9.2.09

Marola

Prefácio: esse texto possui erros gramaticais convictos, como "idéia" com acento.

Abri o caderninho que já me acompanhava há três anos, com bordas amareladas, e quase escrevi: “Eu amo a praia”. Me veio, de imediato, a repressão: que frase mais idiota, quem é que não ama praia. Talvez quisesse dizer que amava o mar, mas isso ainda seria mal explicado: o jeito que eu gostava era bem diferente do farofeiro que “toma um bronze” na cadeirinha de alumínio e, vez em quando, vai no mar pra mijar. Sou daqueles que se liga na ondulação, no sentido que as ondas quebram. Eu me divirto no mar, enquanto a maioria das pessoas só relaxa.

O início dessa vontade em anotar no caderninho foi há dois dias, na praia mesmo, com a Laís. Já era noite, e enquanto a gente fazia aquele silêncio de namorados, sentados na areia, fiquei pensando como o surf era uma celebração do dia, do nascer do sol, e só alguém afim de pegar onda mesmo pra ficar em pé às 5h da manhã de um sábado. Mas quando anoitece, o vento inverte a direção e não se vê mais nada dentro do mar, e dessa maneira você fica sossegado com a mina do lado, olhando a praia. Concluí que o dia foi feito assim de propósito, para evitar que o surfista ficasse dividido. E foi aí que Laís furou minha idéia: “Cê tá pensando em ficar aqui segunda também? Porque eu queria subir amanhã de noite, já”. Devia ser de birra, na sexta eu vi a previsão do lado dela, e ainda comentei que a ondulação ia tar perfeita no começo da semana. Fiz só um silêncio, que acompanhou o comentário “cê que sabe” dela. Acabamos desconversando e voltamos numa boa para casa.

Domingo, 6h da manhã. Esperava ter acordado mais cedo, mas considerando que eu não usei despertador, tava ótimo. Vesti logo o John, peguei a prancha e dei no pé. Chegando na praia encontrei o Coimbra, que morava ali por perto e certa vez me disse: “Quando você tá na onda, você tá ali e pronto. Se tua mina tá dando o cu para o cavalo, não importa, se sua mãe não gosta mais de você, não importa”. Lembro de rir bastante com isso. Todo molhado, ele confirmou que as ondas tavam realmente boas. Já tinha visto umas mais altas por ali, mas aquelas ainda valiam a pena. Ficamos por uma hora no mar até o inimaginável acontecer. Tinha feito o drop e me preparava para fazer a primeira batida, quando o Coimbra gritou logo atrás “olha o tubo!”. Já vi muitos tubos pela TV, mas ao vivo é sem palavras. A água ao redor bloqueia o som de fora, e a sensação é de estar numa sala em silêncio durante três segundos absolutos. De todas as idéias que o homem já teve sobre o paraíso, um tubo deve ser algo bem próximo. Surfamos o resto do dia com esse episódio na cabeça.

No fim da tarde encontrei a Laís, e lembrei do assunto do dia anterior. Fomos comer e ela não disse nada, mas quando chegamos em casa sua mochila já estava pronta sobre a cama. Olhou para mim e perguntou “e aí, como vai ser?”. Eu, fitando minha prancha como se enxergasse através dela, respondi “vamo nessa, eu te levo”. Encarei todos os fatos naquele breve período de tempo: se escolhesse o contrário, em ficar, ela se magoaria no ato. E eu não podia desperdiçar isso, não sabia o quanto ela ainda ia gostar de mim. Já o mar não me demonstrava nenhum tipo de amor, e talvez por isso, fosse o único que eu amaria por toda vida.

10 comentários:

Victor Meira disse...

Haha, tô de cara. Que texto gostoso, brodinho. Rachei de rir ali no ditado do Coimbra, mesmo antes de saber que o protagonista também havia rido (yes, particípio).

Brigo com o protagonista no desfecho: será que o mar não o ama? De qualquer forma, o fim é lindo quando o personagem confessa amar justamente quem não lhe retorna afeto.

Viva, Chammé!
Teu texto tá ganhando corpo e cara.

Victor Meira disse...

(E sim, era do dito do Coimbra que eu tava rindo aqui atrás do monitor.)

tomazmusso disse...

Legal hein mano!!! to com o Victor: texto gostoso, e preciso.que traz uma grande surpresa no final: o da continuidade do amor onde não existe o apego: como o zen-surfismo... Que Viva o surf, Viva o mar, Viva o amor, Vivamos nós!

Tulio Malaspina disse...

Fala Chammé!

Cara, gostei bastante do texto, principalmente da descrição do tubo... Viajei dentro daqueles segundos em silencio...
O inicio deixa claro também que o personagem não é desses amantes simplistas, porém o amor "final" é simples e profundo.

O amor é livre de apego!
Lindo!

Abraços!!

Lírica disse...

Lembra do famoso "Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus"? Chammé acabe de lançar aqui: Homens são do Mar, Mulheres são um pé no saco!... pelo menos aquelas que gostam de se impor, intimar... pena que não tem sempre um Coimbra pra avisar quando uma mina dessas tá se proximando pra lhe fisgar, né?
Mas... Chammé, o texto é um mergulho bem filosófico. Impressionante. Pelo que vc passou aqui, as mulheres estão perdendo as características que tinham em comum com o mar: mistério, profundidade, maleabilidade, força interior, beleza. Até o "tubo" da onda, no caso, é mais digno de apreciação do que a porção tubular final do aparelho digestório da mina... Je suis desolè...
O início soa como filosofia de beira de praia, e acho que bem a propósito, mas ao fim, o silêncio submisso do surfista faz um tubo que pega o leitor de jeito e o faz meditar por bem mais que uns segundos.

EduBarreto disse...

Uiê, grande Chamezinho!!

Curti o texto cara. Tem um estilo despojado que dá pra levar a sério!!

keep walking

abs mermão

Bagunceiro disse...

olhei e vi o Maurício cara!!! Se é que vc me entende! hauhauah
Abraços...

Lívia Ferreira disse...

Meu Deus, chegou a me doer o fim desse texto!!

Leonardo Curcino disse...

grande chamme! cada vez melhor! ja gostei do inicio! esse texto é a sua cara, rapeizi.

o final me surpreendeu, confesso. deu ainda mais vontade de ir pro mar o quanto antes de novo! (:

Carina disse...

ai ai Chammezito...que alegria ler tuas palavras! era mesmo disso q eu tava precisando, se vc tivesse seu proprio blog eu iria até lá...como não tens, ainda bem que eu tropecei por aqui!

me identifiquei com a ondulação... oq eu adoro do mar é que ele interage com vc, enquanto uma piscina é só um buraco com água.

e quanto ao amor...sei lá! o dia que eu souber, te aviso!