1.1.09

O Limite da Arte (Ensaio Sobre o Condicionamento Estético da Natureza)

O lago vasto cintilava em raio de sol - a tarde era um turbilhão cromático. Julio discutia com Ciço: um era músico; o outro, designer. Álvaro ouvia e sentia o ar colorido. Enquanto Ciço se deleitava em pensamentos, o contento de Júlio era a argumentação:

- A natureza é a coisa mais bonita que existe. Nosso entendimento da beleza surge da perfeição que já existe no céu, no nosso corpo, nas plantas.

Soou como qualquer devaneio em ladainha grega, isso é certo. Prosseguiu:

- Por isso a música é fantástica! Ela não segue nenhum padrão natural. Toda criação artística é um esforço humano que visa a perfeição estética, e o único caminho do qual dispomos é a organização dos elementos do caos.

Pausou novamente. As intenções do argüente começaram a tomar forma. Então, desferiu:

- O meu ponto é: a inspiração do artista visual já é bela por si só e, por isso, toda produção acaba sendo inferior ao objeto inspirador. A música é diferente.

Deixou o argumento se espalhar como água no tapete. Álvaro achou ser papo furado e se distraiu com uma borboleta. Ciço logicamente não concordava, mas estava gostando dos disparates do músico. Pra ele, quando a arte se propõe a representar - e não a imitar, - ela transcende a natureza por criar algo que a outra é incapaz criar e, ademais, é, a cada obra, uma revelação do mistério do inconsciente humano. Assim, tudo o que há de irreal - ou não-imitativo da natureza - na pintura representativa vem de convenções estéticas.

Logo, sua própria conclusão o intrigou: verdadeiramente, que era uma convenção estética? Por que havia coisas como códigos de cores concordantes? Por que havia simetria, organização espacial? De onde surgia todo este código? A harmonia era fruto de longos estudos sobre a natureza primitiva - essência - do olhar? Disso, a natureza impunha um código de perfeição ao homem... e mesmo na criação de uma imagem representativa, o belo surgiria por meio de um olho condicionado pela natureza.

Dessa forma, Júlio não estava errado. Como algo pode ser mais belo do que sua própria essência?

Enquanto Ciço travava um enigma consigo mesmo, Álvaro sentia o mundo, mas não deixava de ouvir tudo de soslaio. Júlio insistia em sua bravata em prol da música:

- A beleza da música, diferente do ideal da imagem, surge da desnaturalização dos sons, da execução organizada dos sons. É um código criado pelo homem - prosseguiu Júlio.

As palavras do músico soavam longe, como que de outro planeta. Ciço compreendia que o código da música, assim como o código da escrita, era semelhante ao código visual - uma maçaroca de definições cuja intenção era organizar toda expressão sensível. Seria em prol de um progresso intelectual? Júlio percebeu então que Ciço alçava vôo em seus próprios devaneios. Arriscou ainda:

- O resultado é puramente estético... e é por isso que... encanta...

Desistiu. Parou por alguns segundos. A brisa fresca batia nas canelas dos três: Álvaro vivia, apenas; Ciço mergulhava em duros questionamentos e Júlio tricotava uma intriga que pegasse melhor que a última. logo, formulou sua provocação:

- É na estética que a música supera a literatura - cutucando Álvaro, agora. - Porquê o resultado da literatura é tão minimamente estético que precisa-se raciocinar para sentir... um esforço intelectual para obter um deleite estético. Esse é o absurdo da poesia.

Álvaro era poeta. O argumento o arrancou de seus devaneios e lhe causou pertubação. Incomodou-se com sinceridade, e deixou transparecer. Dias atrás ouvira uma composição de Júlio, pra violão, e se encantara. A música o havia tirado do chão; era singela e forte como uma moça bonita de vestido no verão. Daí, se perguntou se sua poesia já lançara tamanho feitiço em seus companheiros. Temeu, e em seus modos infantes, demonstrou seu desagrado com uma carranca a Júlio. O músico se satisfez.

Ciço e o poeta respiraram toda a tarde apenas com alguns sorrisos em interlúdios e pausas semibreves - nenhuma palavra. A tarde ficou ainda mais colorida ao fim dos solilóquios do violonista ardiloso.

No caminho de volta, Júlio recomeçou todas as provocações. Ciço notava a cadência dos passos marcando ritmo, criando percussão em meio ao canto dos passarinhos que, intuitivamente, juntavam notas harmônicas em suas melodias simples. A natureza não fazia música, mas o que o homem escutava na natureza durante toda a sua vida consolidava-se como música. Devaneava: o parâmetro de todos os códigos estéticos - seja música, imagem ou letras - sempre é natural. A estética precede o homem. Assim, toda criação artística tem um parâmetro, um centro. Regras?

