Se você perguntar quem são eles, respondem: somos aqueles que serram seu coração com arcos. Uma fugata que toca em repeat na minha cabeça. As torres de energia se alimentam de nuvens, e em algum lugar delas moram todas as mensagens de texto de celular perdidas. Um jardim iluminado com radiação, bonito, sem dúvida. Mas as mensagens de texto respondem: hi, I'm afraid I wasn't able to deliver your message, remote host said: 550 #5.1.0 address rejected. Não, dizem os rapazes, não é isso que estão tocando. Um deles pergunta: quando você observa uma partida, qual é o máximo que dá para ver um objeto até ele virar uma mancha indissociável na paisagem? Do que é feito cada um desses nacos de tinta? E o bandônion dá seu sorriso torto. Eles esperam você tomar um fôlego, só para ouvir a resposta com mais carinho: a chuva é somente a consumação do drama. A tristeza, na verdade, é algo muito mais perene, é um dia inteiro que se formou nublado. No último encontro, por exemplo, não tinha nada de especial, era um chá de hortelã normal, nem as mesas, nem as mocinhas, muito menos aquela tevê digital que piscava na minha cara mostrava qualquer intimidade. Só no outro dia eu fui reparar que, de fato, havia um céu nublado cuidando da cena. Hoje eu já penso que naquela hora ela tinha um olhar resignado por algo que nunca saberia explicar. E a suíte termina curta, com um trecho que diz: a memória salva tudo em sépia. E é lógico que você não vai achar nada parecido mudando de canal.
9.7.10
9.6.10
Mana Zinabre e a Comunidade Virtual
Essa é a retomada da discussão que o Tulião tocou mês passado, no post Por que somos um coletivo? Além disso, há praticamente um mês eu fui ao Intercom Sudeste defender um artigo sobre a presença de comunidades virtuais em blogs. Reparem o crime.
Na verdade, a pergunta-chave do texto dele (por que não criamos nada juntos?) eu mal vou responder, prefiro deixar ela aqui e aberta. Mas o interessante é que o que se chamou de coletivo orgânico cabe muito bem na ideia de comunidade. Apesar da aplicação virtual, vale ainda a noção clássica de uma comunidade como uma família, aldeia, tribo, onde os interagentes têm contato íntimo e direto, convivem, se conhecem. Isso seria oposto a ideia de sociedade, como nas cidades, ou nos prédios modernos, onde você até reconhece seu vizinho, mas sabe pouco sobre ele (exatamente o jeito que o Tulião revelou se sentir).
O Maná, enquanto website, seria então o espaço de convivência. Na pesquisa que eu fiz, peguei para estudar o Poema Dia, um blog que inspirou estruturalmente o Maná (coletivo de autores dividido pelos dias do mês). Pelo que avaliei, o formato é perfeito para abrigar uma comunidade virtual – incita ao encontro das mesmas pessoas ao longo do tempo, que possuem espaços para expressão e diálogo, além da delimitação identitária de cada participante. O formato contribui, mas o quente é saber como se sentem os interagentes, os zinabrenses. Fiquei pensando nisso esses dias ao me reparar, e ver como ando com dificuldades para completar meus próprios posts, e tampouco ler/discutir/viver meus vizinhos.
Pra quem quiser pensar sobre isso, separei uns conceitos usados para identificar o que era um sentimento comunitário (curiosidade na bibliografia ou no estudo, só me pedir). Vale a autoanálise:
- Familiarização: saber quem está ao seu redor. O formato do Maná contribui para isso, com um blogroll dedicado só a descrever os participantes. Mas a pergunta é: “eu conheço essas pessoas?”
- Estabilidade: o contato tem que ser mantido ao longo do tempo, mas isso não precisa ser por email ou msn, pode ser no próprio espaço para comentários. O quanto você vê seu vizinho?
- Interatividade: esse é vital – é o quanto você dialoga com os outros. Daí vem à tona a questão do Túlio: dialogamos, ou somos só a vitrine de nós mesmos?
