9.1.09

Fora de Órbita

Prefácio
Sou rapeize de primeira viagem em blog. E pra aproveitar que tô realmente no começo, resolvi fazer uma narrativa, sem tato algum. Então, fica o encarecido pedido: leiam e esbofeteiem à vonts. Agradecido.


Céu aberto; letras enormes escreviam o nome da cidade na fachada do aeroporto. O lugar era só um suporte para aquele sentimento. Enquanto descia as escadas ao lado da turbina, já via placas do tipo “Faz 5 anos que eu não te vejo. Te amo”. Muita gente sorrindo, sem saber para onde olhar e fazer o primeiro aceno. Meus companheiros de vôo também sorriam. E eu, a observar todos eles, agradecia por nenhum olhar ou placa pertencer a mim.

Estava lá em meu destino. E quanto mais me dava conta de não ter nenhum conhecido, mais me recheava de contentamento. Quem diria, parar ao lado da esteira e aguardar pacientemente minha mala. Ela viria no tempo que lhe coubesse, sem as pressões daquele acompanhante que arfa ao seu lado, e examina tudo para garantir que não perdeu a bagagem de vista. Aliás, era melhor pensar que a aflição dessa pessoa não mudaria em nada o resultado: cada vez eu me sentia a pessoa mais agraciada do aeroporto.

Táxi. Ruas de paralelepípedos e areia. Túneis. Fique com o troco. Em que posso ajudar. Ap 402. Ah. Ainda havia sol na praia, mas me dei ao luxo de assistir a Tróia na TV. Tirei fotos de todo quarto e finalmente saí. Fui me levando até uma avenida com um calçadão que beirava o mar e vi casais e famílias. Me reconheci em um menino que andava emburrado, puxado pelos pais; era eu ontem. Vi uma pedra na areia pichada “Deus”. Mais um casal corria saudavelmente sem trocar nenhuma palavra. Por fim, li uma placa que fazia parte de um projeto da prefeitura sobre o Espaço, plano de algum físico lóki. Aquela ali comentava sobre o Sol, com a inscrição: “O Sol ocupa 98% do sistema solar”.

Cheguei ao restaurante. O sentimento ainda irradiava, como uma extensão tântrica do alívio de mijar. Não precisava de diálogo – desfrutava da velocidade elétrica que meu cérebro tinha para se comunicar. Tentei entender um pouco mais: o que era tudo isso, saudades de mim mesmo? Conversar com os outros devia ser, na maior parte do tempo, a negação própria. E se fosse isso, qual era a necessidade de ter qualquer contato íntimo com as pessoas? Colegas de trabalho, amigos, namoradas, tudo parecia groselha. Sonhei em ser um homem mudo, lacônico, e que ineditamente não tivesse um semblante carrancudo: seria por opção.

Foi quando vi a oferta a algumas quadras de distância – “Vendo Kitnete”. Não devia ser difícil me bancar ali. Além do mais, qual era a probabilidade d’eu realmente executar esse plano? Dois por cento? Segundo os astros, era suficiente para consolidar um mundo inteiro naquele lugar.

12 comentários:

Victor Meira disse...

Viva!!! Que gostosa narrativa, meu nego. Muito natural, intuitiva, cheia de peculiaridades e questões. Pra começar, já gosto da estrutura em que conduz-se a personagem pela mão, do começo ao fim - numa espécie de tomada-única.

Por falar em cinema, já faço o paralelo com as semelhanças que o conto tem com essa linguagem: tem-se aqui narrativa-sensitiva. Um bocado de experiências sentidas pelo personagem - mas não necessariamente esmiuçadas por ele, - assim como o enigma proposto por uma cena visual num filme. A pichação, a brincadeira com o sol: tudo isso tem um enigma parecido com o poético, que fala por si só e se desgruda do texto a partir do momento em que deixa - em si - de ser descrito. Muito bacana.

O fim do texto acumula bem o conflito e traz à tona um paradoxo: o personagem deseja ser solitário por opção, mas mostra a preocupação social constante (a peste) ao se preocupar com um eventual semblante carrancudo. Me soa como vício social: "quero me afastar, mas quero deixar claro: estou ótimo", como que uma constante preocupação com a percepção dos outros.

Entretanto, esfacela-se o mesmo paradoxo quando se compreende que a razão pela qual o personagem veste a boa-feição-social é justamente para continuar em seu estado de solidão; não quer ser incomodado por eventuais "você está bem?". Hahaha. Aí compreende-se a preocupação não como vício social, mas como meio racional de manter-se distante. Ótimo.

Gosto da idéia de:

"Conversar com os outros devia ser, na maior parte do tempo, a negação própria"

Esse recorte é bom, essa idéia é bacana. Mas acredito que o diálogo só é negação-própria quando não se afirma as próprias vontades no discurso (numa espécie de afirmação-própria). Talvez o bom diálogo seja uma medida balanceada, por parte de ambos os conversadores, entre afirmação e concessão próprias. Gosto de pensar que o diálogo constrói, sim.

