1.7.09

Justiça

Escrito em maio.

Na primeira sexta-feira de maio resolvi sair mais tarde da sinagoga. As ruas estavam mais vazias do que o comum, o que me fez querer andar um pouco mais, evitando o metrô. Andar à noite sempre me fora terapêutico como um banho quente depois de um dia longo de trabalho.

Depois de mais de quarenta minutos de caminhada, quando saí da Brigadeiro, pressenti que eu estava sendo observado. Um auspício medonho me percorreu das extremidades até o peito, onde fez ninho e se apossou dos meus sentidos. Andei mais depressa, e o vulto se avolumou por trás de mim, fazendo meu coração acelerar doridamente. Corri. Corri o mais rápido que pude, apenas para constatar que quanto mais meu desespero crescia, mais a criatura evoluía, até que finalmente me alcançou com um tentáculo tão grosso quanto um poste de luz. Com a força do impacto de um caminhão contra minhas costas fui lançado à calçada do outro lado da rua, atordoado e semi-consciente, com o braço esquerdo esmiuçado. O monstro se arrastou pelo chão e cresceu, cheio de negrume e ameaça, pondo-se à minha frente. Seu corpo era feminino e esguio, cheio de um breu, um brilho piche, sujo como os tentáculos que saíam de algum lugar em suas costas. Tudo era sem dimensão. A criatura toda tinha o tamanho de um prédio, e seus olhos azuis me olhavam vazios, como que dominados por um torpor selvagem, um estado vago, inconsciente. Seu corpo investiu e seus dentes de navalha, fincados na gengiva que parecia um muro cheio de cacos de vidro, me morderam nas costelas, e começaram a triturar minha carne com mordidas letais. Seus tentáculos imobilizavam meus membros, torpes de agonia paralítica. Suportei cônscio. Meus sentidos não desistiram. Só então, de trás de todos os tentáculos que se agitavam no ar, um, magnânimo, insurgiu entre os outros. Sua extremidade era pontiaguda e salivava um veneno azul como a cor dos olhos abomináveis. Havia uma faixa em torno do ferrão, como que protegendo a criatura do próprio veneno.

Seus olhos subitamente começaram a ficar vermelhos, cheios de calor, de uma hora para a outra. O corpo começou a se retrair e os tentáculos agonizaram, largando meus membros. Sua bocarra finalmente arrancou parte da minha costela, e se retirou. A criatura parecia estar tomando consciência - parecia estar saindo daquele torpor. Seu corpo diminuía com rapidez e as expressões de seu rosto começavam a mostrar os traços das fraquezas afetivas que caracterizam nossa humanidade. Em seguida, tentáculos diminutos desenlaçaram a faixa que envolvia o ferrão, que passou por cima de sua cabeça e me encobriu ereto, pronto para o bote. E então avançou, mas, paradoxalmente, tomou outra direção e perfurou o ventre da própria criatura. Seu corpo, que já aparentava o de uma moça jovem, se envolveu novamente do piche e das dimensões abissais num piscar de olhos. Seu olho passou do vermelho flamejante ao azul vazio numa fração de segundo, e toda humanidade desapareceu mais uma vez.

Entregue à noite fria no leito de meu próprio sangue espalhado pela calçada, sibilei:

- P-por que?

7 comentários:

Heyk Pimenta disse...

Hoje é a primeira sexta-feira de julho. Que nos espera?

Philippe Bacana disse...

epa... essa moça cheia de braços tem algo particular com judeus?
caramba, gostei muito. de novo.
sempre me pego pensando por onde começaria esse desenho, como formaria esse monstro.
isso é bom, não?

abraços!

Philippe Bacana disse...

e mais: li esse trem e cochilei no sofá.
MALUCO... MALUUUCO... EU SONHEI ESSA PARADA MALUCO! a besta me agarrou pelas costelas, caramba!

e hoje (domingo) eu andando bem acompanhado pela paulista quando me dei conta estava parado na brigadeiro! e logo me lembrei de tudo. até contei pra menina: "bem aqui nesse muro, uma besta feita de pixe e dente de caco de vidro me agarrou pelas costelas!!"

Victor Meira disse...

Hahaha, que pirado, Bacana!!! Que conexão, cara, tô pasmo. Sonhou mesmo?

Carammmba...

Chammé disse...

hhauhauahauha.
Q fantóistic, o Bacana SOHNOU a parada.
E Victão, lado negro da força aqui, hein.
Eu sempre fico intrigado com os momentos de dilaceramento de pessoas em contos. Acho que num conto meu, se algo me arrancasse a costela, já seria o suficiente para dizer que morri. Seria pá-pum, que nem o Mario Bros: trombou na tartaruga, morreu.

Juizi, menini.
Abrasss

Victor Meira disse...

Chammé, é de Tony Montana pra cima.

Hahaha,
Abrazzi, nego!

Anônimo disse...

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