15.3.09

Ministérios do ônibus (pela porta de trás)

O pior de se ter um professor de poesia é a possibilidade de ele te ensinar o que sabe, e daí, você desaprender o que não sabe. Sendo assim, prefiro seguir esguichando desodorante no pega-pega palavras de um ar bem raso, ocre, auscultando vistas, com poder de veto, de reprovar e recuperar – demore muito o processo; é cada instante de uma viagem. Porque nessa o aluno ainda pede passagem; pede ar, peeeeede!!! Só espero depois não ter que passar por uma dor de barriga que me faça pedir pra sair mais cedo. Ter que virar explicador. Mas, na idade besta em que me encontro, o mais importante é esse: O pior de se ter um professor de poesia é tudo acabar se embrulhando num ônibus do noturno. Até a mão dizer chega de tocar a campainha e devolver a caneta ao trocador, aprendiz de motorista. Não trocar raso por um vaso – por uma vazante. Devolver também a janela. Mobilizar-se e esperar até o último passageiro descer; porque esse, quem diria, é sempre o médico, e nunca antes pensáramos nele, lendo ali no ônibus, ocre, auscultando vistas, com poder de veto, de reprovar e recuperar, esse eu e você, entra e sai, com a provisão deste ou daquele mês, os halterofilismos em se manter de pé, segurado por qualquer coisa desde que não parta lá de dentro e derrame tudo.


Rod Britto, 2009 – Rio de Janeiro / Brasil.
gratoporlembrar@gmail.com

4 comentários:

Victor Meira disse...

O medo de virar explicador se dissolve no leitor que tem vontade. Que fica não se perturba por não encontrar uma configuração convencional ao longo da leitura.

Quando o corpo tá amarrado numa linguagem só, o próprio texto imbui o leitor do dom da glossolália.

Contudo, o mundo é o professor mais opressor e ditador que pode haver.

tomazmusso disse...

cara, muito bom o texto. isso de "desaprender o que não sabe" é demais. é arte contemporânea!!
abraços

Lírica disse...

Saudável resistência!

Leonardo Curcino disse...

bem bacana! e poesia se explica na escola?

salve rod!