30.10.08

Os efeitos do blog no processo criativo do artista

http://www.youtube.com/watch?v=-9Wa8fvDaag

Ó, vamo lá.
O vídeo do Gullar é só trampolim. O prato principal é o paragrafão.

Na entrevista tem umas perguntas meio velhas, mas que nunca deixam de ser pertinentes. Pode-se viver de arte, hoje? Em que medida a criação artística é ou não é trabalho? E uma melhor: qual é o papel do poeta na sociedade?

Mas acho bacana focar aqui: quando o poeta se envolve na divulgação/comercialização de suas criações, há uma perda na essência de sua poesia? A que tipo de mudanças o poeta submete suas criações? Até onde isso é benéfico/nocivo para sua obra?

E aí a gente expande pra ter bastante relevância: a divulgação, entre escritores, por meio dos blogs faz com que haja constante discussão da obra de um autor. Dessa forma, o processo autoral sofre grandes alterações, e possivelmente vão marcar a cara dessa geração compositora de escritos. A primeira mudança, penso, surge quando o processo migra do lápis para o computador, onde há muito mais dinâmica na edição, onde não há expressão na grafia individual (já que há uniformização tipológica), entre outras idiossincrasias do objeto. Da internet, e da popularização dos blogs, surge essa ágora estética e poética. Até que ponto esse processo é saudável para o artista? Até que ponto ele tem controle sobre a individualidade de sua obra (uma vez que se submete às opiniões, deixando-se modelar pelos outros artistas)? Até aonde ele confunde um bom texto com um texto que caiu nas graças de seu público? E até onde ele cria uma noção de evolução ligada aos textos que agradam mais os seus leitores?

Penso que são questões pertinentes para essa geração de escritores.
Vamo nessa, nesse blog lindo.

11 comentários:

Heyk Pimenta disse...

Cara, como isso faz sentido, né:

tudo isso eu já tinha pensado. Uma eu não tinha e outra me soou com relevância nova:

mano: a tipografia: vichi. Tem razão. Quanto de autoral e de inspirador e principalmente de subjetivo tem numa letra própria? Principalmente a letra escrita a mão, a coisa da fazura, da confecção. Quanto será que ajuda e atrapalha e simplesmente inspira diferente o autor o fato de ele estar vendo a cara de cada palavra do jetio que ele quis escrever no papel? Deve mudar alguma coisa mesmo. (essa era a coisa que eu nunca tinha pensado)

2 - claro: o que é um poema bom: o que os leitores gostam ou o que é bom? como assim? Não sei também. Mas é: por estar fechado em um ciclo curto o autor (que já tem uma identidade fluida posto que vive de pitaco, e lê talvez muito mais autores zé roela e apagados como ele do que os poetas liam em outros tempos) o autor corre o risco de que seus leitores, gostando dele ou não sejam péssimos leitores de poesia e com o tempo moldem tanto esse autor que no fim a poesia dele só vai funcionar ali, praquelas pessoas, nauqele blog. Com razão Bastião.

Viva victão, inauguramos com carinho e entusiasmo a série de discussões.

MAs escuta, bicha velha, põe com outra cara o que for texto seu, pra não confundir.

E coloca em mais evidência o nome do autor do trecho.

Tulio Malaspina disse...

Bom, vamos lá!

Alguns pontos pessoais de um poeta que nasceu nesse mundo impessoal que é a internet.

O poeta é, na minha humilde opinião, a memória utópica da sociedade; materializa as percepções que ele têm e isso se traduz na sociedade, no futuro ou no agora. A revolução da poesia é em âmbito individual.

Cara, muito boa as outras questões aqui...
Acredito que esse mundo dos blogs não é novo, assim como em outras épocas os poetas se escreviam cartas e marcavam encontros semanais, nós, hoje, mais acomodados com a tecnologia, somente sentamos e utilizamos dessa praticidade da comunicação para atingir o mesmo fim.
Nenhuma é obra é totalmente individual, e se for, ela é estúpida por criação. O ser humano cresce a medida do outro. Estar aberto a opnião de outros autores é estar aberto a novos pontos de vista, a bíblia não foi escrita por um só homem em um só tempo.