- Pertencimento: o fatality. “Eu me sinto parte do Maná Zinabre?”
colado com cuspe por Chammé 5 cunversê
Marcadores: Chammé
9.3.10
Vegetal
Eu fico um bom tempo no supermercado até achar a melhor cebola para comprar. E comprei uma que passou em todos os meus testes. Só em casa deu pra ver que as partes bem no miolo já estavam escuras. Julguei ser algo impossível de deduzir numa olhada de supermercado. Mas existe uma decepção que é pior que atraso no almoço. É perceber que a cebola é uma metáfora sua. E que você pode parecer bem na frente de todos, com sua casca sempre dourada em qualquer conversa com conhecidos, mas que geralmente seu olho fica mareado quando você olha a rua da janela da sua casa. E que alguns assuntos podem expor essa tal escuridão interna, mas é sempre possível desviar do olhar do interlocutor. Ou ser engraçado com ele, que é claramente o melhor método. Porém a putrefação é um processo expansivo, e a saída higiênica mais recomendada é jogar fora as partes ruins, e conservar as boas na geladeira. O que de fato funciona, mas não sem gerar dois efeitos colaterais: a sensação de um vazio no lugar do miolo e o congelamento. Você pode congelar diante de muitas coisas. Simplesmente congelar. E vai doer mais naquelas que você ama. Você pode ser brilhante no que faz, mas só amanhã. Hoje você irá dormir o máximo que puder e os dias serão muito menores para uma vida simples. Um filme vai passar na TV cheio de conflitos muito reais. Mas algum milagre narrativo resolve todos os conflitos, e é aparentemente inexplicável como alguém pode se sentir triste olhando para um final feliz. Mas a cebola que eu comprei no mercado esses dias entendia. Ela simplesmente mostrou que estava escura por dentro no primeiro corte, sem nenhum sinal de pudor. Isso porque em um dos filmes do Godard aparece algo do tipo: “Nós somos mortos em liberdade condicional. E as árvores?”. Ela me explicou que a frase não tinha nada a ver com mortalidade, já que tanto as árvores quanto as cebolas morrem. Ela me explicou que as árvores não sentem a dor do mundo porque elas não têm sistema nervoso central, e que tinha uma explicação melhor ainda. Ela me explicou que as árvores sabem contemplar e viver com o vazio.
colado com cuspe por Chammé 13 cunversê
Marcadores: Chammé
9.10.09
Tecnocafé
- Eu vou tirar aquelas fotos dali.
- Por quê?
- Motivos ideológicos.
- Hahahahahaha. Comassim?
- Beleza, você que pediu: é tudo idiotice. Existe dois motivos pra ter fotos no computador. Ou você encaixota em pastas até perder de vista, e esquece tudo no porão infinito, até o dia que formatarem 10 anos da sua vida. Ou você publica tudo em álbuns , só enquadramento fechado, o máximo que seu braço alcança pra fazer o click, e viva! Olha eu ali, exposto.
- Hmm, “o fim está próximo”. Seria mais bonito se você ainda tivesse 15 anos. Eu também tenho meu ‘motivo ideológico’. Tá pronto?
- ...
- A gente tá pra repetir na internet a história do homem. Você conheceu um espécime nômade, que buscava por sites sozinho e caçava seus próprios links. Hoje ele tá no paleolítico, vive dentro de comunidades, segue outros da espécie. E ele nem deixou de ser individualista.
- E as fotos com isso?
- Foto de Orkut é o primeiro sinal na caverna. É o começo da identidade. Isso é o que menos importa: tá aí uma evolução assistida, a gente não precisa evoluir por evoluir. Podemos pensar antes de fazer.
- Há 6 meses eu até compraria sua ideia. Eu mesmo tinha muita fé no underground hi-tech, em gente livre pra cruzar a onda eletrônica, em plugar em sincro-energéticos e drogas inteligentes “garantindo ampliar nossa potência cerebral e nossa vida sexual”. Mas a questão é que o virtual é uma mentira – ele é cheio de possibilidades, e só. Desde então minha vida virou um grande “se”, e eu não saio de casa nem FAÇO nada há algum tempo. Eu cogito possibilidades.
- Porque você não FAZ algo então, de uma vez? Vira logo um grande hacker...
- Jóia, é isso mesmo que eu vou fazer, virar vândalo. É o gesto que vai completar o vazio de todos nós.
- Pior que não, quase nenhum deles quebra coisas por quebrar. Quando você mostra a falta de segurança em um grande mainframe, é pra questionar: a informação não devia ser livre? Pra que tão criando cofres e gerando as mesmas desconfianças?
- Ok, meu filho, mas quem vai atingir a epifania com isso? Você vai dar a moral da história pra cada um? Entenda só uma coisa: a maçã da Apple já foi mordida, e o pecado não foi botar os computadores na mão das pessoas. Foi criar sistemas bonitinhos e simples, onde eu não entendo nada; aperto o botão e vejo acontecer. E assim eu me afundo nas possibilidades que eles me dão.
- E não dá pra criar num novo código e romper a barreira?
