pelo qual subverterá a corrente. Mas, nós, Queridos Bandidos, queremos o diálogo. Nós creditamos com mais eficiência a crítica inserida pela própria circunstância ou contexto. Na crítica consumida com o mesmo apetite que consome comida ou cosmético.

O poema de conteúdo absurdo em forma rígida ou livre. Por que absurdo é o próprio formato do sistema, do seu senso de ordem pública (Não Pode Mais Pode), construído cartesianamente ao longo dos séculos. Livre porque não voltamos as costas às conquistas dentro do sistema que lançaram bases para a liberdade das expressões.

O poema excêntrico. Por que na modernidade nada mais choca que não seja bizarro ou excêntrico. Que não seja matéria fácil para pirotecnias e novelas da vida real. É o ambulante das dez lâmpadas na cabeça usando sunga verde fosforescente. É o super anão. É o inventor de ciência nenhuma. É a maluca de fantasia na rua. É a menina Isabela e os três travecos do Ronaldão, etc...


DESPERTAR

acordou do sono e

foi comer no sal e

foi ralhar a escama de

lambuza que

do véu

mel

fel

foi ter comensal no céu


25/04/2008


PEQUENA HISTÓRIA BRASILEIRA

Piraquê pescou Pirarucu

picaretou do Norte ao Sul na

crista da aurora boreal licérgica

multicor por ali findo setenta de

calombos aos montes e

ferida aberta tateando modernidade.


26/04/2008


Guila

3.5.08

Interrompido

Que fez, menino trapo?
Que carrega tanto fardo
Que reflete tanta dor na carcaça-escarro
Que mendiga um olhar, um pão, um trato?

Que fez molambento das ruas por aí?
Que há tanta fome de ti estampada
e ela grita dos teus olhos que te acudam
Pelo amor da Virgem Imaculada.

Que fez, desgraçado?
Ignorado?
Abondonado?
Despachado?
HUmilhado?
Cuspido?
Ofendido?
Abafado?

Que carrega nas costas o caixote-adorno do
......................................sapato fino-trato.
Que carrega nas costas o desamor e o pecado calado.
Que carrega em si a esmola escassa.
Que só carrega menino-desgraça,
Menino-engraxate coberto de limo,
Menino-mendigo vestido de trapo.

6/10/2004 Guila Sarmento

Em demonstrato à obra plena. Esse aí é a página 30 do Filho de meu pai, de Guila Sarmento, de 2008, publicação da Ibis Libris, mais eu prefiro considerar como publicação independente. Autores como Rod Brito e Tavinho Paes já chamaram a atenção para esse volume leve, 40 páginas. Filho de mau pai é a primeira publicação solo em formato tradicional do Guila, esse poeta-sonho-e-verve que a gente topa na rua, no metrô oferecendo poesia como quem oferece tapioca ou coador de café pras empregadas domésticas, pros estudantes, pros executivos, bandidos e pra polícia. Junto comigo e com Xisto da Cunha, esse guri que está pelos 28 anos, é um entusiasta da sintaxe sintética, da poesia rápida, poderosa, o relâmpago no papel, da poesia de rua, que no formato descartável leva popularização da arte tida por menor, ou pior, por hiper-erudita, cá nesse império luso-tupi-nagô. Em formato de asfalto, publicou Os treze piratas em 2007, com mais de mil e quinhentas cópias vendidas, e agora vai às ruas com Na trilha do amor, ambos com oito páginas.
Nessa primeira viagem do Guila às letras oficias, vem e tem muita coisa boa. Ali tá uma junção poderosa de paixão gostosa e contemplante no bom humor e ardência que paixão que é paixão mesmo tem, com uma coisa de dar tiro do olho, que a denúncia, colada na proposta da zona livre, trazem um poesia política de enfrentamento, de insurgir, de largar o santo e chamar pra briga.
Filho de meu pai é prato cheio e não tem erro. É prato cheio porque o Guila e a obra dele, em conseqüência, são filhos disso mesmo: dum Rio sem parada; de uma coisa que engasga mesmo e que não adianta dissolver com cerveja; de um real que é absurdo, de mais um absurdo, de tantos outros, diário; de uma proposta de levar arte-verdade pra quem não muda o canal da tevê; de delegar pra arte também o papel de mostrar caminhos; de um momento em que o artista ou é autótrofo ou tá fora. E assim me colo nesse cara. Vamos juntos falar: "Gosta de poesia, senhorita?" nas saídas do Arco Verde.

17.12.07

DEMARCAÇÃO

Chove chuva na estação,

lá foi Tião.

Sirenes ecoam,

sirenes ecoam aos perigos superestimados -

simulação...


Lá foi Tião pro furacão -

Caveirão -

morro do Pavão -

insônia lá,

foi Tião...

Guila – Treze Piratas - 05/07/2007

20.11.07

Marinheiro de Primeira

Do mar profundo véu –

espesso –

esparsa bruma ao casco –

traspassa –

corta a cortina de fumaça.


De uma ilha fartam os preparativos:

- Caveira ao mastro!

- Caveira ao mastro!

- Os piratas trazem negros, índios, mulatos...


E a tímida concisa gravata.

Ela não olha para o terno.

Ela perplexa à ilha.

Seu semblante de siso por um fio,

por um milímetro,

em psico-nomadismo se perpassa.

Guila – Treze Piratas - 17/04/2007

6.11.07

NA TRILHA DO AMOR


O gato mia

A gata acata

E toma um tombo de tomate -

Fenomenal!

Quatro patas pra o ar

A gata sem asa.

De ridículo ri-se a sedentária arara: Caraca! Caraca!

Guila – Treze Piratas - 25/09/2007