Agora, sobre a graça do público, acredito que todo texto é bom dentro do seu contexto. Eu pessoalmente escrevo em dois meios distintos, fotolog e blog; no primeiro tenho amigos menos líricos, mas mesmo assim se interessam por "literatura": nesse espaço escrevo na maioria textos de auto-ajuda, e isso sempre cai na graça desse dado publico. No segundo já escrevo textos com uma filosofia mais apurada, posso abusar mais do detalhismo pois os leitores são mais detalhistas, líricos por natureza.
Resumindo acredito que até o senhor laranja seja boa leitura, para aquele público ao qual ele escreve. Afinal o que se escreve é escrito para si, para os outros ou para o tempo?

Fica minha pergunta também.

Se não temos encontros materiais, que seja por bits e binários.
hhahaha abraços!

Tulio Malaspina disse...

afinal, somos nós que escolhemos os meios com o qual vamos no alienar, não é victor?

Rachel Souza disse...

Além das outra "idiossincasias", não muda muito. só muda o meio, a mídia e o acesso.

Guto Leite disse...

Bom, ouvi o Gullar, li os amigos aqui e, tal como o Heyk, também já sentava no bar com a maioria das questões. Acho a tipografia, principalmente pós concretismo, aquilo que vai mesmo mudar drasticamente a poesia. Não digo de tanto quanto Apollinaire ou dos lances de Cyberpoesia de que se tem falado (com links, interação, hipertexto e tals), mas falo de Cummings e Mallarmé. Já temos mais noção de como o olho passeia pela folha e nisso podemos enlaçar os sentidos de modos diferentes de antes. Sobre multi-influência, alargo a questão para a pergunta: será que o autor é mesmo tão importante quanto no século 18, auge de sua concepção? Se sim, acho que há mais diálogo mesmo, que pode ser perigoso, mas com estro, tende a ser melhor, porque o poeta (com tendência a permanecer) vai simplesmente descartar a maioria das coisas, filtrar alguns sinais e continuar produzindo. Se a resposta for não, temos de pensar como funciona a autoria nos dias de hoje e pensar melhores formas de lidar com a questão. Não sei! Isso é a boa conversa, aquela pra ser de oito às seis.
Abraços a todos e sigamos arte!

Lírica disse...

Inaugurando o desconhecido, é natural que nos questionemos e nos sintamos excitados pela novidade. Mas do alto dos meus quatro decênios creio poder tranquilizá-los. Tudo é novo para quem começa. Se retrocedêssemos, mais cruel seria. Já que avançamos, façamo-lo neste modus operandi e mesa de buteco on line 24h. Dando as mãos poéticas, faremos mil revoluções. Mas quem se importará? Quem sempre se importou... com ou sem guerras e crises, e crimes e outras revoluções. E que a metalinguagem nos burile e nos salve, amém.

Victor Meira disse...

Túlio, vamo lá. Sei que os autores sempre se encontraram em círculos literários (claro que existem as excessões, mas a maioria sempre trocou textos com iguais e convivas artistas), mas o encontro agora, penso, é por demais dinâmico e volumoso, uma vez que há esse espaço onipresente que é a internet (excluindo o impecilho espacial de um sarau, por exemplo). Essa dinamicidade faz com que o processo possa ser diferente, uma vez que nos intervalos entre reuniões e leituras era - posso estar equivocado - maior.

Outra coisa: não acho que uma obra individual seja estúpida. É curioso, na medida que é um processo que sempre foi muito raro. Leria com muita curiosidade um autor que se exclui dos círculos sociais de troca de arte.

Sobre a separação do texto por público, isso me soa muito como publicidade. O escritor pode escrever para um público ciente disso no ato criativo, mas deixar-se limitar por isso já soa péssimo pra mim. Penso que a adequação a um formato (assunto que pode entrar nessa discussão) já por demais penoso como fardo (o blog exige textos menores, e tal); agora, escrever sob a sombra de tais e tais leitores, pra mim, é uma coisa muito difícil, muito limitadora. Assim, o escritor invariavelmente vai julgar que seus melhores textos são os que o público mais gosta - e o pior: não erroneamente.

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Rachel: você acha mesmo que o produto desse modus-criandi (latim safado) não sofre mutações e não tem características próprias? Fala mais disso, fiquei curioso com essa posição.