- Dá, mas o virtual não vai embora por isso. Pra você ter uma noção, se eu morrer, meu perfil no Facebook não morre – esse “eu possível” é uma assombração.
- Tá, mas daí ele vira um mausoléu. O virtual nunca vai existir sem a gente, e o lance das possibilidades é só o futuro. Quem faz e decide qualquer coisa é você, agora.
- Lindo. E qual vai ser o acontecimento da minha vida no seu H.O.J.E?
Ebi está offline e receberá suas mensagens depois de iniciar a sessão.
colado com cuspe por Chammé 3 cunversê
Marcadores: Chammé
9.9.09
A Vida Entre Prédios
Yan é um senhor polaco, grisalho e mora no apartamento 65. Vivia de um jeito despretensioso até demais: travava longas conversas com o porteiro, que chegavam a 1h30 de duração sobre jogo de quarta, enchente, cadê aquela moça?, custo benefício de carros populares, aquela do 73 lembra?, e outros. Durante as tardes andava até a faculdade na qual outrora lecionou, e por isso tinha entrada garantida, sem muitos fins de pesquisa, conversando em corredores com alunos e funcionários que não sabiam direito se ele era professor, ex-professor, ou o rapaz do almoxarifado. Yan até se lançava em aventuras, como na vez que pegou o Terminal Capelinha só por inclinação, mas isso era exceção. Era um senhor de aparência acolhedora, mesmo morando sozinho e não recebendo visitas.
Aliás, esse era o estranhamento de Bonifácio, o porteiro noturno. Sentia que era impossível falar sobre “a patroa” com Yan, isso porque ele devia escapar do assunto. Dona Judith, do 26, tinha só uma pena dele por intuição, que se revelava no olhar fundo e na inclinação da cabeça. A mocinha do xerox da faculdade não aparentava nenhum afeto, apesar de subconscientemente procurá-lo na sala dos professores. Na presença de Yan todos eram muito devotos, cada um ao seu modo, mas sua saída motivava desde a misericórdia até o mistério.
Yan até sabia disso, mas era uma discussão que preferiu nunca abrir. Vivia mesmo entre as lacunas do dia, e se alguém lhe afirmasse que ele vivia de fazer nada, ele riria concordando. No fundo, entendia que ver a moça do 73 pela janela era de uma profundidade tanta, que na primeira pergunta trincaria uma casca fina, e dela escorreria a explicação. Ele seria capaz de descrever esse tanto da experiência, mas como nunca tinha o feito, nunca mais o faria. Já estava ajoelhado na metade do caminho diário, e a trombose já fazia o seu papel veloz na vedação de qualquer oxigênio.
Foi um velório cheio. Indignação velada da mocinha do xerox, que jurava que Yan era um grande passivo do corpo docente, até ver aquele paradoxo. Talvez não fosse tão passivo quanto à tv que ela via todas as noites, ou quanto ao trânsito de Bonifácio até a portaria. Dona Judith rogava pelos cantos, sem pensar que o seu velório poderia ser composto de três pessoas, as únicas que frequentavam sua casa. Diferente da passividade, Yan apresentava, ao menos, um estilo modesto. Seu segredo era não transitar entre a solidão e o estar junto; na presença de qualquer indivíduo, ele estaria sempre participando.
colado com cuspe por Chammé 5 cunversê
Marcadores: Chammé
9.7.09
Sexo na Caçamba
Foi logo depois que desliguei o laptop. Eram 4 da madrugada e a senhora começava a gritar seus pulmões fora. Juro que queria entender quando ela falava o nome do marido, assim seriam dois novos conhecidos. Porque para ver ela eu nem precisava abrir a janela: pequena, cabelo crespo preso, suéter de tricô rosa, uma saia, sei lá, bege, e com certeza carregava uma sacola de mercado. Pelo timbre de voz tem uns 50 anos, 35 desses consumidos em cigarro, e nem metade disso na relação com o marido. Agora pouco chamou ele de covarde, o que parece justo para alguém que berra toda noite por outra pessoa. No ápice do ato, eu dormi.
Colado no espelho do meu banheiro tinha o recado do Ed, já que a gente nunca acordava no mesmo horário. O da vez era:
- Não consigo dormir. Descobre quem é essa vaca que eu ligo pra polícia.
O tom direto era intimidade, e eu devia essa para ele. Fiquei pensando no meu possível encontro com a senhorinha. Não sei nem se ela tem rosto, e se tiver, vou ficar com medo. Mas eu não era só bondade: queria ver tudo, a senhorinha, o marido dela, e encher minha cabeça com fatos. Precisava enxergar a vida no flagrante, para depois retratá-la.