Esses pensamentos desanimaram um pouco o designer. Reconhecer o condicionamento da natureza na criação dos parâmetros e códigos estéticos era reconhecer o limite da arte.

20 comentários:

william galdino disse...

Fala Victor, então iniciamos o ano com estes novos ares do maná. E esse primeiro texto são as boas vindas pra essa nova proposta , passeando em volta do lago entre designers, músicos e poetas.

Arte como possibilidade de transcendência, de atravessar e ir além.

E para a dissonância/discordância entre os músicos e poetas chamemos os bardos para resolverem a questão. Abraço e até.

Lírica disse...

Lírica disse...
Bem fez Ciço...
Mesmo que doa em nossa onipotência infantil perceber-nos limitados, este é o caminho para a visão do infinito. Admitindo-o, poderemos, talvez, ver os códigos e convenções como matérias-primas que podem ser combinadas cada vez mais sutil e ousadamente, como modificadas, ou transgredidas. Ademais, perceber o infinito além da natureza que os olhos imediatistas_por mais contemplativos..._possam ver, nos possibilita brincar com outras linguagens e outros elementos. Os do infinito... os do caos. E uma vez satisfeitos com estes, inventar o novo...

1 de Janeiro de 2009 14:38

Leonardo Curcino disse...

"[...]Reconhecer o condicionamento da natureza na criação dos parâmetros e códigos estéticos era reconhecer o limite da arte."

Esse trecho resume bem o discurso do texto. Mas será que há mesmo o limite? Se existe, os limites não estão aí para serem quebrados?


Grande Victor, começou bem o blog!

Victor Meira disse...

Leo, o enigma proposto po Ciço é esse: como quebrar esse limite (da natureza do nosso ideal estético)?

Abração!

Heyk Pimenta disse...

Cheguei nos quarenta e 6 do segundo tempo, mas vim.
Bons caros que aparecem por cá: viva a nossa santa paciência de insistir em produção barata e bate-papo em 2009. Viva um ano outro.

Victão, é meu rapaz: legal pensar o caos do Julio.

E legal ele não ter lembrado dos passarinhos né? E bem mais legal ele sendo músico reconhecer estética no visual em volta e não reconhecer estética pelos sons do em volta.

E o Ciço, pô, que viu que a gente tira os parâmetros da natureza. Mas aqui, cognição é natural. Cognição é natural? Insight é natural?

Se for estaremos sempre baseados na natura pra criar até o novo. Se por trazer novas coisas o ato criador em si deixar de ser natural não estaremos mas nos parâmetros estéticos da natureza.

Mas acho que não. É o próprio ato criador em si que é natural. Criar é natural. Seja lá o que for criado. O ato de haver criação talvez seja o parâmetro base da relação com o que é natural. Muito mais do que as linguagens ou os sucessos do que foi criado.

Agora, uma coisa também vai ter que ser pensada: A criação sai da experiência com a natureza e com as coisas naturalizadas + os insights e uma organização nem sempre balizadíssima do inconsciente e da intuição.

Isso é regra? E sendo regra, dá pra falar dos limites sendo a intuição e o delírio, o devaneio, muitas vezes os balizadores da arte?

Saibam, aqui não falo de representação. Caguei pra representação. A brincadeira é inventar máquinas pra resolver problemas que não existiam antes delas existirem, sabem? Blogs tem a ver com isso.

Obrigado a todos por estarmos fazendo isso.

Obrigado, Victão, por ter tomado soluções drásticas pra esse espaço nosso ter alguma graça.

Victor Meira disse...

Heykó, lindo comentário, nego. Tenho umas questões acerca dele:

Primeiramente, você diz:

"A criação sai da experiência com a natureza e com as coisas naturalizadas + os INSIGHT e uma organização nem sempre balizadíssima do inconsciente e da intuição (...) dá pra falar dos limites sendo a INTUIÇÃO e o DELÍRIO, o DEVANEIO, muitas vezes os balizadores da arte?"

Disso, dois virgula três abacaxis:

O que é, em si, o insight, a intuição, o delírio e o devaneio? São ilusões de uma capacidade criadora? São pulsões, impulsos, vontades de representar a nossa experiência com a natureza?

Depois, ao fim, você parece implicitar que a intuição/delirio/devaneio são atributos livres das amarras limitadoras da natureza, quando são as motoras do ato-arte. Isso é certo?

Bom, é isso. O Zinabre é nosso jardim há um ano e meio e, aos trancos, a gente vai aprendendo a florir ele de um jeito cada vez mais bacana.

É isso.
Um abração!

Miguel Barroso disse...

Ora eis uma boa proposta, voltarei para degustar.



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Lírica disse...

