8.6.08

59%

O domingo tá baixando,
cinquenta e nove por centena

não grita nem sangra o chão;
vomita o pão em silêncio
cardume do devaneio distópico:
um capô encerado com pretérito perfeito

mais uma vez é lançado
aos bodes e semáforos
da segunda que funciona assim:

"A mula de carga
tremula metálica
sobre sujas rodas
de letras garatujas"

o enigma
vive rabiscado.



Heyk resenha:

Daqui aponto dois problemas:

1 - "sujas rodas". A inversão substantivo-adjetivo para adjetivo-substantivo incomoda pela carga de formalidade, inexistente no trato corriqueiro da língua; e pelo fato de remeter a uma poesia que não cabe desde os modernistas nas nossas prateleiras literárias. Seriam então os dois problemas apontados, um só: traços de velhice.

2 - "garatujas". A mesma coisa. Termo que designa desenho mal feito; nos esconderijos do país, centro-leste de Minas, usa-se pra denominar cara feia / careta. Mas aos faladores do português de sempre, "garatuja" já saiu de moda há dois séculos.

Confio no Victor quando ele diz que o poeta é esse: Usa o vocabulário que for para dizer o que for. Mas ainda assim me incomodam as velhices.


De resto, e que não é pouco, 59%, o poema, é uma obra em que fica muito claro o que é um poema: a condensação do sublime da linguagem, a abstração do concreto através de exemplos concretos que remetem a mundos outros com uma força de sentidos e significados que cabem como uma luva nos ouvidos e nos lábios, ah, e às outras demandas todas. 59% é um poema poema. Sem empréstimos à outras formas de linguagem, sem dever nada aos desenvolvimentos defeituosos dos amontoados culturais-pastiche e kitsch do cinema e da tv e do rock e da música popular. Um poema sincretismo entre um hoje e a poesia poesia mesmo.

Acertou na mosca.

4 comentários:

Aron Matschulat disse...

Gostei do poema e da resenha.
Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.

Heyk Pimenta disse...

é...

não preciso falar o que achei.

Minina disse...

velhices?

e qdo o modernismo jah for velho - jah é velho? - q será? qual será?

ñ sei... me incomodo um pouco com um certo discuro modernista q fala da criação a partir do nada, da criatividade, apenas, como mola propulsora.

mas a gente só cria a partir do q jah foi, mesmo q seja para negar esse passado. a gente só cria a partir do q jah conhece, mesmo q seja para negar, d alguma forma, o q conheceu. mas, pra mim, esta negação nunca é absoluta.

imagina se a gente tivesse d inventar a roda todas as manhãs q acordássemos?

ñ gosto dessa coisa: é velho, ñ presta, joga fora.

acredito q podemos conviver bem com nossas velhices, pq delas somos parte, dela viemos. um dia elas foram tão jovens qto somos nós agora. pq dia desses a gente acorda, e alguém vai dizer: "xi! q aqele ali é velho e ñ presta! corre pra longe!"

gosto mais do diálogo e dos ecos d tudo com tudo. da possibilidade d dar novas formas a certas "velhices", trazendo-as para um novo contexto: é o q eu vejo no poema do victor. é o q eu vejo em todo objeto d arte, re-formar. re-discutir.

e tb prefiro a não preocupação d dever nada a ninguém: nasceu, tah pago.


bjoca!

Heyk Pimenta disse...

são velhices.

mas criatividade é só com ferramenta e coisa que já tem. Isso mesmo. Ou isso ou dom divino, esse divino tá longe de passar por perto.
Aí a criatividade é mesmo um recortão do resto. E isso mesmo: só de recortar coisa velha e por em quadro novo já tá feita a novidade.

O caso não é negacionismo: é busca de linguagem.
Aì vou eu ralando pra achar coisa no baú e pra bater um prego ao contrário pra fazer uma porta nova.

Mas que os velhos faziam melhor a novice deles que a gente, faziam. Agora a novice deles tá velha mesmo. E a minha hiper-novice, quando tiver velha, até se for amanhã, não quero que segure não, pode jogar fora.
Sequiser por num cantinho, ainda vai, mas pra isso tem cantinhos específicos, a velhice cabe em cantinhos específicos. Não na cabeça toda do poeta novíssimo. O problema é esse. Essa turma tá com novíssimas vontades repetidas e tá jurando que é modernoso.

Haja sacolé na minha sacola.