1.8.09

Um Terno Emissário

O braço gordo e flácido suportava a cabeça debruçada sobre o caixa. Eram oito da noite e sua nádega pregava-se já dormente no banquinho da catraca. As criaturas da terra do mistério já haviam decidido quem seria o emissário da oportunidade seguinte, e todas se reviravam excitadas esperando o tempo certo. O sopro que driblava a fresta na janela arrancava tantos sonhos fabricados naquele berço de justiça e humanidade que seu corpo - o hospedeiro - recusava qualquer esforço e se deixava embalar pelo dinossauro de aço. Então chegou a hora da ação: dois tentáculos aquosos abriram uma fenda de dentro de sua nuca - os pelos todos arrepiaram - e buscaram liberdade rasgando a pele. Saiu do corpo obeso uma criatura-polvo, lançando tons de luminosidade amarela-mortiça no vagão. A luz revelava a face nulificada de todos os passageiros. Escorregou com o freio do veículo e caiu como uma geléia no chão, avolumando-se até ganhar um aspecto humanóide sem perder o breu e o visco. Lançou-se sobre o primeiro corpo - os corpos pareciam mortos, inexpressivos - e o envolveu. Então o digeriu com um som terrível de trompetes desafinados e ossos sendo moídos, arrastou-se até à porta e o expeliu corado e vivo: um senhor de meia idade, leve, sem pensamentos na cabeça.

O senhor de meia-idade saiu tranquilo, realmente leve. Dava pra ver pelo sorriso pastel, de cenho sossegado. O polvo-humanóide ficou observando, tão enternecido quanto melancólico (em sua cabeça flutuavam sinfonias sublimes, violinos tristes de Schubert).

Então voltou a lançar a luz no vagão. O caso era o seguinte: o emissário tinha tarefas muito específicas no mundo objetivo dos homens. Hoje tinha de aproveitar o sono da cobradora pra se alimentar. Seu papel era ser o estômago do ônibus: a porta da frente abocanhava, a de trás expelia. Libertou-se enquanto sua hospedeira dormia e transformaria os cidadãos ao longo da tarde no vagão. O único empecilho potencial era o motorista, que já trabalhava há mais de cinco meses, 16 horas por dia, sem fins de semana e feriados. Dentro de seu crânio havia uma sopinha de cérebro e a realidade lhe era mero detalhe. Por isso, o polvo e as criaturas comparsas assumiram que a incursão era segura. Sim, porque os cidadãos nunca percebem nada quando estão em meios públicos, e isso acontece nas ruas, no metrô, em estádios, na missa, nas fábricas e em grandes escritórios; qualquer lugar onde haja grandes quantidades de pessoas que não se conhecem.

Súbito o ônibus tropeçou num buraco e a cobradora acordou num solavanco meio sonâmbulo, pegando o polvo-humanóide no flagrante. Ambos arregalaram os olhos com grande expressão de espanto, e permaneceram eriçados e petrificados enquanto o ônibus rugia a aceleração das primeiras marchas. O polvo constatou que todos os passageiros olhavam para a expressão de horror da cobradora. Na ponta dos pés, começou a voltar à sua hospedeira, discreto e devagarinho. Talvez ninguém o notasse a tempo. Subiu no caixa abandonando o aspecto humanóide e saltou na cara gorda e arregalada, entrando pela boca e impedindo-a de gritar.

As feições começaram a se acalmar. Uns passageiros riam. Outro lhe-perguntou:

- Tá tudo bem com a senhora?

Ela estava confusa. Achou que era um pesadelo. Mas o pesadelo havia ultrapassado os limites do sonho (como isso aconteceu?). No fundo do ônibus, um menino desenhava um molusco na última página de seu caderno de rascunhos.

7 comentários:

RM. disse...

me lembrou o apanhador de sonhos do stephen king, mas não tão nojento quanto!
mto bem escrito Joe, eu gostei! Gostei mais ainda do detalhe do menino do caderno, eu sempre achei que as crianças enxergam coisas que nós não conseguimos.
Bom, nçao sei escrever críticas literárias que nem vc, mas saiba que eu li e gostei!
beijos!

Carina disse...

ai ai...seus textos são sempre uma pira além de meus comentários tangíveis, mesmo que em primeiridade...

Lírica disse...

KKKKKK... Será que eu tenho um polvo desses? Se tenho não é tão poderoso pq tem mta gente que eu não consigo digerir nem em sonho... Hehehehe. Brincadeira. Adorei as metáforas! E o desfecho!
Pirado. Mas mto bom. Deu-me ote pra outro conto.

Luna disse...

PRECISO falar uma coisa... impossível comparar as postagens aqui. desde que eu conheci esse bróg fico pasma com as do victor - acompanho o quadrado vermelho também.
imprimo todos os teus posts - daqui e de lá - e mostro para o meu pai, repasso por e-meil e etc.
deixo aqui registrado minha tímida admiração :)

Luna disse...

e-mAil, néééé; hahahaha

Leonardo Curcino disse...

o dia-a-dia do transporte publico é fascinante. eu ja vi bichos, ja vi monstros, velhinhos educados e mal-educados, gente simpatica, gente marrenta, gente que nao é gente, enfim, mas isso é fascinante.

pena que ele para tao cedo.

tomazmusso disse...

que legal esse conto!! quanta tristeza fria e engraçada nesse retrato fantástico de uma grande cidade. e esse bicho? fronteira tênue entre realidade e sonho. o final, levando em conta todo o resto, o torna sem dúvida fantástico, é o link com a realidade. adorei os termos, sopinha de cérebro, realidade mero detalhe, etc... muito bom!