3h30. Fui à única rua que ela poderia estar. Depois vinha o colégio, e pra lá dele, só se ela tivesse um megafone. Mal sei o que contar da rua para vocês: é normal, bairro do centro, prédios e comércio. Além do silêncio, tinha um casal se pegando, e para não parecer um psicopata na espreita deles, entrei no único café aberto. Sem beber nada, fiquei olhando a rua pelo vitral da fachada, pra ver se algo acontecia. O que acabou me chamando a atenção foi o lado esquerdo do vitral, que mostrava o neon de um sex-shop. Do outro lado desse vidro, o mesmo neon, refletido com letras invertidas, apontava sua flecha vermelha para uma caçamba. Na oportunidade única da piada, pensei: o sexo ali deve ser um lixo. Voltei para casa com o silêncio noturno e nenhum sinal da senhorinha, tampouco do marido.
Ed merecia uma resposta pela minha empreitada. Achei uma caneta e deixei o recado na escrivaninha dele:
- Você matou meus dois personagens. Quero um conto até amanhã.
colado com cuspe por Chammé 11 cunversê
Marcadores: Chammé
9.6.09
Fogo Inerte
Já enrolava há uns trinta minutos na cama, olhando o feixe cinza que riscava o teto. Sair foi fácil, era só tirar a camiseta do pijama, colocar a calça social sobre as ceroulas, camisa, colete e o sobretudo. Sem gravata, de certo – eu não era um executivo, era só um homem que compreendia o glamour de seu tempo. Dei um tchau para a Sra.Weaver que ajeitava os vasos de aspidistra no minúsculo hall do prédio; na verdade era só um lugar para deixar os guarda-chuvas. Ventava muito na Glasshill St, quis entrar no café da primeira esquina. Os largos vitrôs com vista pra rua faziam de cada esguelha um enquadramento. Pedi latte no balcão para acompanhar o ragtime matinal que saia do rádio. Já que tudo ocorria a vinte e quatro quadros por segundo, abri a porta lateral verde com a outra mão no bolso, franzi as sobrancelhas para fingir que tinha um pensamento realmente intrigante, e empunhei um maço de Player’s Weights, que com uma beliscada fazia o filtro alcançar os lábios. De manhã a cidade exala algum tipo de charme, e eu era um dos poucos a reverberar isso. Fui abordado por um camarada negro, de cabelo armado:
- Eai rapaz. Cê toma quantos por dia pra ficar assim?
- Três.
Me deixou um sorriso simpático e irônico, e saiu com a sua namorada de cabelo sarará; era um black-power nacional. Olhei para o lado e vi um senhor de avental branco com pelos do peito na altura da gola, sobre o balcão de coxinhas, pastéis e assados. Vi a Nany CD´s com todo tipo de bugigangas, e um rapaz com um boné azul que estranhamente tinha uns brincos na aba, a frente de sua barraquinha com caixinhas plásticas descoradas. Vi camelôs, calçadões, prédios encardidos; senti tristeza nos ladrilhos preto e branco da calçada. Passei a mão perdido na minha nuca e tateei a gola de tactel. Qualquer discussão agora seria perda de tempo, negação de tudo aquilo que eu já havia superado. Por isso dei um trocado de imediato para o menino que me abordou; ele correu feliz na outra direção. Vi cabos de trólebus sobre ele. Era isso, trólebus. Parei num lugar onde parecia o ponto e fiquei esperando o próximo passar. Queria só entender por que todo aquele calor, e presumi que era um dia de sol no inverno – e eu usava sobretudo. Pronto, inspirei profundamente e soltei o ar. Com um trolley até dava pra chegar bem rápido na Rushworth St.
colado com cuspe por Chammé 2 cunversê
Marcadores: Chammé
10.5.09
Xangai, 1954
Prefácio
Aos frequentadores, perdão a demora do texto, mosquei mesmo. Mas nunca é tarde para um pouco de duplipensar: dia 10 é dia 9. Hoje é dia 9. Viva o partido.
Eu não falava tão mal assim. Isso é muito importante quando você é a única figura não oriental do recinto, e pior, na frente do quadro negro. A pequena sala agrupava pelo menos uns 20 jovens que aderiram à facção comunista: olhavam para mim de forma abismada, mas aparentavam compreender. Eu era americano (minha ascendência tcheca, contudo, colocava panos quentes na situação) e também linguista. E era sobre isso que lecionava naquele momento.
