1.5.09

Cores Vivas

A densidade da bruma envolvia Ciço na confusão dos últimos dias, postos em meses embolados num novelo de fraquezas. Levava uma tela razoavelmente grande debaixo do braço, mais um punhado de tubos de tinta e pincéis entre os dedos; dirigia-se à Lagoa das Vacas. Sentia-se verdadeiramente vulnerável, como um esboço mal traçado, cheio de linhas tortas e formas inspiradas por paixões negativas, assim como a brancura ali do cais, onde a neblina espessava mais ainda. Atentou inclinando o corpo para ver se encontrava o barqueiro, que logo apareceu pela esquerda, como um espírito. Primeiro veio o som de suas passadas; depois a imagem do corpo antigo, enrugado e fascinante. O velho alçou a canoa e os dois corpos viraram sombras logo esquecidas pela terra. Avançaram a lentas remadas, musicando varadas na água escura. Ciço olhou para os traços das próprias mãos, onde se espalhavam cores pálidas e fugidias, texturas indiferentes e contornos evasivos - tudo clamando pela inexistência, pelo fogo. Desfez-se dessas sombras e posicionou a tela de modo a retratar o velho barqueiro envolto de fina, momentânea bruma.

Algumas horas de transe se passaram no movimento vagaroso do mundo enquanto o barco flutuava dorminhoco no ritmo das nuvens. Havia formas, traços firmes de linhas fracas e cores minguantes, afetivas e lacrimosas.

A luz começou a bocejar no céu sugerindo o volver do artista, anestesiado, como o velho, pela reunião dos momentos tácitos. Pairaram na velocidade aguada do tempo. Não houve despedida no cais. Ciço amou quietinho o barqueiro antigo. Depois, rumou para a taverna, onde encontrou o companheiro Levi já muito bêbado numa mesa do lado de fora do estabelecimento. Viu que o homem empunhava uma pistola de longo cano cromado e escutou os desafetos sibilados por aqueles lábios. Então, os olhos tortos brutamente se endireitaram flechando a face do artista e a arma mirou qualquer parte de seu corpo, mas Ciço não conseguiu se mover.

Houve um clique sem disparo. Levi brincava de roleta russa. Arregalado, Ciço tentou avançar quando foi paralisado por um segundo clique de barulhinho sutil, também sem disparo. O tambor já havia andado duas casas. O moribundo olhou, pois, para a pistola, como se algo de errado conspirasse contra ele. Por isso, resolveu brincar consigo mesmo, pra ver se a sorte lhe era tão protetora. Apontou a arma para a própria cabeça e puxou o gatilho, ao que se seguiu mais um clique sem bala. Talvez não houvesse balas, realmente, e Ciço recostou a tela na mesa de carvalho. Na quarta tentativa a pistola explodiu a cabeça de seu possuidor e o sangue salpicou a tela e o rosto do artista, colorindo finalmente ambas as superfícies com cores vivas. O corpo de Levi despencou no chão. Alguns instantes depois Ciço empunhou a arma e abriu o tambor, constatando que ainda comportava cinco balas e apenas um vão.

4 comentários:

Aron M. Aguiar disse...

delicioso o conto, meu amigo...
de começo ele tomou um rumo suave, com ondas calmas se deixando levar pela maré. uma breve visita ao céu, levados por uma especie de virgilio. delicioso...
logo voltamos e encaramos uma realidade desconhecida, mundana e excitante... com um final que une os dois.
muito bom meu nego...
gostei muito, kra.

tomazmusso disse...

Victor, maravilhoso...
é um texto que realmente dá asas a imaginação... cria um mundo vivível, devaneante. e depois vira mesmo um conto bizarro, marcado dessas coisas absurdas e urbanas, humanas, situando-o não na realidade comum, mas numa realidade da ficçao....e é estranho pois na primeira parte existe um tempo e espaço esparso, diluído, como um voo flutuante e depois um cenário concreto, objetual... e esse lance de apenas um vão?? mascou ou foi uma coisa tipo aquela cena de pulp fiction?? não dá pra explicar... mas eu geralmente amo muito mais ler seus textos que falar deles... abraço!

Leonardo Curcino disse...

ironico como as cores vivas aparecem justamente com a morte. ficou uma sensaçao de curiosidade pra saber o que vai acontecer com o ciço! vai continuar a brincadeira?

parabens! bacana o conto!

Victor Meira disse...

Tomaz, sempre fico lisonjeado com os teus comentários. Brigado, mano. Sobre o vão, masquei uns pedaços dos bons e velhos idílios não-conscientes.

Leo, quanto mais palavras se põe num conto, mais limitado ele fica. Esse corpo me satisfez, mas confesso que gosto bastante do Ciço e tenho vontade de limitar ele até ele deixar de ser personagem e se tornar humano, hahaha. Brigado pela leitura, meu véio.

Negón, cê é sempre negón e mora no meu coraçón.