9.4.09

Zero-Um

Olhava o cursor em formato de ampulheta e se intrigava – será que o computador pensa? Afinal, era só clicar em um link, botão, arquivo para a máquina fazer todo resto. Se o computador pensa, devia ser considerado um ser vivo. Levou essa questão para o professor de matemática, que lecionava o sonolento primeiro horário de segunda-feira. O professor, que tentava animar as aulas sobre matriz com exemplos de cibernética, respondeu:

- Olha, Franco, o computador não pensa. Quem pensa é você. Ele só executa o que você pede. É como uma calculadora evoluida.

Isso não desaminou o menino. Aproveitou toda a aula de literatura para concluir: pouco importa se o computador tem vontade própria ou não. Pelo menos ela processa as coisas, e isso deve ser um pensamento em algum nível. Chegou em casa, um belo condomínio afastado da cidade, e trocou a tarefa sobre a evolução dos cordados por artigos da Wikipédia. Leu sobre o código binário e não entendeu lhufas. Teve que esperar até quarta-feira, segundo tempo. Quando se deu conta que esperava ansiosamente a aula de matemática, mal acreditou. A surpresa era a mesma para o professor, que via aquela figura uniformizada caminhando em sua direção, enquanto todos seus colegas buscavam a fuga mais rápida ao toque do sinal. A pergunta de Franco era respondida com o orgulho pelo cientista da computação, hoje docente do ensino médio:

- É o seguinte: o computador só sabe fazer contas. Para escrever um texto ele passa tudo para números, para poder gravar e trabalhar com isso. O “A” maiúsculo, por exemplo, é substituído por 65. Só que aí vem a questão: o sistema dele é binário, não é? Só 0 e 1. Então como é que ele entende o que é 65? Para isso ele tem que converter esse número para binário. Então, pense o seguinte: 0 é desligado e 1 é ligado.

No apogeu da explicação, o professor pegou uma folha papel e marcou uma tabela.
__.......__.......__.......__......__......__......__......__
128.....64.......32.......16.......8........4........2........1

- O computador tem que preencher cada um desses espaços com 0 e 1, desligado e ligado, para fazer um número. Para fazer o 65, que representa o “A” maiúsculo, ela teria que ligar o 64 e o 1 nessa tabela, certo? O resto ficaria desligado. Então o número do “A” ficaria 01000001. Entendeu?

Preencheu mentalmente os zeros e uns na tabela e viu que dava certo. Apesar de parecer muita maluquice, aquilo finalmente fez sentido para Franco. O papo fermentou na sua cabeça durante toda volta da van até sua casa suburbana. Alias, a conversa maturou na sua cabeça o dia todo, e depois do banho, ele resolveu abrir a caixa de pandora – será que Deus também fez um código binário? Um 0 e 1 que criou absolutamente tudo, e ele só vê seu computador perfeito rodar pela eternidade? – Sentiu pegar o Criador na curva, descobrindo sua verdade. Testaria tudo no dia seguinte.

A maior experiência de sua vida seria feita na cantina, às 9h. Ele olharia no cardápio todos os salgados existentes ali, que valeriam 1. Um salgado inexisteste no cardápio valeria 0. Depois ele avaliaria se o salgado estava disponível, dando também 1. Sendo assim, um salgado existente e disponível na cantina seria 11, e só assim poderia ser comprado. Mas ele queria testar o sistema: então iria pedir o suposto salgado 01, que não existe no cardápio, mas mágicamente disponível no balcão. Se o pedido falhasse, era porque tudo era realmente binário.

Chegava a hora da verdade. Olhava, excitadíssimo, os salgados do cardápio da cantina como a porta para outra dimensão. Viu que não havia risólis, e disparou sua sentença fatal para a atendente:

- Me vê um risólis.

A moça, que inicialmente frisou a testa preocupada, estendeu seu braço para dentro do forno do balcão e entregou para Franco a derrota, embrulhada no guardanapo. Ele, sem entender nada, balbuciou algo incompreensível e foi para a sala.

Franco só entenderia aquilo no fim da aula de biologia. Entre o zero e o um, descobria a genialiade de Deus: o talvez.

7 comentários:

Lírica disse...

Não sei quantos risolis eu já pedi nas cantinas da vida, mas entendo muito bem a existência miraculosa do TALVEZ. Grande sacada, Chammé! E que linda a genial ingenuidade de Franco!

Victor Meira disse...

É fantástico, Chammé, cheio de ingenuidade e um humor agradável, um suspense que não ameaça e uma genialidade tímida, despretensiosa.

Leio o conto como uma discussão sobre o determinismo. Melhor: sobre uma descoberta adolescente da possibilidade do determinismo.

A melhor parte é que a descoberta da questão é alavancada pelo computador - produto da cultura - ao modo dos desejos e descobertas das novas gerações. É por aí. Essa meninada da quarta série hoje vai descobrir o existencialismo por meio de um produto desenvolvido pelo Steve Jobs.

Conto lindão, brodin.

Gilson Junior disse...

Excelentemente pleno de fuderosidade.

Heyk Pimenta disse...

O franco deve ser o franco montoro.

rapaz, o texto é engraçado. Caraio, acho que assim como falar poesia, tínhamos que aprender a falar contos tbm, ensaiar mesmo pra isso. acho até que o conto é mais fácil porque tem uma estrutura cognitiva mesmo, né?

falo isso porque fiquei imaginando você falando isso e achei um máximo. Hehehe. eita nós.

Sabe, tive uma professora que era da ciência da computação mesmo, e virou matemática quando deu preguiça das máquina.

ah, e victor, quem é o steve jobs?

ah, chammé, realmente: tentativa aristotélica do: o que é, é, o que não é, não é.

Victor Meira disse...

Heyk, negão, quero ver você dançar na prosa. Prova ela, gato, vê como é que funciona a composição a partir da "estrutura cognitiva".

Só pra sair da casinha.

Victor Meira disse...

Ah, o Steve Jobs é o Bill Gates da Apple.

Chammé disse...

Uhauhauahauahau.

Heyk, valeu o comentário, maluco. Que bom que passou essa noção deu contando essa história pra vc: foi um conto pensado um dia inteiro e escrito em 2 seg. Acho que dessa pressa na escrita que surgiu o tom de fala.

E olha só: pra escrever isso fiquei lendo, principalmente, sobre Verdade. "o que é, é, o que não é, não é" foi a primeira coisa que encucou aqui.

Agradecido.

Alias, já que é pra rasgar a seda, aproveitemos: benção pro Victao e pra Lírica que sempre, sempre tão por aqui. Obrethanks.

E valeu Gilson pela fuderosidade.

Abrazzi.