"Insight é natural?"
Interessante... porque há duas naturezas, pelo menos. Pode ser que haja infinitas, mas há uma que vemos, tocamos, e de cujo gosto e cheiro provamos e cujos sons escutamos. E outra que é numinosa... o lado negro, misterioso, sem noção de tempo e espaço__e portanto, não passível de organização__ que é o inconsciente, de onde temos vislumbres fantasmáticos chamados, ora vejam: INSIGHTS!

Karol Armstrong disse...

"Como algo pode ser mais belo do que sua própria essência?"

O importante não é a maneira que você expressa sua arte, e sim o que coloca nela. O que pode tocar um coração é aquilo que é feito com outro coração.

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Percebi que esse blog será (pelo menos pra mim) mais interessante do que imaginava.
Não somente as postagens, mas também os comentários sobre elas.

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E Victor Meira, já espero ansiosa pelo próximo post.

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beijos e até

Heyk Pimenta disse...

Adoro as impertinências das nossas dúvidas. E componho a conversa:

Tô vendo aqui o Ensaios Radioativos do Marcio-andré. E isso tem um sentido fudido.

É assim: o Marcio-andré, que é um jovem como nós mesmo, e ousado pra caceta discorre em torno do entendimento da

poesia nas origens do homem, mostrando uma outra idéia de origem e uma outra idéia de poesia.

E isso corta juntinho com o que você, Victor discute no texto. Ele detecta a poesia da poiesis mesmo como intentona criadora, como o ato do descolamento entre as realidades do real e a intervenção inventiva. Não é isso. Mas dá pra entender isso sim. Aí o homem ser humano enquanto tal estaria muito ligado à poiesis, que seria o que tornaria o homem um animal outro, um animal que olha o céu e faz café.

Me ajudou a pensar os limites. Sendo que foi esse recorte: o recorte do castor: que faz casinha. O do Jõao de barro que também faz casinha; esse recorte o da transformação não fisiológica, ele é poesia, ele é reorganização dos limites.

Limites, sim. Sempre. Mas cada vez marcando fronteiras diferentes na existência, né?

compulsão diária disse...

Eita que eu cheguei no meio, não! Cheguei nadando calma e o mar é alto.
Por enquanto, movimento básico pra não afundar. Reconhecimento.
altas marolas, moçada.
Puxadíssima esta maré. Mas eu fico e quando recuperar o fôlego, falo!

Henrique Smith disse...

Uma matilha dentada de dardos marchando em direção ao alvo!

Um barato ver tantos nomes acompanhados dos sobres pairando numa poça cibernética neh? ahhaha

Parabéns pela iniciativa, já tinha me interessado, abriu mais que bem meu caro.

Gostei do "sem noção de tempo e espaço__e portanto, não passível de organização", logo ali.

A volta ao todo, o grande óvulo, amor incondicional que, de tão TÃO, nos parece com a maré infinita do caos?

Disse um sábio certa vez que nosso cérebro perde tempo com coisas como o tempo e o espaço, as proporções. Como rodar um campeonato, com milhares de pequenos orientais jogando um FPS qualquer, no LHC.

Chammé disse...

Pego o vácuo da Compulsão Diária: a maré da conversa sobe e o mar mal da pé. Por isso eu, como bloguista iniciante, boto bóias em meus bracinhos: falarei sobre um recorte.

Julio defende o ponto da música como plena estética humana, enquanto atira pedra nos amigos. Heyk rebate algumas pedras com raquete, falando da música que os pássaros já fazem. Fato é que a natureza produz matéria imagética, que é mais evidente nas vertentes plásticas, e também produz matéria sonora, o que certamente é achado na música. O barato é que na música não se vê tão fácil um instrumento buscando reproduzir o som de um pássaro, como se encontra pores-do-sol em pinturas (apesar da Wikipedia informar que hominídeos do paleolítico imitavam sons da natureza). Mas como indicado por Ciço, o subsídio que o homem utiliza na natureza para construção do código imagético é semelhante ao da música.

Para reforçar isso, saibam que as cores foram usadas de metáforas para representar as notas musicais. Não é a toa que elas possuem alguns termos em comum: tom, tonalidade, cromatismo.

Como todos, fico agradecido com esse espaço de discussão. Enquanto escrevia o texto, percebi que esse pensar comtemplativo já me era raro durante a semana. Obrigado por me tirarem um pouco da Matrix.

Abrazzi.

Tulio Malaspina disse...

Cara, não imaginei que iria começar assim... Tiro certo!

Gosto dos personagens apresentados, eles formam uma base argumentativa bem sólida para o assunto proposto. As colocações estão ótimas.

Já eu, acredito que nós, símios, pensamos demasiado sobre o que nós temos de distinto da natureza. Além da própria essência genética, também a nossa.

Certamente nossas organizações estéticas são fundamentadas na natureza, já faz parte do nosso instinto natural essa organização.

Porem além disso, somos nós também natureza, como integrantes de toda essa organização desorganizada. Somos parte do caos e nossa criação é natural pela essência do próprio criador, o macaco sem pelos.