– Vejam, a comunicação rápida foi criada na guerra. Com toda esta revolução nas técnicas de combate que acabei de citar, os confrontos a base da explosão, ficou impossível guiar tropas só pelo comando de voz. Precisamos comandar elas com bandeiras, brasões, cores nos uniformes, textos curtos e diretos. Os Estados Unidos fazem um uso ridículo disso em suas propagandas, empurram produtos para as massas. Mas os conceitos são os mesmos. Não sei se vocês conhecem, mas a palavra slogan, do gaélico, significa grito de guerra. Já aqui, a comunicação é usada de um jeito totalmente diferente. Quantos aqui de vocês já conheceram Mao Tse-Tung pessoalmente? Ninguém, acredito. Mas esta é a questão. Vocês não precisam encontrar ele para saber o que ele pensa, como ele é, o que ele quer para a China. Os instrumentos de comunicação assumem esse posto. Não precisamos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, qualquer acontecimento pode estar em nossa mente por outros meios. Isso é a mídia usada para o bem comum.
Culturalmente, não sei se minha explicação era a certa para o lugar. Apesar de me entenderem, minha retórica devia parecer bizarra para aquele grupo de jovens. A facção não pertencia diretamente a Mao, mas com a morte de Stalin no ano anterior, o recém-nomeado presidente chinês se tornava uma figura notável dentro do socialismo, e qualquer bando, por menor que fosse, queria mostrar respeito. Por isso, aos costumes ocidentais de pensamento do grande chefe, contratavam pessoas como eu para dar aula. Explicava aos garotos que a comunicação era, fazia e acontecia. Um papo em certo ponto visionário para aqueles tempos de combate só ideológico. Mas a guerra, em natureza, é terror e imprevisibilidade. E assim os frisos da pequena sala anunciavam o clarão que vinha de fora, acompanhado de um estrondo que derrubou o quadro negro da parede. Esteticamente desmoronada, minha sala de aula foi evacuada em pouco tempo. Saí quase ao final de todos; era todo adrenalina, mas mantinha a razão acesa. Já conhecia o prédio e procurei as salas que julguei seguras. Foi quando Yao Zhang me puxou pelo braço e descemos as escadas em direção ao subsolo.
– Isso é um ataque aliado?
– Esta tudo fora de controle, Klaus. Esse ataque é do próprio exército de Mao. Descobri há uns dez minutos, e me escondi. Acho que eles temem mais gente no poder, ou uma contra-revolução disfarçada. Esse é o motivo da ofensiva.
– É impressionante. Em qual momento da evolução o homem entendeu que brigar com idéias era brigar com o braço?
Meu papo pareceu um tanto filosófico para o momento, e Yao me deixou no corredor do subsolo. De qualquer jeito, não tirei o assunto da cabeça: quando é que um tratado de idéias chega às vias de fato? Já discuti muito nessa vida, e discordei também. Acho que nunca dei um soco na cara de ninguém por causa disso. Enfim, corri por várias passagens estreitas até uma porta preta, escrito “editor” em letras latinas. Entrei. Era uma despensa bem pequena com torneira, mal cabia eu e o rapaz de sobretudo marrom, que excentricamente tomava uma xícara de café, fumando. Sem me apresentar, fui direto ao ponto.
– Uma aula de comunicação no meio do front... pra quê?
– Nunca foi tão importante.
– Como é?
– É tudo. Tudo o que todo mundo sabe. Você conhece bem, é especialista em guerra. Qual foi o último homem morto que você viu?
– Nunca vi um.
– Pois bem. Você sabe o que o rádio sussurrou, o jornal te disse coisas também. Mas qual foi a última coisa que você realmente viu? Uma cena remota, talvez uma formiga morta ontem, na pia. Essa é a questão, ninguém nunca viu nada, pagaram pela entrada, sentaram e assistiram. Eles fazem o que querem, sem testemunhas. Duro é encarar os fatos. Você pode deixar as bombas explodindo lá fora. Ou percebe logo que é só o som do seu rádio-relógio.
colado com cuspe por Chammé 3 cunversê
Marcadores: Chammé
9.4.09
Zero-Um
Olhava o cursor em formato de ampulheta e se intrigava – será que o computador pensa? Afinal, era só clicar em um link, botão, arquivo para a máquina fazer todo resto. Se o computador pensa, devia ser considerado um ser vivo. Levou essa questão para o professor de matemática, que lecionava o sonolento primeiro horário de segunda-feira. O professor, que tentava animar as aulas sobre matriz com exemplos de cibernética, respondeu:
- Olha, Franco, o computador não pensa. Quem pensa é você. Ele só executa o que você pede. É como uma calculadora evoluida.
