21.6.10

Plástico Paraguai – Hules

Visitei Ykua´Karanda´y, que em guarani quer dizer: “Água que brota”. Companhia de Luque, a villa de hules, onde há moradias feitas de plástico. O banheiro ainda é a remota latrina, um buraco no chão. As famílias que ali vivem ocuparam o baldio, não fazem parte da arrecadação tributária. Não há luz, água, saneamento. Dez metros adiante da rua que cruza o bairro, luxos brilham em algumas mansões. Na caminhada pelo lugar parei numa casa, precisava molhar a cabeça, o calor tonteava, quase tombava a gente. Buscava hidratar-me e via ao lado um córrego por onde passavam os dejetos dos que viviam ali. No lar que estive, generosamente, um homem silencioso serviu-me água do poço. Crianças pescavam girinos nas veias do podre regato. Este bairro fica a poucos minutos da capital Asunción. No dicionário português, Assunção significa a elevação de um cargo ou dignidade. No dicionário espanhol, ação e efeito de assumir.

Assunção, 2008.

5 comentários:

Heyk Pimenta disse...

mano,
o texto toma um tom de jornalismo sentimental, é muito adjetivado. Enxugue os adjetivos e ele vai se tornar um relato interessante sobre a desigualdade. COmo está pende para apelo cristão sobre a desgraça do homem.

o final sobre o dicionário eu achei realmente genial. acho que é só por enquanto.

Ah, "este bairro fica poucos minutos da capital Asunción" cabe "a" antes de "poucos"

Arthus disse...

Irmão, tirei um adjetivo que me incomodava, e coloquei o "a".
O resto é isso, a criação das imagens dependem dos sentimentos:
calor, lugar sujo, rústico; desigualdade, silêncio ante isto.

Nada de apelo cristão, é um relato sobre o silêncio, sobre a indignidade. Enfim, cristo se existiu, também relatava os avessos, mas não tenho pretensões de comparar - não por me sentir agnóstico na maior parte do tempo, mas sim porque não creio num messias, e sim num coletivo, numa geração que ungiria à humanidade.

O legal do dicionário é que ele dá significados diferentes ao texto, que no todo é um só.

Abraços, nos vemos essa semana para ficar em silêncio.

isaac disse...

Olá Arthus,
Gostei bastante não só do relato sobre a desigualdade como também do que identifiquei, em minha leitura, como um sentimento "on the road".
Entretanto, a crítica do Heyk procede, ele coloca um ponto bem interessante.

Quero aproveitar pra endereçar os amigos do blog sobre a questão da crítica sobre os textos aqui postados.
Na maioria dos espaços poéticos na blogosfera brasileira - e isso se estende a música e todo empreendimento "alternativo" - existe um ressentimento a quem faz críticas aos trabalhos, uns acham que é trairagem, outros têm seu ego ferido, rola geralmenge a política da camaradagem pra falar sobre o trabalho dos outros, por mais que seja uma merda.

E na poesia de rua a gente vê muito isso, tem muita poesia de rua excelente - como a do Heyk - tem outras que são uma bosta, de nêgo que acha cool ser poeta de rua e interpreta erros crassos de português como licença poética.

Eu mesmo angariei antipatia de amigos poetas por ser franco algumas vezes, sendo com a melhor das intenções, pois quando você faz uma crítica de boa fé, mesmo que às vezes áspera, mas honesta, isso é valorizar o trabalho do caboclo, e quem não enxerga isso tem que ficar chafurdando mesmo em uma unanimidade contraproducente e coleguista.

Tipo, postei o "Presidente" esses dias, aí passou poucos dias, eu fui ler de novo e pensei "nossa, esse poemeto é uma merda".
Mas vejo que ao invés da crítica fica um silêncio, talvez eu até esteja sendo inocente, pois o silêncio pode ser de simplesmente ter sido pouco lido.
Da minha parte, prefiro a opinião dura, quando for o caso, daqueles que parte o coração na hora mas que te dá a certeza de que você pode contar com o caboclo que te deu aquele tiro, ao menos pra valorizar e efetivamente ler sua poesia, seu trabalho.

O que acham os amigos do Maná?

Um abraço Arthus e amigos!

Arthus disse...

Isaac, sobre a crítica do Heyk, só não concordei com a idéia do "apelo cristão", acho sim que os adjetivos dão forma a narrativa.
Um adjetivo tirei, e ainda coloquei o artigo que foi sugerido.

Hoje, conversando com ele no almoço, soube que a crítica ia mais diretamente ao "remota" quando me refiro a latrina. A questão era: será que a latrina é mais arcaíca que nosso sistema sanitário que joga toda merda nos córregos?

Então havia a idéia de que a pobreza não é vista atualmente como uma dívida existencial, e sim como grupo gerador de conhecimento e cultura; foi resignificada no tempo presente.

No texto, o que tentei passar foi um cidadão de classe-média passando por um bairro periférico de assunção, retratando o ambiente(visto de longe, passeando) ante as disparidades que se colocavam em sua neutralidade (pobreza e luxo como vizinhos).

A crítica é relevante pois nos faz refletir, amadurecer. Mas, como um gênero literário é também passível de ser criticada num ciclo infindável.

No entanto, existem hierarquias inconscientes que nos fazem criticar algo ou não. Há aquilo que nos gera impulso comentar, refletir, e também aquilo que não gera. servem como apreciação ou talvez não nos emocione para nada, como já aconteceu com um texto que publiquei aqui mesmo. Falta de tempo para comentar? Talvez...

Afinal, Como diria Primo Levi: poetas também falam como ditadores, em silêncio.

Aceitemos qualquer comentário, mesmo os que o silêncio sugere, enfim.


Abraços

Heyk Pimenta disse...

realmente, caros, criticar é duro pra quem ouve e pra quem critica, porque o medo é sempre esse: se o cara achar que estou de gracinha com a obra dele, posso perdê-lo como par.

mas, como o isaac disse, aqui crítica vale e não é golpe baixo.

no poema dia faltou só me chamarem de viado quando reclamei de uns versos velhos.

é, meu medo foi algum tom sensacionalista que o texto do arthus poderia adquirir.

igual quando mandam o natgeo pra dakota pra olhar os índios e mostram eles assim: olha como são primitivos os nativos, eles andam sobre a brasa pra encontrar um deus inexistente.

É isso, acho que o "outro" é lugar de pensamento não de cuidados ou exotismo.

abração