5.10.09

Dia 5, sem falta.

Meus irmãos zinabres, mês passado faltei com o meu compromisso e peço desculpas pela ausência. O poema que trago hoje fala sobre a mina Cerro Rico, na Bolívia.

Pulmones de Metal

em Cerro Rico
nas entranhas da terra
em total escuridão
a população
de vidas calejadas
cava seu próprio destino

escorrem veias de zinco
..............e o cobre dá cor ao desespero
tiram sangue de rochas
das pedras e mãos
dos artistas cegos
que esculpem até as vísceras
nos buracos
mais profundos

queimam marcas pelas paredes
marcas de fé

eles se denominam
Pulmones de Metal

o mais velho tem 42
quarenta e dois
.......................anos
o mais experiente
o sobrevivente
da exploração

o mais novo não fala
racha rocha na
busca de brilho
com um martelo
maior que sua cabeça

no íntimo do ventre materno
um imponente Theo
figura com seus cornos
e um enorme pinto
maior que jesus
ali noutro canto

Ele proverá riquezas

o álcool, puro
proverá coragem

a misericordiosa coca
proverá força

17 níveis de exploração
464 anos de exploração
exploração exploração
exploração exploração
exploração exploração

a folha amarga
na saliva
seca
vira suor, sangue
correntes
explosões
na escuridão

na boca
só um dente
................d’ouro
tamanha pobreza
.................d’alma

a coca continua sendo
o principal alimento
nas bocas vazias
ruminantes

6 comentários:

Carina disse...

me gusta.

Pedro Gama disse...

Fantástico! Me senti lá, como estivesse ao lado deles, abs

isaac disse...

caráleo, outro dia eu tava pensando exatamente nisso..

e dizem que nas entranhas da montanha, no terceiro andar sub-solo alguém que não está acostumado já não aguenta mais, pelo calor e enxofre;

o poema é vívido nesse sentido, tá muito ótimo.

Anônimo disse...

Opa....muito bem explicitado das entranhas e da montanha...

parabéns...


Malaspina pai...

Victor Meira disse...

Eu ADOREI essa, Tulio. Ela tem seu próprio tempo, respeita o próprio ritmo, e narra sem deixar de ser poesia. Aliás, documenta com festa, com denúncia e romance factual. E ela vai brilhando paulatinamente. Exploração, exploração. Bom demais.

Bom demais, mano.

Chammé disse...

É porrada.

Tô com o Pedro Gama: desci junto com a expedição, mina abaixo. E não dá pra passar do terceiro andar, é fato.