Isso não desaminou o menino. Aproveitou toda a aula de literatura para concluir: pouco importa se o computador tem vontade própria ou não. Pelo menos ela processa as coisas, e isso deve ser um pensamento em algum nível. Chegou em casa, um belo condomínio afastado da cidade, e trocou a tarefa sobre a evolução dos cordados por artigos da Wikipédia. Leu sobre o código binário e não entendeu lhufas. Teve que esperar até quarta-feira, segundo tempo. Quando se deu conta que esperava ansiosamente a aula de matemática, mal acreditou. A surpresa era a mesma para o professor, que via aquela figura uniformizada caminhando em sua direção, enquanto todos seus colegas buscavam a fuga mais rápida ao toque do sinal. A pergunta de Franco era respondida com o orgulho pelo cientista da computação, hoje docente do ensino médio:
- É o seguinte: o computador só sabe fazer contas. Para escrever um texto ele passa tudo para números, para poder gravar e trabalhar com isso. O “A” maiúsculo, por exemplo, é substituído por 65. Só que aí vem a questão: o sistema dele é binário, não é? Só 0 e 1. Então como é que ele entende o que é 65? Para isso ele tem que converter esse número para binário. Então, pense o seguinte: 0 é desligado e 1 é ligado.
No apogeu da explicação, o professor pegou uma folha papel e marcou uma tabela.
__.......__.......__.......__......__......__......__......__
128.....64.......32.......16.......8........4........2........1
- O computador tem que preencher cada um desses espaços com 0 e 1, desligado e ligado, para fazer um número. Para fazer o 65, que representa o “A” maiúsculo, ela teria que ligar o 64 e o 1 nessa tabela, certo? O resto ficaria desligado. Então o número do “A” ficaria 01000001. Entendeu?
Preencheu mentalmente os zeros e uns na tabela e viu que dava certo. Apesar de parecer muita maluquice, aquilo finalmente fez sentido para Franco. O papo fermentou na sua cabeça durante toda volta da van até sua casa suburbana. Alias, a conversa maturou na sua cabeça o dia todo, e depois do banho, ele resolveu abrir a caixa de pandora – será que Deus também fez um código binário? Um 0 e 1 que criou absolutamente tudo, e ele só vê seu computador perfeito rodar pela eternidade? – Sentiu pegar o Criador na curva, descobrindo sua verdade. Testaria tudo no dia seguinte.
A maior experiência de sua vida seria feita na cantina, às 9h. Ele olharia no cardápio todos os salgados existentes ali, que valeriam 1. Um salgado inexisteste no cardápio valeria 0. Depois ele avaliaria se o salgado estava disponível, dando também 1. Sendo assim, um salgado existente e disponível na cantina seria 11, e só assim poderia ser comprado. Mas ele queria testar o sistema: então iria pedir o suposto salgado 01, que não existe no cardápio, mas mágicamente disponível no balcão. Se o pedido falhasse, era porque tudo era realmente binário.
Chegava a hora da verdade. Olhava, excitadíssimo, os salgados do cardápio da cantina como a porta para outra dimensão. Viu que não havia risólis, e disparou sua sentença fatal para a atendente:
- Me vê um risólis.
A moça, que inicialmente frisou a testa preocupada, estendeu seu braço para dentro do forno do balcão e entregou para Franco a derrota, embrulhada no guardanapo. Ele, sem entender nada, balbuciou algo incompreensível e foi para a sala.
Franco só entenderia aquilo no fim da aula de biologia. Entre o zero e o um, descobria a genialiade de Deus: o talvez.
colado com cuspe por Chammé 7 cunversê
Marcadores: Chammé
9.3.09
Protociência
Não era nenhum compromisso esperado com orgulho, era um “finalmente”. O interfone me avisava a chegada do encanador de camiseta, bermudão, chinelo e nenhum material na mão. A primeira vista, pensei se eu precisava mesmo dele para fazer aquele serviço. Rumamos para o apartamento da japonesa, que nos guiou em um caminho de gatinhos brancos, porquinhos brancos e texturinhas de flores na parede até o seu banheiro, que sofria com o vazamento do meu. O encanador forrou o banheiro de jornal e cortou o teto com um serrote fino (que, aliás, eu emprestei). Fiquei como o assistente ranzinza dele, buscando materiais ou fazendo favores enquanto observava. O engraçado é que ele fez um buraco pequeno no teto de gesso, que só cabia a mão dele, e tateando sem enxergar nada, me disse: “a água vem do seu vaso”.
