1.9.10

Sonho e Coincidência

- Sim, mas explorar o quê agora, Carlos?

- Não me chama de Carlos, porra. É muito inverossímil, cê não percebe? Me chama de um nome menos propositalmente comum, tipo Uéslei, Renato... Ou de Tatá, Biro, Léco, esses apelidos que nem dão pista do nome.

- Tá, desculpa.

Léco detestava ouvir desculpas. Detestava essa compra barata de simpatia, essa submissão redutora de quem devia se portar como o igual que era. Carregava um documentário no youtube e seu headphone abafava a tevê, que anunciava o índice do jornal do meio dia, misturando a agressão de um professor tailandês a um aluno, um acidente de trânsito e dicas que instruíam a montagem de um prato balanceado em restaurantes por quilo. Camila levantou e deu um cheiro no pescoço dele.

- Vou tomar um banho.

A água caindo a fez tentar lembrar do sonho que tivera naquela noite. Tatá também pensava nisso; acontecia a coincidência tácita, completamente mágica e sozinha, como uma bola vermelha e branca boiando no meio do oceano. Tatá achava que a coincidência era o único mistério da existência digno de continuar sendo mistério, pra que jamais perdesse o caráter de feitiço que o fazia se maravilhar infantilmente, sentir um docinho no peito. Mas isso estava em outra esfera - ele pensava no sonho, e não na coincidência. Sonhara que trabalhava no topo de um edifício, e que havia quilos de atrasos. Então um terremoto estarreceu o ânimo de todos, que ficaram silentes entre as mobilias quase ostensivas, esperando o segundo ataque da vontade do chão. Aconteceu, e terrívelmente pior. A intensidade ascendeu até fazer ruir todo o andar da cobertura, deixando o prédio escalpelado e derrubando todos os corpos no térreo. Curiosamente ninguém se feriu.

No banho, Camila desistiu. Sabia que havia se incomodado com o sonho, mas não conseguia formar nenhuma imagem. O trabalho lhe comprara muitos acres de pensamento; abstrair demandava um esforço quase inútil. Havia saturado as possibilidades e não sabia como resolver o problema atual. Não sabia o que explorar.

5 comentários:

Aron disse...

Misterioso... Muito real. Verdadeiro. Nao sei do que desconfia. Acho que é a da falta de o que explorar que o final do conto nos remete que existe em nosso dia a dia. O começo é delicioso. É um sonho esse conto. Amei a neblina de imagens e possibilidade a que me levou.
A+.
Fudido.

Isaac Frederico disse...

O texto é indubitavelmente bem escrito, envolvente;
Entretanto, fiquei com uma sensação de estar faltando algo.
Vou reler mais vezes nos próximos dias, pra tentar obter um click mais preciso.
Abraços Victor

Leo Curcino disse...

gosto de conto que já começa no meio, como se alguém tivesse passado por ali, como se você tivesse propositalmente, chegado na metade do filme.

nao sei porque, mas me remeteu ao interior, à vida distante da metrópole.

Gabriela Sifuentes disse...

Curto bastante essa mistura cuidadosa de vulgaridade e formalidade textual. Na dosagem certa, fica um esquema bate-e-assopra bem gostoso de ler.

Isso que o Leo falou sobre começar o conto no meio também é bem curioso. Deu uma sensação de realidade, de dia-a-dia, não sei. Acho que é porque teu texto, assim como a vida, não espera a gente sentar, se acomodar e dar o ok pra começar a rolar. Simplesmente já foi.

Muito bom.

Victor Meira disse...

Valeu, Gabi! Fiquei feliz de te ver por aqui!

É mesmo, Leo? Fiquei curioso com essa questão do sentimento do interior. Uma pira, talvez pura multiplicidade, pura independência do texto, mano. Talvez o relacionamento das personagens traga ontologicamente isso. A cidade raramente envolve o outro, né?

Isaac Seeker, are you seaching low and high? Achou alguma coisa? Brigado pelo comentário, mano. Também ainda tô procurando umas coisas nesse texto. A sensação de estar faltando algo tá na vida.

Aron, você é amor.