3.11.09

Transeunte

Jogou aquela tralha toda na calçada e decidiu que chamaria aquele canto de lar. Um colchão velho, um cobertor mais velho ainda, um par de chinelos sujos e maltratados, botas gastas, meia dúzia de roupas, dois bonés e um binóculo. Este último, por sua vez, quase novo, ele carregava sempre consigo. Era tudo que ele tinha. A dignidade ele havia deixado para trás, há vários quarteirões dali.

Com o dinheiro que arrecadou com a esmola do dia, foi até a lanchonete da esquina, comprou um pão com presunto e o resto de cachaça. Saiu de lá se apoiando no ócio e quase tropeçou quatro vezes, mexeu com duas moças que passavam, clamou pelas putas do puteiro ali ao lado, ensaiou uma dança sem música, um discurso sem platéia, sentou em seu canto e se pôs a bater uma punheta ali mesmo. Era ele e seu momento egoísta de prazer. Pronto. Estava realizado por hoje. Podia dormir em paz.

Acordou no susto e viu carros. Muitos carros. Quase mais carros do que pessoas. Luzinasgritospassosmotoresfreiadastropeçosconversascelularestocandobuzinasemaisbuzinascaos. Estava tudo ali ao mesmo tempo. Três crianças fumavam crack logo ali, enquanto outras duas pediam esmola no semáforo.
Ezequiel nem chamava mais tanta atenção. Vários outros como ele transitavam naquela rua. Subitamente, ele havia até recuperado seu nome. Pegou o binóculo e começou a observar os detalhes. Naquele momento, ele era o único que enxergava.

9 comentários:

Heyk Pimenta disse...

o fim é quase inusitado, mas o texto é crônica de classe média assustada. qualquer coisas cheia de mais do mais do mesmo.

Victor Meira disse...

É vislumbre, recorte citadino, impressão calcada e marcada a ferro por uma visão que se repete diariamente no enquadramento da janela do buzão.

Se é mais do mesmo, é por que não para de sensibilizar a classe média. Eis uma das musas desse nosso mundo contemporâneo.

Leonardo Curcino disse...

nós estamos vivendo há anos o "mais do mesmo". é só olhar lá fora. o mesmo vai e vem e volta e vem. ele sempre está lá e quase sempre coberto de razão.

o conto foi realmente isso: mais do mesmo visto aos olhos de alguém com poucas possibilidades, o que faz dele mais do mais do mesmo.

obrigado pelo comentário, Heyk. esses que nos ajudam a crescer e entender pontos de vistas distintos.

Heyk Pimenta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Heyk Pimenta disse...

fala desse texto léo, as motivações e estilísticas e finalidades com ele?

a ideia de crônica que disse tem a ver?

e outra, gente, não é porque o real não muda que temos que ser jornalistas de notícia velha na hora da produção literária.

Conta das motivações e perpectivas desse trabalho, Léo?

Abração

Philippe Bacana disse...

oxa, muito bom. logo me familiarizei
eu acho que eu tenho um quadrinho pra esse texto aí. eu chamava ele de zé buceta, mas daí parei de chama-lo assim.
nao tenho foto, se não eu postava agora dia 7. seria legal.

um abraço Leo!

Leonardo Curcino disse...

então Heyk, na verdade o conto é um pedacinho só de uma união de contos que pretendo transformar numa graphic novel futuramente. sao contos urbanos que mostram a dualidade entre o rico e o miseravel, mentes caoticas e preocupadas, mas ao mesmo tempo totalmente despretensiosas, o mendigo dito indigno e o filhinho de papai que fugiu de casa e foi parar pras ruas, drogas, indiferença, conversas de metrô, situações rotineiras que acontecem o tempo todo em uma metrópole a gente finge que não acontece. Enfim... Desenvolver alguma coisa ao velho estilo Will Eisner, adaptado para o cenário do terceiro mundo paulistano.

Leonardo Curcino disse...

e fiquei curioso pra conhecer o tal zé buceta. hahaha. abs.

Heyk Pimenta disse...

Massa! Gostei das ideias todas, Leo.

E o Zé Buceta é fantástico!