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8.10.08

No badalar imaginário dos relógios, que hoje já não têm mais a imponência sonora cadenciada dos pêndulos, ela contava o tempo. Somava os dias e marcava a cada volta completa de seus ponteiros quanto tempo havia se passado desde cada uma de suas escolhas – possivelmente – erradas. Então, olhava pra um lado, pro outro, pra traz, e num jogo estanque de cálculos dúbios tentava equacionar de que maneira os ‘nãos’ e ‘sins’ que pronunciou ao longo do tempo (para os outros, para algumas circunstâncias e, sobretudo, pra si mesma) configuraram os rumos que delineou com seus passos no chão e pela vida, até então. Questionava a não possibilidade de se voltar atrás e requerer o direito de tentar mais uma vez, de uma outra maneira, de uma nova forma, de uma nova cor, um outro sabor... Talvez, um conserto aqui, um recorte ali, um ajuste, um rejunte... tiraria algo daqui, colocaria lá, trocaria algo por outro, um novo, ou por nenhum... jogaria alguns pela janela, pintaria com outros tons as velhas telas, e borraria de tinta o que extrapolava as bordas de cada uma delas...Limparia aqui e acolá... Não se tratava de arrumar tanto a bagunça acumulada ao longo dos dias, meses, anos, se tratava apenas de colocar nos, outrora, devidos lugares as coisas que no passado, por uma questão de perspectiva turva ou imbecil mesmo, ela dispôs de outra maneira... Mas não, não podia...

Restava-lhe apenas a tentativa de evitar o descompasso dos dias ritmados pelos pêndulos que insistiam naquela dança monótona e insossa das horas. A cadência irritante da exatidão marcada por aquele metrômero burocrata, insanamente regido pela arbitrariedade do que se convencionou chamar: tempo.

4.6.08

Ares de sobriedade

Acordou cedo aquele dia - como há tempo não fazia - sem que nenhuma contingência das circunstâncias ou da rotina a impusessem o desvencilhar melindroso do sono e dos lençóis que vagamente a cobriam, naquele horário em que o sol ainda não aquece e, timidamente, se mostra e reflete seu raios esparsos nas águas do porto.
Acordou tomada levemente por uma ânsia de se manter sóbria ao longo de todo aquele dia que, por antecipação, lhe parecia de todo vazio e de uma densidade insossa. Levantou vagarosa da cama e dirigiu-se a cozinha pra fazer um chá de cidreira, numa tentativa esquiva de manter tais ares de sobriedade, acalentando o peito e aquecendo a voz, que nunca sabia o que dizer quando ressoava, alta e irredutível, a sensação de que pouco restava a ser dito.
Voltou pro quarto com sua paliativa dose de sobriedade nas mãos, a formar aroma em espirais mornas, compondo pequenas gotículas nas bordas da xícara ao contato do ar úmido alojado por entre as paredes, o piso e o teto daquele cômodo mal arquitetado, mas providencial. Tomou o ‘jogo da amarelinha' nas mãos e pôs-se a ler, numa tentativa de, talvez, alcançar o céu, que através da vida fora dos livros ou dos riscos limítrofes de giz branco traçados no chão lhe parecia impossível chegar.

...

Três dias depois se cansou das tais tentativas de apaziguar-se tomando chá e lendo Cortázar, acendeu um cigarro e tomou café. A falsa sobriedade transmitida pela fumaça do cigarro lhe parecia menos fingida do que a contida naquele chá.

21.5.08

des-compasso

Ando a passos trocados, equívocos no tempo e no espaço - tanto na chegada, quanto na partida.
Canso a todo instante da cadência inexata desse descompassado passo.
Piso em falso e caio num laço. Em giro acrobático, dele me desvencilho - no primeiro, segundo ou terceiro ato: desato.
Hesito... E, depois das reticências - ou dos vãos arquiteturais consignados que elas edificam - prossigo.
Eu passo e descompasso... no tempo e no espaço.

18.5.08

Para Heyk

E ele disse sobre um céu de brasa, um vinil que cambaleava, sobre o sono e o sonho. Disse também de um amor sem asa e da roda gigante... Disse muita coisa em poucas letras. E, como quem pinta sobre borrões de tinta pincelados por mãos alheias, ela disse:

Para ser menos amargo, o “céu de brasa”, que arde nos olhos e queima a pele, deveria ser mais belo do que quente – se conservaria a cor crepuscular, secar-se-ia o suor que escorre da face como gotas de fastio; o sono deveria ser menos importuno no correr moroso das horas inexatas de um dia de pedra; e o sonho... bom, este tem seu lugar na interface do querer e do quase-possível.

Eu quis que a vitrola, que cá guardo comigo com a asa quebrada, se reabilitasse para que eu pudesse nela ver um vinil cambalear dançante na cadência de uma música que no seu giro me envolvesse. E com a imagem do vinil cambaleante ouviria o chiado poético que só as vitrolas sabem compor, sem verso, sem rima e letra...

“Amor sem asa” sobrevive?

O que ficou daquele texto amargo, tingido de cinza, para além do que me escapa, foi a vontade imensa de riscar o céu com o dedo, do ponto mais alto da roda gigante, que para ele, “é só um jeito antigo de tocar o céu”.


(Entre aspas trechos do texto “De dentro” do Heyk Pimenta:

http://beijodesal.blogspot.com/2008_02_01_archive.html)

10.5.08

assepsia do sensível

Gostava daquele cheiro asséptico de desinfetante que subia às narinas e tomava toda a casa, infestando-se sorrateiro através das frestas das portas e janelas. Tudo que era demasiadamente asséptico lhe transmitia ares de sobriedade na medida exata. Para ser sóbrio deveria ser excessivamente asséptico. Mas lhe faltava sobriedade nos atos.
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Gostava de espaços frugais: era a parcimônia dos espaços concretos e triviais versus os excessos da alma. Mas teus próprios espaços – aqueles que habitava cotidianamente, por vontade ou contingência - eram carregados de aleatórios objetos dispersos, sem destino ou razão.
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Equilibrava o excesso de assepsia e a candura das paredes brancas com o colorido de bibelôs inúteis, baratos e com certa graça: alguns que ganhava de amigos, outros que ela mesma fazia em dias em que resolvia criar e recriar formas de burlar o mais absoluto tédio em que submergia por sua própria conta e risco. Naqueles dias em que qualquer forma de contato lhe parecia potencialmente mais arriscada que qualquer forma de inapetência.
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E, assim, ia amontoando junto a seus badulaques, ininterruptamente, papéis com frases não concluídas, recortes de revistas, miçangas coloridas, fotos amareladas pelo tempo, ingressos de cinema, resenhas literárias nunca lidas, canetas sem tinta, enfim, tudo que lhe fizesse lembrar os resquícios de vida. Numa tentativa de auto-engodo: disfarçar pra si mesma a vida insossa que levava... Até que, no dia da assepsia interior, jogava tudo fora, na lixeira dos recicláveis, como se assim, feita a limpeza, se reciclasse também.
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do comentário do Heyk: Priscila, sendo, que seja bem vida.