1.3.10

Deus e os Bemóis Dissonantes

Tortuosamente grafado, lia-se em giz à entrada do bar: "hoje: Deus e os Bemóis Dissonantes". Ali fora o diabo contemplava acocorado uma pomba decomposta a fornecer alimento e vitalidade aos vermes que dela se serviam. A luz do letreiro que banhava seu terno rajava na textura fina das penas despedaçadas, fazendo com que o banquete aparentasse um cérebro pulsante, radiante de razão. Moroso, ajeitou a peônia na lapela.

O sapato pontudo marcava sua entrada em ritmo amadeirado. Deus acabava de brandir sua taça e brindar com os outros, mas ao ver o recém-chegado, encheu mais uma taça e reatou o ritual. Sentavam-se ao lado do palco e festejavam o tempo dos homens - era cedo, havia poucos no bar.

- Os covardes vêm?

- Acho que não... mas que venham! Nossa celebração vai ser memorável hoje. Não há no céu quem abale uma alma telúrica como você, que saiba deformar o conforto de um pensamento mortificado pelo mundo, Lúcifer. - Deus sorriu como um velho alegre. - A Terra é uma melodia excitante.

O diabo recostava-se no banco como um garoto, sorrindo de boca fechada. Os outros foram ao palco para montar os instrumentos.

- Construí mais cento e sete igrejas desde a última vez que tocamos.

- Quantas almas? - perguntou Deus limpando o bigode.

- Cinco mil, quatrocentas e doze. Ergui também mais sete universidades de teologia, em pouco tempo haverá muita obra andando com as próprias pernas.

- Ah, ótimo, bom trabalho.

- Sei lá...

Calaram por instantes, até que o óbvio emergisse:

- É, em breve seremos dissolvidos, quiçá recriados pelos próximos homens. É uma pena termos que fazer esse esforço pra nos prolongar... Essa vila é um doce.

Sorveram goles. Sabiam que o imaginário rumava a um futuro fatal. Dentro em pouco, e na melhor das hipóteses, seriam meras gravuras mitológicas.

- Tempo é ânsia, Lúcifer, é maravilhoso.

- Cândido, você.

O diabo, como deus, era apaixonado por sua própria existência. Enlutava-se com o prenúncio do fim dos tempos pois, coitado, era mera extensão, uma sombra do criador. Sua alma ardia, enegrecia de vermes. Amavam o mundo porque as horas espalham a demora, intervalam a experiência da existência. Acima do tempo existe apenas um transe acinético onde não há ânsia, espera, êxtase, arroubo, contemplação, vôo ou arrebatamento; há o anacronismo de uma realidade contrária ao eterno, onde tudo é absolutamente imediato.

Astarote provocou os dois com uma frase sedutora e divertida no piano, tal como só os demônios digitam. Subiram, enfim, no palco. No bumbo de Vassago lia-se em versalete: "os bemóis dissonantes". Deus ergueu o contra-baixo e testou a afinação enquanto o diabo ligava sua guitarra semi-acústica no amplificador - era canhoto. Mesmo no papel de líder da banda, deus não estava nem um pouco disposto a ser o censor dos demônios, no sentido de uma virtual regência. Queria mesmo é que seus companheiros abusassem da realidade. As teclas de Astarote deveriam incitar idéias nos ouvidos presentes, e Amdusias estava livre para multiplicar a sonoridade de seu trompete em timbres distintos, criando melodias paralelas de saxofones, clarinetes e trombones. Vassago, em outra feita, fizera trezentas pessoas dançarem no teto do salão, e a flauta de Barbatos já realizara uma porção de estranhas transubstanciações por meios mesméricos. O diabo... o diabo simplesmente inventou o absurdo e, pra todos os efeitos, deus estendia o chão, abria o espectro pra que tudo se tornasse vida.

