30.1.08

de dentro

E a lua corre solta nesse céu de brasa. Sua boca ainda mastiga alguma coisa minha e eu sinto um cheiro que provavelmente é seu. A sucessão do dia é de sono e sonho. Preciso de uma notícia desvairada. Corrijo o palavreado alheio pra poder ficar calado e amontôo moedinha pra pagar a toca onde durmo. Um chumaço de algodão gira no vinil que cambaleia. A luz é amarelada. Minha mobília é feita de caixa de fruta e eu continuo tendo uma escada no meio do meio que dá pro nada. Num jardim de inverno aqui perto eu conto as formigas que rasgam minha roseira. Meu violão máquina de escrever e jaqueta de couro mofaram. Varei dos cadernos e oitocentas personalidades no ano passado. Ralei o nariz nas ondas e entendi a dinâmica dos biquínis nas manhãs de quinta. Vi cinema mudo pra aprender inglês e vi mais o mundo num poema concreto do Vertov. A maquinaria dessa geléia funciona por conta própria meu amor. A poesia é uma mentira brava que inventaram nos anos 10 e agora eu me desligo na internete pra negar o iluminismo. O Brasil teve trinta homens e trinta e duas mulheres e não sei porque ainda não ficou deserto. E a roda gigante é só um jeito antigo de tocar o céu. A linha corre solta nesse paletó de palha. O metrô voa num arbusto de frutinha e eu nunca entendi nada dessa pelaiada que me cobre. A lenha corre solta nesse amor sem asa.

4 comentários:

Victor Meira disse...

O que se tem aqui é a contemplação de um escritor sensível a respeito de seu cotidiano aos vinte. A poesia de sua própria respiração em figuras que descrevem o belo das coisas e ações comuns e familiares, com um tom que não encosta nem no pessimismo, nem na satisfação.

Acho belo, criativo. Gosto de verdade das figuras usadas, principalmente por sua perspicácia e audácia criativas. O texto paira entre a prosa e a poesia, já que é ululante a preocupação estrutural e léxica durante todo o texto. Penso no corpo todo como uma poesia-prosa.

Vejo uma semelhança forte com a estrutura prosaica desse texto aqui com o da minha ultima postagem (as ferramentas de tomás). Ambos tratam únicamente da criação de uma personagem, sem que haja tempo/conflito na narrativa. A principal diferença é que o eu-lírico aqui é declaradamente o escritor, relatando impessões em primeiríssima pessoa, numa forma bela e poética. Não que lá no meu conto o protagonista não seja também uma face de seu escritor, mas ele tá claramente mais solto da conexão, até mesmo por ter sido criado em terceira pessoa.

Uma coisa eu queria salientar aqui. Foi uma impressão nova, dada pelo próprio autor num dos comentários recentes por aí. De repente, vi traços muito parnasianos por aqui. O texto - como vem sendo muito comum na obra do Heyk - trata da emulação de sensações por estímulos visuais, dadas pela poesia das figuras que se encontram nos textos. A caracterização do belo surge em figuras diferentes, onde o "ouro fulvo" é a máquina de escrever à luz amarelada, e os "diamantes, rubis e pérolas" são os caixotes de frutas emplilhados, montando um cenário que remete à construção do ideal da figura poética entendida pelo autor.

Minha intenção, entretanto, jamais é rotular o autor com uma escola, mas apenas apontar uma semelhança. E acho positiva, se não a influência, a eventual semelhança.

No fim, gosto bastante desse texto. Lê-lo é uma viagem confortável através dos cenários ideais, conceitos e figuras dadas pelo autor. E a construção poética dá o açucar desse texto gostoso.

É bom, nego. E não foi tiro de borracha não. Achei bacana, o texto agrada. Foi tiro de fuzil mesmo.

Uma das coisas mais gostosas que eu já li de você.

Abraço ae meu preto.

Lírica disse...

... Não era plástico. Era o brilho de um casulo delgado. E dele surgiu a grandeza de asas sublimes que nos mostraram outro "jeito de tocar o céu".
Heyk, que texto lindo, que figuras de linguagem ricas! Realmente "de dentro". A poesia é uma mentira, sim. Porque é coisa idealizada. Mas se podeis ver o ideal, bem aventurados sois.
Você deu um show neste post e a sua reação à minha crítica foi muito civilizada, madura, humilde e amigável. Também gostei de fazer negócio com você. Desculpe se sou muito epistemológica.
Ah! É sra Lírica.
Um grande abraço.

CèS disse...

E quando você menos esperava e achava que eu não apareceria por aqui... ta-dá!

Foi malzão pelo sumiço (compensarei produzindo algo digno). Mas não duvida: eu te leio! :D

Heyk Pimenta disse...

Quanto tempo meus caros amigos virtuais. Voltei, e aos poucos me aqueço de novo por aqui.

Eu fiquei muito contente com os ditos do Victor e da Sra Lírica. Muito mesmo. Até porque apesar de ter gostado muito desse texto quando o fiz, achei que era mais pra eu gostar, mas só. Até titubiei e nem pous ele no meu blog. Acabei pondo outro. Mas eu gostei muito dele e como sou ordinário, agora que elogiaram gosto mais.

Esse texto foi feito de um tapa só, no corpo de uma carta que mandei para uma amiga, não tinha idéia do que escrever e aí deixei a sensação rolar, quase tudo isso é feito num estado de transe médio, isso pra esses textos mais corridos e os mais sonoros. Alguns são construídos, mas esse aí é todinho fluxo de consiciência. E eu gosto. Quero escrever um romance inteiro uma hora dessa assim, num tapa.

A única ressalva que faço é que não tem nada de idealizado no texto, pelo menos não na parte que o Victor aponta, é minha casa mesmo. E minha mobília é mesmo de, como já disse a ele, caixas de frutas, e isso pra mim num é ideal, inclusive espero que se não for passageiro que seja por gosto que continue com ela e não por necessidade, como é o caso. Então, parnasiano coisa nenhuma.

Abração e beijocas, gente.