17.6.09

Ouvindo Haydn e Beth

Piano suave de introdução e mais um sem fim de instrumentos divinamente concatenados. Metálicos, com sua imponência, cordas isso, cordas aquilo. Mais um trinado de piano, ora suave, ora forte. Altos e baixos rítmicos e a alma dança uma orquestra de vidas inteiras. Música clássica. Ela crê que nunca entenderá o funcionamento. E crê que assim seja o amor, concerto desconcertante do pianista sem dedos, músico surdo às 3 da manhã.

A moça de saia puída, sumariamente excluída, sabia dormir acordada, as privações não lhe atingiam. Era a cavaleira de vermelho com lança e exército imaginário, caçava borboletas no jardim de lírios e espadas -de são – Jorge altas como o céu roxo. Antes do baile ele, de passos macios, disse não serem lírios e sim girassóis ou talvez violetas. A moça ouviu o vento ardente e confirmou os lírios. Sorriu bestamente, abriu os olhos. Percebeu ter diante de si mais um trinado de piano e os quadros tortos na parede, o que não era tão mal se levando em conta suas ambições. A moça sabe que houve um tempo em que era poesia. Hoje a faz em tentativas. Talvez a vida seja isso, um eterno retorno ao estado poético mais puro, à respiração-verso. Na manhã de bicicleta seguiu, com seus olhos úmidos de contentamento framboesa e, quente e verde, se aproximou da janela.

4 comentários:

Victor Meira disse...

Mas essa moça faz charme, se acha que o-tempo-em-que-era-poesia se foi. É um recorte lindo, Rachel, muito mais poesia do que prosa, no meu modo de ver e de sentir.

Engraçado cê falar do Haydn. O Marcelo Leite falou, há umas 2 semanas na Ilustrada, que ninguém ouve muito Haydn. Hahaha, bacana. Ele dizia que o Beth(forno) e o Mozart ainda eram pops, mas o Haydn ficava meio apagadinho nessa contemporaneidade i-pod.

Viva Haydn. Legal cê ter falado dele. Vou baixar. =)

Beijó!

Rachel Souza disse...

Quase me dissolvi de chorar ouvindo Haydn... Por sorte estou viva.rs

Caco Pontes disse...

quadro torto e música da vida: coisas que têm me ocorrido com certa frequência. Frequência esta que pode ser o próprio som do universo e quadro torto, enquanto reflexo da imperfeição. Evoé!

Heyk Pimenta disse...

rachel!

ser poesia, né? ser e fazer, né? dá trabalho. é que nem confundir lírio com girassol mesmo.