1.10.09

Olho Mágico

"O centro envenena as extremidades". Li o dito na saída da balada, onde a música eletrônica ainda fazia minha pálpebra pulsar - eu fico um pouco ranzinza às vezes. A frase estava escrita na roupa de um tipo bizarro; capa preta, máscara de gás e um guarda-chuva fechado, servindo de bengala (não chovia). Ao seu lado, qualquer coisa aparentando uma câmera antiga - um cubo de madeira sustentado por um tripé. Segurava, ainda, uma maleta na mão esquerda.

Me aproximei, meio encantado. Na caixa estavam encrustados três dobrões, atestando a idiossincrasia antiquária do objeto. A criatura permanecia impávida.

- Como é que faz?

A máscara apontou suas lentes para mim: um mistério terrível no semblante industrial. A mão enluvada se estendeu, pedinte. Procurei moedas no bolso, e só encontrei uma de vinte e cinco. Ele abriu a maleta e retirou um cartão; girou uma manivela pesada, e pelas curtas frestas da caixa vazou uma luz líquida de ouro. Introduziu o cartão na caixa e me induziu à lente frontal. Inseguro e curioso, olhei pela lente de aumento e, súbitamente, a rua desapareceu por trás de mim. Me vi num quarto de tons pasteis e lâmpadas mortiças. Tudo era desordem: as cortinas se revolviam emboladas sobre o sofá rasgado, os papéis de parede estavam arranhados, e as luzes da direita destruídas. Uma ânsia percorreu meu estômago, como se vermes do inferno desejassem meu cadáver. Pelas janelas, muita fumaça, e um gosto podre entre os dentes. Meus braços formigavam, pesados como vigas de chumbo, e meus olhos ardiam e lacrimejavam. Percebi então um sussurro crescente, que sibilava:

- ...as extremidades, envenena as extremidades, envenena as extremidades, envenena as extremidades!

Só então surpreendi a presença que me espreitava de dentro do armário, num fundo escuro do recinto. Ela era a responsável por tudo. Gritei e forcei meus braços contra a caixa, e só então consegui sair daquela dimensão ilusória.

Uma vertigem poderosa me acometeu quando olhei à minha volta, tão grande foi a descarga de desordem. Meus esforços cognitivos, a duras penas, realizaram: eu estava em outro lugar. Um campo bucólico, ao amanhecer. Ouvia quero-queros chilreando a canção do sol nascente, sobrevoando a lagoa que refletia o céu de degradês e as sombras muito negras das árvores em redor. A serenidade envolvia a existência. Havia uma casa amarela entre as colinas; senti frio e tive vontade de me abrigar. Ao toque da campainha surgiu uma senhora de cenho firme à porta:

- Pois não?

- Eu... me deixaram aqui na frente da sua casa...

- Como?

- Acho que dormi muito pesado ontem à noite. Não sei como vim parar aqui.

- Quem é você?

- Meu nome é Álvaro. Moro nos Jardins.

- Jardins?

- É, ali perto do Metrô Consolação.

Ela fez cara de quem não fazia idéia de onde era o bairro dos Jardins. Aconteceu um breve silêncio, durante o qual percebi que era muita sorte a minha - ela mantinha a porta aberta, disposta a me compreender.

- Desculpe, minha senhora, mas onde é aqui?

- É o Lagoa Bonita.

Devo ter feito a mesma cara que ela fez.

- Eu não conheço aqui. Como faço pra ir pro centro?

- Centro de onde?

- De São Paulo.

- Vixe! - ela abriu um riso simpático. - Aqui é Engenheiro Coelho. São Paulo tá há umas duas horas daqui. Entra, vou te mostrar como chegar à rodoviária.

Ela abriu o portão e me recebeu. Tomou a dianteira e entrou na cozinha, deixando-me no rol de entrada. Embrulhei os braços um no outro e vaguei pela sala, expelindo o frio de lá de fora e explorando o aconchegante ambiente. Havia um arranjo de fotos familiares perto do espelho, e num retrato da senhora lia-se na moldura: "Giuliana Spini". Fui chegando perto da cozinha e quando olhei pela porta, lá estava ele! Ele, com as luvas cheias de espuma de detergente, o cavaleiro negro com sua terrível máscara industral, me puxando para o abismo da insanidade com seu aspecto diabólico. Minhas vias aéras se trancaram automaticamente, e meu semblante externou completo desespero. Sua figura apenas me observava, poderoso como um juíz divino. Tudo se envolveu de halos escuros e meu corpo foi ao chão, asfixiado.

A campainha insistia em toques cada vez mais impacientes. Acordei com o peitoral muito dolorido. Me levantei e percebi que não havia ninguém na sala, nem na cozinha. Fui até a porta e, antes de abrí-la, olhei pelo olho mágico. Então tudo desapareceu novamente, a casa deixou de existir no tempo.

A vertigem foi muito forte desta vez. O fenômeno já não era mais novo, mas a esta altura já estava envolta de muitos sentimentos negros. Não lembro do que vi assim que cheguei. Caí inconsciênte num chão duro.

9 comentários:

Heyk Pimenta disse...

seus contos tão crescendo! gostei na ilustra do futuropublico.wordpress.com sim!

é mangazoide, mas cuiosa.

Lírica disse...

Precisamos conversar sobre isso!

Victor Meira disse...

Pois é, Heyk, têm crescido. Que coisa, não?

Valeu pelo comentário da ilustra, haha. É isso mesmo.

Abraço!

Aron Matschulat Aguiar disse...

train speaking!

ô negão, tá muito gostoso.
adorei as personagens... a velha, o juiz divino, o viajante.

o centro envenena as extremidades... é o fluxo.

muito legal irmao. uma boa viagem.
abraço negumba.

Anônimo disse...

que balada você foi e o que você tomou lá?

Lírica disse...

As viagens do inconsciente sempre têm o mesmo destino. O que muda são as rotas. Mas o essencial é atender à campainha. E voltar à realidade, por mais duro que seja o chão.

isaac disse...

porra, vi um filme, tá soberana a descrição, envolta em confusão;
sensacional pacaralho, me amarrei.

Chammé disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chammé disse...

É brodão, que baladas narrativas você anda frequentando e o que você tá tomando? hehheheheh.

Falei só pela piada: o universo é completamente Victão. E várias figuras bacanas, viu. É muito loco que você já descreve coisas como "o semblante industrial". Isso é total abstrato, mas dá pra entender perfeitamente. É como dizer "o olhar sério de Darth Vader". Que olhar!? Mas ao mesmo tempo, tá ali.

Sabe-se que você tá num eros-grau narrativo, e isso há algum tempo, mas dá pra sentir evolução, como o Heyk falou. E isso é lóki.

Namaste.