5.3.09

Sobre o Infinito Nulo


O gosto da solidão é poder estar tranqüilo, sem interferência da fala, do olhar, do ar denso de entrelinhas vacilantes, sozinhas pensantes cogitadas em olhar. É aquele momento em que você diz a si mesmo entre um suspiro e outro “nunca esquecerei esse momento”. Nessa pausa é possível lamber a vida e seus sulcos de claridade que antecedem tal fala e pensamento, fala essa que sempre que posso digo e repito a mim mesmo. Devo dizer que não foram poucas as vezes em que me peguei nesse estranho entorpecimento e, mesmo assim, provar desse potente alucinógeno sempre me é um momento único. Talvez seja muito parecido com a própria morte. A consciência se esvai junto as cinzas do cigarro que deixo cair, e pouco a pouco vou perdendo a visão, o tato, a realidade. De olhos fixamente aberto ainda posso ver as cores que sibilam pela visão como num caleidoscópio fora de foco e, nesse momento de sensibilidade e desapego algo me toma pelas asas e me atira dentro daquilo que denomino o infinito nulo de tudo. Esse não é um lugar material, é um espaço na existência, uma pausa atemporal. Sou um ponto tão pequeno que mal posso sentir a mim mesmo. A minha volta uma aura se forma entre expansões e contrações marcadas por um ensurdecedor ruído indefinido, um ruído mental que só pode ser sentido nas entranhas de nossos sonhos mais lúdicos. A cada movimento a energia cresce infinitamente mais e sinto no seu vácuo uma explosão de sensações impossíveis. Talvez seja muito parecido com a verdadeira vida. Posso sentir o infinito tão completamente que é impossível deixá-lo carregar-se totalmente, seu peso é insuportável ante a minha existência tão efêmera.

Quando pisco os olhos já secos posso ver o cigarro ainda queimando.

Não se passaram trinta segundos.

8 comentários:

Pedro Kobuti disse...

cara, adorei
eu não costumo comentar com frequencia, mas esse texto expressa muito bem a sensação de estar bem consigo mesmo, totalmente sozinho. é uma sensação única mesmo

animal, tuliao

TEZ disse...

Esse mergulho pra dentro de si
mesmo é um momento ímpar,um quase nada consegue tal façanha...
O som aniquila a grande beleza do silêncio...

belo texto
aeeeeeeeee

Malaspina...pai disse...

Em trinta segundos se vive uma vida...algo muito parecido com uma cena do filme Perfume de Mulher....
Em um minuto se vive uma vida...

Um belo texto...Parabéns...]

Malaspina (pai)

tomazmusso disse...

cara, realmente muito bom! gostei do jeito de fazer literatura como se contasse uma experiência... é um momento único esse e que a gente fica embasbacado e tenta contar pra alguém e não consegue achar as palavras. vc conseguiu. boa!

Victor Meira disse...

A solidão é uma necessidade. E o texto é meditação poética-transendental. Carambola! A leitura me levou pra um lugar de semi-empiria, onde pratiquei, por meio do texto, um encontro de impressões fundamentais comigo mesmo. E é interessante como, no próprio texto, conforme as camadas vão cedendo, a gente vai chegando não em direção a um âmago, mas a um vazio primordial, a um infinito nulo, sem matéria, de formas etéreas. Eu tava lendo uma coisa engraçada ontem, que eu acho que tem sinergia. Vê só:

"Ramakrishna compara a estrutura folhada do bulbo [da cebola], que não chega a nenhum núcleo, à própria estrutura do ego, que a experiência espiritual debulha camada por camada até a vacuidade. A partir daí nada mais constitui obstáculo ao espírito universal, à fusão com Brama."

É bacana.
Bom texto, Tulião.
Abraço!

Lívia Ferreira disse...

Maravilhoso! Tenho passado por mtos momentos como esse de uns tempos pra cá, me vi no texto, exceto pelo cigarro e pelos 30 segundos (na realidade, passo horas no infinito nulo)

Carina disse...

nossa Túlio, obrigada! esse texto foi tipo uma peça de quebra-cabeça para o entendimento, foi dar nome aos bois. foi o que também sinto nesses momentos de distorção temporal do silêncio, mas em versão Túlio.

obrigada por compartilhar!

Chammé disse...

Tuliones,
por mais sentimento que esse texto possa ser, juro que eu "entendi" ele, só pra aumentar o absurdo.
Eu já tinha tentado falar desse silêncio pessoal e necessário aqui no Maná, mas em parte foi inócuo. Pois o muito louco aqui é que você vai até as profundezas, onde não dá mais pé: depois do silêncio aparente, social e reconfortante, vem o infinito.
Tô com o Carinão aqui em cima: obrigado por indicar, pelo menos, o caminho para o seu Infinito Nulo.
Abrazzi.