Sêneca disse que todo homem precisa de uma dose-social e de uma dose-de-solidão - uma quantidade balanceada entre os dois. Na nossa rotina, passamos o dia inteiro acompanhados e, eventualmente, também estamos acompanhados quando estamos em casa. Exerce-se a solidão em brechas do dia: no transporte público (olha que antítese), no banheiro, e.... acabou?

Natural que tenhamos esse tezão pela solidão, já que é um pulsão pouquíssimo exercida no dia-a-dia. Lembrei de mais um momento do dia em que se exerce a solidão: na arte (seja como contemplador, seja como artífice). Em nome da lei, estamos justificados (hahaha).

Enfim. Ótimo texto, nega. Parabéns pela boa estréia.

Um abração - e conforme for andando isso aqui, a gente vai conversando mais.

william galdino disse...

Para quem se diz marinheiro de primeira viagem a narrativa impressiona.Uma prosa bem conduzida, de observações e descrições bem feitas.

até.

Heyk Pimenta disse...

Ei, Durezi Hombre.

Belíssimo. EU fiquei feliz aqui. Ainda mais com a puta despretensao que vc começa de papinho ali um prefácinho não sei quê.

ou te dizer, os conflitos colocados ali, os do contentamento com a solidão são jóia, gostei.

E achei fantástico a ideái da troca com o outro como negação de si também. Ótimo. Até porque a troca se não é negação é a certeza da incompletude, e os incompletos que se reunam.

Bom ritmo. Boas figuras. Boas idéias.

Eba!

Bien venido, putzgrila!

Leonardo Curcino disse...

bacana chamito! eu pensei na situaçao de um amigo meu que chega hoje dos EUA, depois de passar um tempo longe da familia pela qual ele é bastante apegado. mas creio que no caso dele a situaçao é inversa. provavelmente, vao estar la com placas e fazendo um alvoroço no aeroporto! :)

Tulio Malaspina disse...

É, vou te dizer que quando li o texto do Victor tive o mesmo pensamento: Durazno, como manter o ritmo estabelecido?
Refleti bastante e apelei para a ironia religiosa, os intelectuais tendem a gostar.
Mas é aquela coisa: a gente faz tanta coisa que acha genial e todos acham uma merda, e vise e versa, que no final toda merda acaba por ter um odor agradável. (pelo menos para as moscas)
Assim, venho cá lhe dizer que seu prefácio é bem vindo, mas que não se repita toda vez que você se sentir carente. (risadinha)

Gosto e muito da profundidade do texto, e me vejo em grau e número no personagem descrito, coincidência?
Primeiramente vemos que a essência é o personagem. Pessoalmente acredito que a merda cheira bem. Porém achei que faltou cutucar mais na merda, explorar a personagem como individuo real. Foram boas idéias, boas imagens, mas fique com gostinho de quero mais. Quero sentir mais essa solidão, quero sentir mais esse prazer de estar só. Quero sentir o alivio de não precisar me dirigir a ninguem, assim como ele fez.

Mando essas criticas densas pois é exatamente o momento que me encontro; dar vida as personagens.
Também meu primeiro texto é uma critica a mim mesmo; pois também tinha essa ilusão de arte imaculada. Só depois de ver o tamanho da fé que eu aplicava nessa tal arte é que me vi um pastor; é preciso revisar, cortar, esconder, MATAR!!!
Enfim, pecamos.

Abraçoss Chaminéé!!

Lírica disse...

Dostoiévisk ressussitou? E de bom Humor!!! Olá Chamé, sua fama de bom pensador lhe precede. Victor já me falou de vc e a sua narrativa corresponde perfeitamente às expectativas. Sim, expectativas havia porque conheço o escrutínio de Victor.
Você nos presenteou com uma narrativa despretenciosa, mas deliciosa, aqui.
Quem sabe o medinho de fincar sua bandeira neste blog tenha revelado essa faceta de um escritor gentil que sabe viajar para o interior de si mesmo sem parecer misantropo.
"Fora de Órbita" é um título mto sugestivo mesmo. Porque vc parou de rodear, de dar voltas e mergulhou... sem pressa. "2%" foi bárbaro, psicologisando um pouco... Quem sabe vc não se mude para lá... Mas todos nós deveríamos, pelo menos veranear no pré-conciente e dar uns mergulhos no oceano Id.
ALOHA!!!

Vinicius disse...

Cara, muito bom. Vou me furtar às observações detalhadas, mas avisando que tem nesse texto alguma coisa de diferente. Admito que ainda não sei bem o que é, talvez precise dele impresso e alguns dias pra ficha cair. Mas que tem coisa aí, isso tem.

Rachel Souza disse...

Sim, a solidão por vezes cai bem. Gostei do tom, da acidez da coisa.

Anônimo disse...

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