1.12.09

O Primeiro Registro

Na rua de papel encerado eu andava de mãos dadas com a primeira existência (enorme, do tamanho do mundo). Íamos ao alfaiate - acho que era meu aniversário de dois anos - para tirar algumas medidas. O tema seria corrida de fórmula um, eu ia vestido com o macacão do Senna.

Aqui, no hoje, uma voz vulgar emergiu quando mudou de assunto.

- Caralho, ela tá demais hoje.

Era verdade. Aliás, ela é perfeita. Meto minha cabeça contra uma parede de aço: é simplesmente a menina que eu nunca vou ter, e que nem vale a pena tentar. Leví tentou retomar o que me explicava antes do comentário inevitável:

- Entendeu, mano?

Não.

- Entendi.

- Entendeu nada, cê tá mó brisa.

- Foi mal, tô mesmo.

- Deixa queto, te explico outra hora.

- Não não, fala aí, cara.

Leví fez boca torta, risonho. Insipirou e recomeçou:

- As profecias se cumprem. Toda formação social é guiada por uma única estrutura do imaginário, um só código mitológico. O apocalipse do mito-da-vez se cumpre inevitavelmente, e abarca todas as almas de sua sociedade. Os sobreviventes são os que não compreendem o mito corrente: seu imaginário se estrutura de outro modo, e ele simplesmente não entende a catástrofe final. Quem não entende a tragédia, sai ileso dela - simples assim. O que a gente toma por ignorância é, de fato, um outro tipo de formação estrutural do imaginário. Por isso esses sobreviventes...

O que Leví dizia era coisa fina, de primeira; mas não consegui evitar. Mergulhei novamente naquele delírio distraído.

Sua mão era grande, ela era jovem e andava comigo com passos que valiam por três ou quatro dos meus. A rua tinha manchas amareladas e um brilho curioso caminhando pela superfície do asfalto. Senti então qualquer coisa fria e molhada na mão solta; um engraxate imprimiu em mim a minha primeira lembrança. Jamais o disparate foi sequer lembrado por ele (que poder ele teve sobre a responsabilidade do ato?). Poeira do imaginário. Pra mim, a graxa na mão esquerda: o primeiro evento da minha consciência.

Hoje sou canhoto (um estigma sem pé nem cabeça).

- Entendeu?

- Entendi. Bem louco.

- Haha, da hora.

3 comentários:

Leo Curcino disse...

o poder do mito.

Carina disse...

você é um canastrão, Victor Meira.

Fica se auto-indulgindo em teorias esparsas sobre o mundo e seus acontecimentos. Aí depois cria esses cenários pra enfiá-las dentro e chamando isso de ficção...tsk tsk

Aron Matschulat Aguiar disse...

seu merdao. eu gostei! ainda nao sei bem pq... mas gostei :D