Por incrível que pareça, começava a me interessar por aquilo. Ele nem “viu” o vazamento e já tinha idéia de como acontecia. Fomos para o meu apartamento e ele seguiu com a demonstração: tirou o vaso do lugar e me convidou para assistir à lajota quebrada. “Olha, cê tá vendo que quando eu seco aqui a água vem de lá pra cá, né?”, e do box para pia, aquele pequeno pedaço de chão exposto inundava lentamente. “Quer dizer que a água vem do chuveiro, infiltra no chão, e desce por fora do cano do vaso até o apartamento da vizinha”. Naquele momento comecei uma reunião dentro da minha cabeça – aquela conclusão era muito, perto das evidências. A dedução do caminho tortuoso do líquido foi feita em cima de duas constatações distantes, interligadas em lógica. Se for pensar, não era nem muito distante do que, sei lá, Rutherford usou para descobrir o modelo atômico. Isso mesmo: Rutherford nunca viu um átomo na vida, como todos, e sugeriu que ele parecia um sistema solar depois de bombardear uma lâmina de ouro com partículas alfa. E depois de alguns anos de estudo, é claro.
Estava convicto de que aquilo era ciência, e pior, desprezada. Enquanto meu trabalho era dizer groselha enfeitada no ouvido de muitos, o dele era de aumentar o saber hidráulico dos homens, ajoelhando em banheiros e lavabos. O que daria se ele fizesse uma faculdade de Encanador? Talvez dos 4 ou 5 anos de estudo, algumas matérias serviriam pra nada ou como curiosidade, outras para convencer os clientes com falas técnicas, e alguns aprendizados seriam realmente pertinentes. Sem contar que o mesmo trabalho que ele aprendeu inteiro na prática valeria três ou quatro vezes mais. O saber enobrece. Pelo menos o do diploma.
Ainda sim, acreditava naquela ciência, paga com 30$ e um “até logo” na porta do elevador. A idéia dormiu na minha cabeça naquela tarde e acordou dois dias depois, na janta, com a pergunta da minha irmã e a TV ligada ao lado:
- Cê viu no que deu o conserto do Zito?
- O quê?
- A japonesa reclamou que tá vazando tudo de novo
- Ah Jô, mas nem Rutherford acertou de primeira.
Foi um jantar silencioso sob a luz de raios catódicos.
colado com cuspe por Chammé 5 cunversê
Marcadores: Chammé
9.2.09
Marola
Prefácio: esse texto possui erros gramaticais convictos, como "idéia" com acento.
Abri o caderninho que já me acompanhava há três anos, com bordas amareladas, e quase escrevi: “Eu amo a praia”. Me veio, de imediato, a repressão: que frase mais idiota, quem é que não ama praia. Talvez quisesse dizer que amava o mar, mas isso ainda seria mal explicado: o jeito que eu gostava era bem diferente do farofeiro que “toma um bronze” na cadeirinha de alumínio e, vez em quando, vai no mar pra mijar. Sou daqueles que se liga na ondulação, no sentido que as ondas quebram. Eu me divirto no mar, enquanto a maioria das pessoas só relaxa.
O início dessa vontade em anotar no caderninho foi há dois dias, na praia mesmo, com a Laís. Já era noite, e enquanto a gente fazia aquele silêncio de namorados, sentados na areia, fiquei pensando como o surf era uma celebração do dia, do nascer do sol, e só alguém afim de pegar onda mesmo pra ficar em pé às 5h da manhã de um sábado. Mas quando anoitece, o vento inverte a direção e não se vê mais nada dentro do mar, e dessa maneira você fica sossegado com a mina do lado, olhando a praia. Concluí que o dia foi feito assim de propósito, para evitar que o surfista ficasse dividido. E foi aí que Laís furou minha idéia: “Cê tá pensando em ficar aqui segunda também? Porque eu queria subir amanhã de noite, já”. Devia ser de birra, na sexta eu vi a previsão do lado dela, e ainda comentei que a ondulação ia tar perfeita no começo da semana. Fiz só um silêncio, que acompanhou o comentário “cê que sabe” dela. Acabamos desconversando e voltamos numa boa para casa.