O bar começou a encher no avançar da noite, e a banda finalmente iniciou com um dueto de deus e barbatos, numa sequência grave e complexa que criava superfície para o sopro de notas brandas. A bateria entrava entrópica, fora das tônicas com frases que pregavam peças na cognição, e em seguida a flauta se redimia para a cozinha, dando espaço a um duelo de arrancar o fôlego entre a guitarra do diabo e o trompete politimbrado de Amdusias. A banda fulgia com esplendoroso gozo criativo, e os músicos não escondiam a excitação daquele momento. Entreolhavam-se com soslaios sorridentes e moviam-se no palco com pés inquietos. O diabo dedilhava desenhando a mesma textura dos vermes que se alimentavam do pássaro lá fora, e que carcomiam seu espírito carregado de uma morte bailarina, furiosa e histérica. Deus infligia um abalo modesto, que fazia as almas quererem se unir num único caldo de plenitude. Não demorou pra que a plateia resolvesse abrir uma roda entre as mesas para dançar. O sagrado e a diabrura estouravam em harmonia clara, sedutora, limpa e terrível. Não havia absolutamente nada pré-estabelecido; todos os temas surgiam e se perdiam no tempo, criando a beleza efêmera ao mesmo tempo em que o mistério do inesperado coloria com tons jubilosos os espíritos presentes. Não houve sequer uma pausa: por cinco horas a melodia não ousou interromper-se, por amor a si mesma.

Ao fundo da sala, Gabriel e outros dois "covardes", Rafael e Uriel, contemplavam o espetáculo recheando a alma com as ondas de êxtase. Muitos outros anjos foram chegando ao longo da noite, misturando-se entre homens e diabos. Todos os seres regozijavam a noite e celebravam a música - os ideais impressos em movimento. Nada havia de tão esplêndido nos planos do desconhecido. O tempo era a festa do mundo.

16 comentários:

Rachel Souza disse...

Deus e o Diabo orquestrando nossas vidas numa jam session do além? Uma situação difícil para nós...Nem Jesus salva! É isso que passa, o texto tem um jeito de fim consentido, com maturidade e planejamento dos maestros da coisa toda.

Rachel Souza disse...

Interessante o fato do Diabo ser canhoto. Pq esse signo do torto, do maldito para os canhotos? Sou canhota, corto um dobrado pra ter uma vida digna. rs

Victor Meira disse...

Sou canhoto também, mana.

Aron Matschulat Aguiar disse...

olha.. eu gostei muito.. (e sim, pode ir cerrando os olhos q eu deixo)
é fluido e como sempre muito bem escrito. teus talentos não são nunca objeto de critica pq ja passou a hora. por mim, já ta acima.
é que teve 2 pensamentos no conto q me impediram d desfrutarlo devidamente..
"Acima do fenômeno existe apenas um transe acinético onde não há ânsia, espera, êxtase, arroubo, contemplação, vôo ou arrebatamento; há o anacronismo de uma realidade contrária ao eterno, onde tudo é absolutamente imediato."
não entendi o conceito de eterno q vc tem e contem o conto..
e
"Dentro em pouco, e na melhor das hipóteses, seriam meras gravuras mitológicas."
uahauhahua tenho mt carinho por gravuras mitologicas
a falha, obvia, é minha. tuas palavras encontraram uma barreira teimosa em mim, infelizmente, parecida c a de um fanatico.

compartilho isto pq és tu, ó, Victor Meira, meu caro amigo.
pq teu conto é muito bom. genial.
Deus e o diabo numa banda é lindo. A existencia no tempo diretamente ligada a musica é matadora.
eu gostei muito. ta tudo lindo.

Heyk Pimenta disse...

mano, gosto.
ainda é cedo para mais posições.
a princípio já é possível dizer que o que traça a respeito do tempo é intrigante.
O resto é pra ser dito nos dias, no tempo. Sei que geralmente não volto, mas não posso ser negligente

Victor Meira disse...

Arão, negão! Brigado pelas palavras lindas, mano.

