1.3.09

O Coveiro do Cemitério do Santo Vermelho

Cruzei as pernas e esperei em cima da pedra da tumba, ao sopé da colina do Cemitério do Santo Vermelho. Acontecia ali, quase todas as noites, um evento inexplicável pela lógica ou pela ciência; e eu tive que assimilar o mistério como uma normalidade. Houve muita surpresa no início. Tive medo de endoidecer, e depois comecei a travar mil guerras lógicas comigo mesmo, em busca do entendimento. Não houve qualquer êxito, é claro. Houve a derrota, a aceitação do fato.

Sei que minha explicação está confusa e nublada, mas neste momento estou absolutamente distraído por um coelho que me alveja com um olhar de árvore. É um fogo-fátuo tão luminescente quanto ladino de toda a brancura da lua. Tem aparecido todas as noites, como que um enigma, um sinal. Surge e desaparece antes que eu possa sequer pensar em persegui-lo.

Mas o coelho é um incidente nulo perto daquele outro de que eu falava antes da distração. No começo eu também procurei ser cético, mas, veja bem, a vida apenas ocorre. Houve um baque leve à minha frente, justamente agora, neste momento em que vos relato o incrível: do céu choveu um corpo puro de donzela. É disso que eu estou falando. Acontece quase todas as noites, corpos caem do céu, sem ordem, sem explicação. E meu corpo, mesmo depois que aceitei o fato, invariavelmente pulsa de espanto toda vez.

Esperei que esta noite não chovessem mais homens. Joguei o cadáver dentro do carrinho de mão e o conduzi até a primeira cova vazia. Antes de lançá-lo, olhei-lhe a face: uma moça linda, curto cabelo preto, traços finos e olhos abertos de zumbi: seu corpo intacto era uma poesia que denunciava a injustiça do céu.

Apareceu então, atrás do belo cadáver, o coelho. Uma maldição insurgiu do seu olhar mortal: era ele que me perseguia, jamais o contrário. Percebi que ainda segurava o cadáver quando ouvi uma seqüência de sons surdos ao sopé da colina. Saí da hipnose e o coelho desapareceu feito relâmpago. Deitei carinhosamente o corpo morto e fui buscar os cadáveres recém-chegados.

Quando cheguei ao sopé da colina, havia centenas de coelhos mortos. Centenas. Apenas um, o próprio maldito, vivo, me encarando no topo da pilha cadavérica. O que significa isso? As loucuras não arrefecem, e fui tolo ao pensar que a aceitação do irreal era o único caminho. Talvez não haja outras maneiras de encarar tudo isso, mas quando se aceita o primeiro evento inexplicável, outros começam a surgir em progressão geométrica.

Fui em direção à criatura e a agarrei cheio de medo e fúria; ela não reagiu. Estrangulei-a metendo meus dedos em seu pescoço até ver o sangue surgir. Desejei apaixonadamente que aquela noite nunca terminasse. O dia traria verdades trágicas. Eu destruí completamente minha razão.

3 comentários:

Lírica disse...

O coelho pentelho
é do coveiro, o espelho;
e o santo vermelho
de sangue de gente e de coelho
tb é do coveiro que mete o o bedelho
nas mortes de fedelha e fedelho
e ainda vai buscar conselho
na razão... Que destrambelho!

Nesse universo macabro a solidão de não ter iguais, mas olhar aos demais com compaixão e zelo salta aos olhos. Mesmo que olhos aparentemente frios, assustados ou assustadores. O coelho é objeto de transferência, mas é projeção que denuncia a dor de perdas enloquecedoras. E como um "Cristo" que aponta para o que não se quer ver, tem que ser sacrificado. Interessante é a consciência do próprio surto.

Leonardo Curcino disse...

"Talvez não haja outras maneiras de encarar tudo isso, mas quando se aceita o primeiro evento inexplicável, outros começam a surgir em progressão geométrica."
cara... esse trecho me fez pensar muito numa situação que ocorreu comigo recentemente.

e esse lance dos coelhos mortos também chega a ser irônico, ainda mais sendo o coelho um animal tão viril e quebrador de recordes de natalidade. seria o mundo animal imitando os seres humanos auto-destrutivos?

Caco Pontes disse...

esse eu ja tinha lido no "pregos"

a culpa nem sempre é do mordomo, pode ser do coveiro.

salve a couve-flor, enquanto os vivos vão ao putêro!