Domingo, 6h da manhã. Esperava ter acordado mais cedo, mas considerando que eu não usei despertador, tava ótimo. Vesti logo o John, peguei a prancha e dei no pé. Chegando na praia encontrei o Coimbra, que morava ali por perto e certa vez me disse: “Quando você tá na onda, você tá ali e pronto. Se tua mina tá dando o cu para o cavalo, não importa, se sua mãe não gosta mais de você, não importa”. Lembro de rir bastante com isso. Todo molhado, ele confirmou que as ondas tavam realmente boas. Já tinha visto umas mais altas por ali, mas aquelas ainda valiam a pena. Ficamos por uma hora no mar até o inimaginável acontecer. Tinha feito o drop e me preparava para fazer a primeira batida, quando o Coimbra gritou logo atrás “olha o tubo!”. Já vi muitos tubos pela TV, mas ao vivo é sem palavras. A água ao redor bloqueia o som de fora, e a sensação é de estar numa sala em silêncio durante três segundos absolutos. De todas as idéias que o homem já teve sobre o paraíso, um tubo deve ser algo bem próximo. Surfamos o resto do dia com esse episódio na cabeça.
No fim da tarde encontrei a Laís, e lembrei do assunto do dia anterior. Fomos comer e ela não disse nada, mas quando chegamos em casa sua mochila já estava pronta sobre a cama. Olhou para mim e perguntou “e aí, como vai ser?”. Eu, fitando minha prancha como se enxergasse através dela, respondi “vamo nessa, eu te levo”. Encarei todos os fatos naquele breve período de tempo: se escolhesse o contrário, em ficar, ela se magoaria no ato. E eu não podia desperdiçar isso, não sabia o quanto ela ainda ia gostar de mim. Já o mar não me demonstrava nenhum tipo de amor, e talvez por isso, fosse o único que eu amaria por toda vida.
colado com cuspe por Chammé 10 cunversê
Marcadores: Chammé
9.1.09
Fora de Órbita
Prefácio
Sou rapeize de primeira viagem em blog. E pra aproveitar que tô realmente no começo, resolvi fazer uma narrativa, sem tato algum. Então, fica o encarecido pedido: leiam e esbofeteiem à vonts. Agradecido.
Céu aberto; letras enormes escreviam o nome da cidade na fachada do aeroporto. O lugar era só um suporte para aquele sentimento. Enquanto descia as escadas ao lado da turbina, já via placas do tipo “Faz 5 anos que eu não te vejo. Te amo”. Muita gente sorrindo, sem saber para onde olhar e fazer o primeiro aceno. Meus companheiros de vôo também sorriam. E eu, a observar todos eles, agradecia por nenhum olhar ou placa pertencer a mim.
Estava lá em meu destino. E quanto mais me dava conta de não ter nenhum conhecido, mais me recheava de contentamento. Quem diria, parar ao lado da esteira e aguardar pacientemente minha mala. Ela viria no tempo que lhe coubesse, sem as pressões daquele acompanhante que arfa ao seu lado, e examina tudo para garantir que não perdeu a bagagem de vista. Aliás, era melhor pensar que a aflição dessa pessoa não mudaria em nada o resultado: cada vez eu me sentia a pessoa mais agraciada do aeroporto.
Táxi. Ruas de paralelepípedos e areia. Túneis. Fique com o troco. Em que posso ajudar. Ap 402. Ah. Ainda havia sol na praia, mas me dei ao luxo de assistir a Tróia na TV. Tirei fotos de todo quarto e finalmente saí. Fui me levando até uma avenida com um calçadão que beirava o mar e vi casais e famílias. Me reconheci em um menino que andava emburrado, puxado pelos pais; era eu ontem. Vi uma pedra na areia pichada “Deus”. Mais um casal corria saudavelmente sem trocar nenhuma palavra. Por fim, li uma placa que fazia parte de um projeto da prefeitura sobre o Espaço, plano de algum físico lóki. Aquela ali comentava sobre o Sol, com a inscrição: “O Sol ocupa 98% do sistema solar”.
Cheguei ao restaurante. O sentimento ainda irradiava, como uma extensão tântrica do alívio de mijar. Não precisava de diálogo – desfrutava da velocidade elétrica que meu cérebro tinha para se comunicar. Tentei entender um pouco mais: o que era tudo isso, saudades de mim mesmo? Conversar com os outros devia ser, na maior parte do tempo, a negação própria. E se fosse isso, qual era a necessidade de ter qualquer contato íntimo com as pessoas? Colegas de trabalho, amigos, namoradas, tudo parecia groselha. Sonhei em ser um homem mudo, lacônico, e que ineditamente não tivesse um semblante carrancudo: seria por opção.
Foi quando vi a oferta a algumas quadras de distância – “Vendo Kitnete”. Não devia ser difícil me bancar ali. Além do mais, qual era a probabilidade d’eu realmente executar esse plano? Dois por cento? Segundo os astros, era suficiente para consolidar um mundo inteiro naquele lugar.
colado com cuspe por Chammé 10 cunversê
Marcadores: Chammé