Bom, sobre os trechos, vamo lá. No primeiro que você apontou, confesso que a construção pode ter ficado um pouco prolixa, um pouco confusa. Resolvi mexer um pouco nela. Ao dizer "fenômeno", quis me referir ao tempo, mas percebo que o conceito abria demais e ficava meio dissolvido. A idéia é de que acima do tempo não há o eterno, mas sim o não-tempo; um lugar onde a existência tá toda ali, estática, congelada num instante.

Sobre o segundo trecho que você cita, digo "meras gravuras mitológicas" pelo seguinte: deus e o diabo são protagonistas da mitologia maior que rege o ocidente (ou o mundo, nesse globo ocidentalizado) nos nossos tempos. Houve outras figuras míticas em outras épocas que inclusive criaram essas que chamo de protagonistas, mas que hoje são meras gravuras porque não tem o poder social-racional que deus e o diabo têm hoje. É claro que essas velhas figuras nunca deixam de existir, pois todas elas são apenas uma, e formam um corpo que vai existir enquanto houver imaginário na humanidade. São figuras que mantêm uma essência primordial, mas que mudam de imagem conforme o tempo desenrola as mudanças sociais no mundo. Deus e diabo são nomes vivos, imagens com as quais interpretamos a mecânica do dualismo no círculo moral e espiritual.

Os deuses mortos estão na essência dos deuses vivos. Logo, o deuses não morrem.

Aron Matschulat Aguiar disse...

lindo, vitão, nego.
sobre o primeiro trecho é exatamente essa a minha barreira: não vejo o eterno acima do tempo - assim como você disse agora - e sim como o agora. não vejo hierarquia. sim dois lados de uma mesma moeda. tempo e eternidade.

o segundo trecho eu entendi isso e achei legal você discorrer mais sobre o assunto aqui nesse espaço. mas a critica, ou barreira mental, era sobre o "meras gravuras mitológicas", como se o meras tirasse o poder da gravura mitológica. como se redescobrir elas não revitalizasse elas. entende o meu ponto? é como se fosse algo exaurido de vida, quando apenas esta enterrado esperando o desenterro. assim como um fossil, esperando ser descoberto, para dar luz a muitas areas cientificas e pensamentos correntes. a própria essência que você diz, sem vida. por causa de um "mera". ao meu ver, é uma barreira minha e não condiz muito com o conto.

Victor Meira disse...

Mas negão, vejo a moeda não como tempo/eternidade, mas como tempo/não-tempo. Acho esquisito tomar a eternidade por antítese do tempo.

E captei a zica com o "meras". Ela tem muito a ver com o texto sim, mano. É que tô achando dificíilimo explicar meu ponto sem cometer uma barbárie nas tábuas da lei da mitologia, hahaha.

Bom, deixa eu tentar. Minha explicação pode conter sacrilégios, mas vamo lá. Deus e o diabo são mais vivos do que os outros mitos (oh!). Isso porque no imaginário popular (para a maioria das pessoas do mundo, ou pelo menos pro universo que abordo no meu conto, que é, por si, esse mini-mundo) eles são reais, são seres encarnados em energia, julgando e interferindo no mundo, na sociedade, no indivíduo. Essas figuras comuns que a sociedade compartilha são figuras existentes, realidades. E é por essa força do imaginário criador de uma figura comum, tida por realidade, e contemplada (louvada) diariamente, que eu me interesso no conto. O que eu chamo de "vivo" é isso: o fato de estar na mente das pessoas todos os dias, nos modos, na prece, na súplica, no susto, na interjeição de impaciência... É isso que difere uma entidade viva do imaginário de uma mera gravura mitológica. É uma implicação social. Mas claro, nada está morto. O que se transformou em "mera gravura" foi a representação de dado arquétipo, e é isso que envelhece. Sua essência transcende o tempo.

Guilhotina?

Aron Matschulat Aguiar disse...