A arte certamente se limita as equações da natureza; mas desconhecendo o "inatural" vejo uma infinita gama de possibilidades.

Mais uma vez agradeço aos vagabundos de plantão que possibilitaram esse troca-troca alimentício.

Felipe Cezar disse...

last but not least!!

um pouco atrasado, mas nao posso deixar de comentar..


"- O meu ponto é: a inspiração do artista visual já é bela por si só e, por isso, toda produção acaba sendo inferior ao objeto inspirador. A música é diferente."

" A natureza não fazia música, mas o que o homem escutava na natureza durante toda a sua vida consolidava-se como música. Devaneava: o parâmetro de todos os códigos estéticos - seja música, imagem ou letras - sempre é natural. "


toda arte advem da e eh limitada pela natureza. Ponto.

A diferenca eh q a musica ultrapassa a natureza sem precisar transcender o natural. jah a arte plastica a supera apenas quando a transcende. O poder da musica nao esta na trascendencia, mas nela mesma enquanto instrumento e fim.

Isso tbm mostra uma deferenca entra a musica e a literatura: por causa disso uma opera te faz experienciar a peça empiricamente, enquanto a literatura o faz pelo caminho da compreensao.

victor, demando um feedback aqui!!
hahahahah

abraco cara. parebens pelo conto.

Heyk Pimenta disse...

A gente bateu muito nessa tecla de que a produção seria menor do que o objeto que inspirou a produção. Mas isso é porque a gente não se descolou da idéia de representação. O objeto inspirador só é maior do que o produto da inspiração se ele for existente antes. Quer dizer, se tratar-se de uma obra representativa. Senão é impossível mensurar. Não caimos no abstrato ou no concretismo/construtivismo, por exempolo, nas artes plásticas não dá pra ficar falando de miudeza da obra de arte em relação ao objeto inspirador. Digo o mesmo para a poesia hermética, para a literatura fantástica e em muitos momentos para o bom cinema de autor e por aí vai. Se não se tem no que espelhar é impossível o objeto sair menor ou maior que alguma coisa, né?!

Vamos nós.

Victor Meira disse...

Heyk,
sim nego, mas o que digo é que o parâmetro, a fonte de tudo, sempre é a natureza. Por exemplo: o fantástico pode ser a inversão de uma impossibilidade física, mas o objeto existe anteriormente, como realidade contrária à da obra. E essa realidade é infinita frente à faceta que se aborda (uma das milhares) na criação artística. Tudo o que se pensa tem uma relação intrínseca com o real.

Felipe,
quando você diz que a música não precisa transcender a natureza pra ser música, igualo: a pintura não precisa transcender a natureza pra ser pintura. Mas quando se fala em belo, o parâmetro se iguala: só se atinge o belo, seja na expressão visual ou sonora, na organização dos elementos naturais que o ser humano percebe. Disso, o que significa a transcendência desses elementos naturais? O feio ou o genial?

Heyk Pimenta disse...

Nem o feio nem o genial.
O outro.

E esse outro sempre será uma bricolagem com gravetos da mãe gaia, sejam eles de silício ou de esperma.

Bingo.

felipe disse...

na vdd nao digo q a musica nao precisa transceder a natureza para ser musica. digo q ela nao precisa trancender o natural para superar a natureza.
Uma sinfonia nao necessariamente eh trancendente, mas eh necessariamente superior a qualquer "musica" da natureza.
o q esta em jogo nao eh quando a musica se torna musica, ou quando a pintura eh pintura, mas sim a comparacao delas com a natureza.


Qnd falo de transcendencia, me refiro ao carater figurado da arte. Um quadro q reproduz uma imagem nao transcende. O o conceito do quadro pode vir a transcender.

Chammé disse...

Grande Felipera,
Vc realmente trouxe outro ponto aqui man, que eu precisei da ajuda e exemplos do Victão pra compreender: a transcendência não está somente em ultrapassar a forma, que é o que foi discutido em maioria aqui, mas só a idéia que ela gera no observador já é suficientemente transcedental. Sem lero-lero, é como uma foto: pode ser só uma paisagem, tal qual a natureza. Agora o bucolismo versus urbanidade, a opressão do céu ou qualquer outra coisa que a gente encontre nela que é a transcendência.
Até esse ponto, muito bom. A durezi, mesmo, foi entender isto: "Uma sinfonia nao necessariamente eh trancendente, mas eh necessariamente superior a qualquer 'musica' da natureza". Minha curiosidade fica em saber o que existe dentro dessa palavra "superior", que é maior que o barato da natureza.

Grande abrazzo pra vc, rapeize. E vem ai pra sumpa tomá um goró cum nóis.
E tb quem quiser prosseguir a discussão: alea jacta est.