4.7.10

Tem dia

Tem dia que eu sinto falta da falta que eu sentia de morar numa metrópole. Acordo com um pensamento provinciano mesmo. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Chegar no trabalho em quinze minutos. Voltar pra almoçar a comida da mãe. Abraçar o pai e o irmão. Almôndegas ao molho de tomate e suco de limão. Descer pra conversar com o Tota, o Cabeça, o Katuso, o Bizu e o Brunete. Tocar violão com o Victor. Ir ao pit dog com o Renan. Jogar Play Station com o Brunão. Fazer Muay Thai e depois ir tomar açaí com o Josivan e o Sebinha. Falar de futebol com o Vinicera e o Seu Geraldo. Os futebóis de sábado no Crac-Bol. Tirar a Cota da gaiola. Andar sem medo de me perder e ir parar numa bocada. Estacionar o carro na rua sem preocupação. Ficar esperando um tempão para o Seu Edmílson abrir o portão da garagem. Disputar o computador com o irmão. Tomar café com pão. Levar bronca do pai. Comer o bolo de laranja que minha mãe fazia e eu detestava. 

Tem dia que eu quero qualidade de vida. Tem dia que eu quero esse caos. Tem dia que quero todos os amigos por perto. Tem dia que quero ficar só com ela. Tem dia que quero ficar só. Tem dia que tudo. Tem dia que nada. Tem dia que é hora, que é minuto, que não passa. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Deixar o carro em casa e ir trabalhar de busão. Forçar as vistas e ir lendo no caminho. Tomar capuccino com açúcar. Reclamar de briefing mal feito, resolver logo briefing bem feito. Ir almoçar no restaurante baratinho do chinês. Comprar chocolate na padoca. Comer tudo de uma vez. Trabalhar muito. Falar de trabalho. Voltar a pé pensando na morte da bezerra. Trabalhar mais. Pagar as contas. Deixar as contas vencerem pra ir viajar. Rir da risada do Xandão. Perder no Street Fighter pro Matoza. Perder o busão. Brincar de Clube da Luta com o Pedro. Tomar um puta chute naquelelugarquedóipracaraleo. Comprar cerveja ao invés de comida. Começar uma dieta saudável pra perder barriga.  Falar de trabalho. Torcer pro sucesso chegar. Pra sexta-feira voltar. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Ir ao supermercado comprar Maizena pra Lucia e Coca-Cola pra Dona Cida. Passar na banca e comprar o gibi da Mônica pro Rafa. Sair com a Aline pra tomar coquetéis e depois apagar com ela debaixo do edredon. Discutir por coisas bobas só pra fazer as pazes. Deixar a Poly deitar na cama pra ver se ela para de latir. Abrir a porta de madrugada quando ela quiser sair. Levar a Keila pra passear. Tomar sorvete até enjoar. Ver filme antigo na TV. Perder feio na Canastra. Comer aquele delicioso macarrão com carne moída. Desejar tudo isso pra toda a vida.

Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando. Não trocar de vida com alguém. Trocar comigo mesmo. Tem dia que tudo. Tem dia que nada. Tem dia que é hora, que é minuto, que não passa.

7 comentários:

Pedro Xudré disse...

É meu amigão. Tem dia em que tudo complica, mas há outros em que tudo clarece e carece de um abraço e de um amigo. Esse amigo é você, é o matoza, é o xandão. Fico feliz que nesses dias vocês estão aqui, fico mais feliz ainda nos outros, por que sei que estarão lá, para o que eu precisar.

Ótimo post, ótima abertura de coração. Refletirei muito nas coisas ocultas dessa narrativa que é tão sua, que é tão toda nossa.

Abração e não mude nunca para algo que não seja o Leo, que amamos.

Heyk Pimenta disse...

olha, ideal!
gostei muito, por sou migrante, sou filho desgarrado, tô longe também, tô cortando um dobrado também, que beleza! vamos falando!

Francesca de L. Martins disse...

Maravilhoso!
...É tão bom sentir falta, lembrar com saudade!

Abraço.

Victor Meira disse...

Ó, na falta do outro Victor ali pra tocar violão, tem outro na área... :D

Texto gostoso, mano. Botar o coração na frigideira é arte sublime.

Leo Curcino disse...

valeu ao Pedro pelo carinho fraterno, ao Heyk e Francesca pelas considerações e elogios.

obrigado ao Victão por se oferecer a tocar uma viola.

sempre bom.

Chammé disse...

Eita.
Bom, terra estrangeira é o que não falta, né? Já tá tudo junto misturado, pessoal. Somos todos migrantes.

Putz, Leozera, é muito gostoso ler teus textos, cara. Vem de gosto, sabor mesmo, ou como diria o Victão, "por o coração na frigideira". Cê vai colher uns sentimentos que tão amanhecendo, é impressionante. Tipo estar no interior e pensar em como deve ser a vida na metrópole, embalado na "falta da falta", só um gosto que passa no cérebro. Coisa fina.

Bença dupla.

Leo Curcino disse...

bença, dupla. aliás... saudade de ser seu dupla, rapeize.