Guilhotina? AHhuahuahuahuahu

Sobre o tempo e eternidade. Você diz: "não-tempo; um lugar onde a existência tá toda ali, estática, congelada num instante". Me vem a cabeça o Hiro do Heroes congelando o tempo num instante. Não vejo isso como um não-tempo e sim como um recorte do tempo. Não-tempo pra mim é o oposto do que você disse: é a não-existencia. E isso da muito pano pra discussão...

Ta perfeito o teu ponto. Pra mim já tava claro desde a primeira vez que li o conto. Por isso eu dizia que era uma briga interna minha... Que, pra mim, não há envelhecimento. Mas tens razão você, obrigado por forçar a discussão! Quebrou minha barreira. Ela envelhece sim no seu ponto de vista, social. Eu tava me aferrando a essencia e não envelhece nesse sentido. Como símbolo que transcende. Esssso :D Cabeça dura. Tem os q se aferram ao social e outros ao transcendente. Vc se pos no meio e eu defendi o eterno sem me dar conta do tempo. Mira vos.

Lírica disse...

Ô, trem, agora vou falar:
Victor e Aron, acompanhei a discussão de vcs com mto interesse e gostaria de fazer algumas considerações.
Sobre o tempo, segundo Schopenhouer, tudo o que existe na realidade é a soma de tempo e espaço nos quais ocorrem acidentes que criam "objetos" cuja permanência ou continuidade depende do seu nível de representação. Ou seja, do quanto a nossa intuição sobre os mesmos consegue compreendê-los e torná-los exploráveis, úteis e contínuos. Daí, toda uma construção poder-se-ía fazer, tendo como substrato Deus e os bemóis Dissonantes. Mas como creio ser esta uma conversa "pra mais de metro", convido a ambos para um rendez vouz regado a um bom tinto argentino e, quem sabe? intercalado por um bom queijo de cabra. D`acord?

Leo Curcino disse...

então tem bar no inferno/paraíso? todos bebem como em comunhão e ouvem música dissonante por toda a eternidade?

muito bom isso, Victão! gostei muito!

Philippe Bacana disse...

com certeza que na banda de deus, ele teria que ser baixista e lider ao mesmo tempo.

Chammé disse...

E o mundo inteiro vai pirar no Heavy Metal do Senhor!
Ah Victão, bença, eu pirei. Valeu brou por jogar vários instrumentos, mas jamais precisar o som. Dá pra imaginar muita coisa, e isso é uma delícia.

E olha, essa é uma das coisas mais gostosas que eu posso dizer de um texto: ele é uma delícia, no sentido que eu posso ler ele de novo só por ler, só porque o processo é bom. É como ver Pierrot Le Fou de novo, só pra ver, tá ligado?

E quanto a discussão do tempo, tenho pouco a dizer: não existe tempo. Existe andamento.

Bença.

tomazmusso disse...

muito divertido e dissonante, é meio ébrio...pô, legal isso de deus e o diabo trabalharem juntos, construindo igrejas pra se manterem na crista da onda, pra não virarem meras gravuras mitológicas, fonte de curiosidade e estudo. e o texto tem vários detalhes legais, é um texto bacana pra ler várias vezes... adorei o nome dos personagens, eles existem mesmo na mitologia? e quem seria o compositor dessa banda? deus é tão inovador, contemporaneo assim? ou é o diabo q continua dando os toques?

Victor Meira disse...

Boa Tomaz, fico feliz com a tua leitura, mano, obrigado pelos comentários.

Sobre os demônios, eles existem mesmo na mitologia. Procura sobre o capítulo Ars Goetia no grimório Lemegeton (A Chave Menor de Salomão). Lá há uma descrição de todos os demônios do inferno. A autoria do livro foi atribuída ao Rei Salomão, o personagem bíbilico, mas na verdade foi escrito em meados do século 17. É um material curioso.

;)

tomazmusso disse...

massa!