10.5.08

assepsia do sensível

Gostava daquele cheiro asséptico de desinfetante que subia às narinas e tomava toda a casa, infestando-se sorrateiro através das frestas das portas e janelas. Tudo que era demasiadamente asséptico lhe transmitia ares de sobriedade na medida exata. Para ser sóbrio deveria ser excessivamente asséptico. Mas lhe faltava sobriedade nos atos.
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Gostava de espaços frugais: era a parcimônia dos espaços concretos e triviais versus os excessos da alma. Mas teus próprios espaços – aqueles que habitava cotidianamente, por vontade ou contingência - eram carregados de aleatórios objetos dispersos, sem destino ou razão.
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Equilibrava o excesso de assepsia e a candura das paredes brancas com o colorido de bibelôs inúteis, baratos e com certa graça: alguns que ganhava de amigos, outros que ela mesma fazia em dias em que resolvia criar e recriar formas de burlar o mais absoluto tédio em que submergia por sua própria conta e risco. Naqueles dias em que qualquer forma de contato lhe parecia potencialmente mais arriscada que qualquer forma de inapetência.
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E, assim, ia amontoando junto a seus badulaques, ininterruptamente, papéis com frases não concluídas, recortes de revistas, miçangas coloridas, fotos amareladas pelo tempo, ingressos de cinema, resenhas literárias nunca lidas, canetas sem tinta, enfim, tudo que lhe fizesse lembrar os resquícios de vida. Numa tentativa de auto-engodo: disfarçar pra si mesma a vida insossa que levava... Até que, no dia da assepsia interior, jogava tudo fora, na lixeira dos recicláveis, como se assim, feita a limpeza, se reciclasse também.
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do comentário do Heyk: Priscila, sendo, que seja bem vida.

7 comentários:

Victor Meira disse...

Legal priscila, belo começo por aqui.

Bem vinda!

Guto Leite disse...

Gostei bastante! Nítido, cortante, preciso. Parabéns!

Priscila Milanez disse...

Obrigada pelas boas vindas, meninos!

Anônimo disse...

tb queria dar as boas vindas..

e tb gostei do texto.

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Daniel Bosi.

Rachel Souza disse...

Gostei da crueza.

Hugo disse...

lembrei do cortazar em Casa Tomada, massa pra caramba, valeu!

Priscila Milanez disse...

Hugo, obrigada.
Hei de confessar(como se confessa um delito por omissão) que nunca li o Cortázar.
Você é a segunda pessoa que me diz que algo da minha escrita o lembrou (a primeira não se referiu a este texto especificamente).
Concluo: tenho que ler o Cortázar.