7.7.08

Rachel Souza

Mulher Infernal

É Noite. Está especialmente escuro, a casa deserta, eu sozinho, até ela chegar... Mesmo distante, pude senti-la abrindo a porta, deve ter dado três voltas na chave, ela sempre dá! Depois segue andando seus pés, provavelmente lindos, por toda a casa. Joga a bolsa e as coisas na cama, suponho, e nua fala ao telefone com alguém. Quem?!?!?! Não sei, mas percebo a volta das batidas, quase marteladas, no chão, bem acima de mim. Talvez deva ser essa a ordem das coisas, ela sempre por cima e eu, pobre diabo, por baixo. Capacho!
Estará ela ainda nua? Nua e de salto? Será? Isso a deixaria excessivamente pelada.
Vou até a geladeira, preciso me acalmar!! Pego o primeiro doce que vejo e como, ali mesmo, com a porta aberta. Percebo que está rançoso então agarro a garrafa com fúria, sentindo tudo, menos sede e bebo como se não o fizesse há semanas... E ela lá, flanando, por seu apartamento, dona da situação, martelando mais forte. O que deve fazer da vida além de me castigar?? Executiva?Atriz? Cantora? Dominatrix? Bem que meu mapa astral falou...Acima de você haverá o inferno!Pensei em desistir do apartamento. Qual a história que seu corpo conta? –Qualquer dia me declaro!Pensei delirante.
Mulher infernal a cravar seu salto, alto, nas baixezas da minha mente...

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Gente, Rachel. A Rachel lançou agorita Retalhos, pela Editora Multifoco. O continho aí é prova razoável do que ela tá fazendo, transando numa linha boa da linguagem internáutica, que é a do conto curto, enxuto, adaptado às correrias insandescidas do dia-sim-dia-sim, o livro tem 64 páginas e 23 contos, massa. A nossa contista aí, tem pêgo um apelido que faz jus, de escritora trash, do conto sujo, incomodado e incômodo, sem volta. Eu assino em baixo. Arrebenta, Rachel. Ela é jovem e é quase quase advogada (o que é uma pena) e é parceira nesses papos de fazer arte, no sentido que a vovó falava. Bora, molecada. Ah, pra quem quiser ver mais: Vê lá: Um café pra dois. Volte sempre, Rachel.

7 comentários:

Victor Meira disse...

Coisa linda esse conto! Demais. Trash? Nesse não, nem um pouco. Nada mesmo.

Muito legal, Rachel. Acho bem interessante a coisa da escritora-mulher assumindo o protagonismo masculino em primeira pessoa na prosa. Fala-se muito em balzaquianismos, chico-buarquismos, alma feminina, coisa e tal, mas a conversa da roda raramente pende pro outro lado.

O texto é superfície, tem cara de blog, é gostoso de ler e tem personalidade.

Bem bacana, Rachel.

Se livra dessa coisa de "trash" que não tem nada a ver com o que eu já li de você lá pelo café-pra-dois.

Bêjo!

Rachel Souza disse...

Victor, o "trash" me foi atribuído, não escolhi...rs
Beijo.

Heyk Pimenta disse...

Mas olha, esse é um ponto alto mesmo, victor. Ela escreve bastante até em alma masculina. Uma medium? Um escritor transformista? Incrível, né? E raro, não? Acho raro mesmo, fiquei tentando lembrar de outros casos, mas não lembrei. Por isso achei legal ressaltar o que disse mesmo.

Massa.

bjos pros dois contêros

william disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
william disse...

Um conto que nos deixa(leitores)espaço pra vivenciarmos as cenas juntos. Visito todas as peças , lugares, partes do corpo desta rubra mulher e sua nudez nudíssima nos seus saltos, posso vê-la/ouvi-la atravessando a casa e o meu coração a mil pra essa imagem estonteante.
E este pobre diabo, capacho feliz, na sala esperando os saltinhos dela serem limpos sobre ele...

Rachel Souza disse...

Heyk,
O "conto curto, enxuto", não tem relação direta com a falta de tempo ou a linguagem da internet, tem com o fato de eu não ter o exercício que os contistas de fato têm, que é o de ter a história e creiar um começo, meio e fim pra justificá-la. Quando escrevo não tenho a história, ela se desenvolve naturalmente, trabalho a linguagem e o resto vem.É a arte do jorro.
Inté mais vê cabrito!

Débora Caetano disse...

Nossa, desceu escorregando e não saiu!
A mim soou essa coisa natural, que vai se desenrolando como se fosse eu mesma vivendo na realidade do conto.
parabéns