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Guto: ótimo. Boa questão. "o autor é tão importante quanto no século 18, auge de sua concepção?". Acho que isso aprofunda a história aqui. Porquê o ser-escritor nessa era pós internet é escolha vulgar. A erudição está a alguns links de distância, e o mundo se nos dispõe através da rede mundial. Centenas (arrisco dizer "milhares") de blogs são criados diariamente, e muita gente escreve, hoje, com afinco, impulsionado pela proliferação dos círculos artísticos e literários online. Isso dá corda, e pulveriza a figura do escritor.

Penso, de forma geral, que o escritor filtra sim, na medida do possível, suas influências. Mas a roda da conversa sobre sua própria criação é convulsiva e compulsiva. Há a influência que nos foge do filtro (e há muita), na mesma medida em que há características que nunca se alteram em cada autor, no seu modo de escrever (no seu modo de ver o mundo).

Se for pra responder, relutante e medroso, penso que a figura do autor é muito menor que já foi. E que a gente tem que pensar nisso.

De modo geral, penso seriamente que a arte literária passa por um momento de enorme transformação desde a difusão da internet. Não acredito que o veículo gere alterações apenas no meio (e não no produto final). Penso que há enormes mudanças no jeito com que o homem cria a obra artística.

Vamo tocar essa conversa.
Coisa linda isso.

Heyk Pimenta disse...

Então victão,

Vou te dizer, acho que que a mudança de suporte muda tudo. Porque a partir do momento que a gente passa a utilizar com mais facilidade esse suporte a gente se adequa a ele também não só ele se adequa à gente. Então, mudar o suporte é com certeza mudar o formato, a obra e até as finalidades dela.
Caros, saiu da istoé oi na época dessa semana: um guia de blogs. Isso. Um guia de blogs sobre as coisas. Acreditam? Se já tem guia 2008 de blogs, igual de livros, isso tem algum sentido. Isso tem algum poder.
E falar que o tipo de troca que acontece aqui é igual aos que aconteceram antes é maluquice. Olehm quantos tipo de concessões e de aproximações, de conclusões e tudo mais. E outra, tenho além disso quase certeza, que essa névoa que distancia os dois autores, ou o autor e o leitor facilite um pouco a crítica.

Antes, líamos nossos amigos, agora lemos desconhecidos que sem a internet não leríamos. Isso nos aproxima mais do obra do que do autor, acredito, e assim a crítica é menos carregada de teor relacional e mais de teor literário.

E outra, seria mais carregada de teor literário se nos tivéssemos esse teor. Não temos. A maioria desses nós escritores escreve primeiro depois lê. Muitos de nós começaram a ler sistematicamente depois que já tinham uma produção "concisa". Então isso é muito estranho porque ao mesmo tempo que é e acredito mesmo que seja:

o conteúdo escrito altamente limitado pelos leitores ao mesmo tempo que esses escritores e leitores, na medida que não têm teor literário crítico bem embasado passam a fundamentar suas críticas em tópicos, conceitos e categorias que esse mundo relacional cria.
Assim, limitado por um lado e muito autônomo por outro. E isso me interessa muito.

Heyk Pimenta disse...

eu acho que a própria diversidade de oferta, mais do que a quantidade de suporte ou meios é que fez com que houvessem obras primas sim, mas que não são unanimes. Todas as escolas e tendencias de arte elegem obras primas, a questão é que a escola vizinha não concorda.
na medida em que ficamos mais numerosos mais plurais ficamos, mais diversos e menos parecidos no gosto. acho que é só isso. Mas que rola mesmo uma coisa de fazer tudo rapidinho rola.
Mas acho que o esmero não acabou. e nem acho que isso realmente é tanto importante mais, junto o dinamismo dos tempos todos os processos, inclusive o de criar ganhou um teor de dinâmica que não sei onde isso vai levar.

falando nisso tem uma coleção de poemas de bons sem muito nome rolando, interessados se expliquem e explicarei.

abração

Túlio disse...

Cara... definitivamente é a atualização dos processos. Mas algumas vezes vejo como somos superficiais. Nossas atualizações acabam por serem facilitadores, catalizadores. Não perdemos o conteudo, mas deixamos de explorar o longo processo do criar.
Ou ele só era longo quando não estavamos catalizados?
Meu medo é que o novo artista do seculo seja andy warhol. Um estilo aqui, um sublime ali e pronto, arte!
é uma pergunta: o conteudo se perde em meio aos tantos meios?
onde foram parar as obras primas?

grande abraço!

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado