24.6.08

Não é tênue a linha

Para entender melhor esse post aconselho a lerem o seguinte de um outro blog antes:

Zengzung.blogspot - Kula sem etiquetas


Erotismo

s. m.,
amor sensual, lúbrico;
amor físico, prazer e desejo sexual distintos da procriação;
exaltação de tudo o que é referente ao desejo sexual;
paixão amorosa.


Erótico
Do Lat. eroticu -- Gr. erotikos, relativo do amor
adj.,
relativo ao amor físico, ao prazer sensual;
lascivo;
sensual;
lúbrico.


Pornografia

do Gr. pórne, prostituta + gráphein, descrever
s. f.,
representação (por escritos, desenhos, pinturas, filmes ou fotografias) de cenas ou objectos obscenos destinados a serem apresentados a um público;
coleção de pinturas ou gravuras obscenas;
carácter obsceno de uma publicação;
devassidão.


Pornográfico

adj.,
relativo à pornografia;
obsceno;
libidinoso;
impudico.


Interessante. O texto acima foi tirado de um dos dicionários mais simples que existem o http://www.priberam.pt/ ; mas nele já se separa tão bem os objetos referentes a cada palavra, que depois de lê-lo dificilmente alguém cometeria o imaturo erro, confundi-los. Discutir os limites de um e outro é como discutir o que são peras e o que são maçãs. Esse e outros tipos de discussão dentro do terreno dos pseudo-intelectuais são além de freqüentes, muito comuns e denotam uma imaturidade por parte de quem os pratica.
Como comunicador, acho que seria útil à quem pratica esse tipo de ação, eu explicitar onde se encontra o erro gerador do eixo central dessa discussão: na falta de conhecimento. Sim na falta de conhecimento! Rs... calma, eu sei, não é só isso. Esse não é um texto acadêmico então não há razão para tanto formalismo.
Essa falta de conhecimento, se chama ruído. Na base da comunicação temos três elementos principais o Emissor, o Meio e o Receptor. Vamos separar os elementos agora, o Emissor seria a pessoa que faz uma afirmação, o meio seria a língua portuguesa (no caso presente), ou seja o canal por onde caminha a informação para chegar ao terceiro elemento o Receptor. O fato de nunca procurar em algum dicionário o significado das distintas palavras leva o errante (procurem essa no dicionário também, vale a pena) a criar um ruído na informação, ou seja: o meio, o caminho, o canal, a via por onde a informação passa do emissor, para o receptor tem algum distúrbio que impossibilita a nítida compreensão deste por aquele, impossibilitando um diálogo mais preciso e turvando a compreensão entre os dois pontos.
Envolvido pela curiosidade de onde teria nascido esse ruído – a confusão que o emissor criou entre erótico e pornográfico – fui ainda mais longe em minhas reflexões a cerca do assunto e cheguei a seguinte conclusão: Por não consultar o dicionário em algum momento decisivo para cognição e compreensão correta dos dois termos, o emissor apreendeu por sensações particulares (conhecimento a priori) sobre o que seria um e outro, desse modo internalizou os dois objetos de maneira muito subjetiva (pessoal), o que o impossibilitou de os distinguir claramente. Na tentativa de fazê-lo, cometeu um erro grosseiro: separou-os por uma ordem de grandeza baseada no status, como por exemplo: erótico é classe A (burguês) e pornografia é classe C (proletário), esse erro além de grosseiro é bobo e classista. Uma simples leitura do dicionário teria evitado esse erro absurdo e permitido a correta compreensão dos dois termos.

Agora, avançando um pouco mais nessa discussão, gostaria de expor algumas reflexões sobre o tema pornô/erótico:

1º) Erotismo --> A palavra erótico tem sua origem em Eros o deus do amor, diz respeito ao que é relativo ao amor, amor como prazer sensual. O erotismo é o ato sexual em si pelo prazer e livre de qualquer outra obrigação que não seja o deleite sexual. É por excelência um prazer sensível. Porém o prazer erótico pode ser despertado (e agora vocês vão rir) por uma árvore, um gato ou uma bola de futebol, um fogão à lenha, uma torradeira, uma pedra no rio, um carro e porque não pornografia: três mulheres nuas, uma mulher com um pênis (isso pra mim é bizarro, mas rola, tem um monte aí nas esquinas da noite urbana e de dia na praia de Copacabana), assim como por uma fotografia, um filme, um texto, minha própria mão ou... a sua.

2º) Pornografia --> o sufixo grafia nos leva a entender que tem de ser necessariamente algo gravado, marcado, registrado. Um livro, uma foto, um desenho, um filme, uma escultura, um desenho rupestre etc... Se formos fazer uma tradução livre do prefixo mais o sufixo separados (agora vocês vão rir de novo), teríamos mais ou menos o seguinte resultado “descrição da puta” ou de repente, quem sabe, uma “Puta descrição”, rs... ignorem o segundo, foi uma piada. Mas falando sério, isso acontece porque o prefixo “Pornô” significa “prostituta” o que nos leva a acreditar que pornografia seria a descrição, uma espécie de estudo, sobre o ato sexual. Concluindo sem rodeios (já estava lá em cima no dicionário) Pornografia é o registro do ato sexual.

3º) Pornografia/Erotismo --> Existe o erotismo na pornografia! Oras? afinal, não estão os atores do filme em um explícito ato erótico? Se descartarmos a possibilidade (e por favor não cometam o erro de questionar isso) de que os protagonistas de filmes e revistas pornôs estão ali apenas pelo dinheiro, não estariam eles dentro de um tremendo ato erótico, não estão eles se despertando para o prazer sensual e sexual sem pretensão de procriar? Pois bem, não está o espectador, também, despertando em si o prazer erótico ao consumir o conteúdo pornográfico e se masturbar, ou se estimular de qualquer outra maneira? Acredito talvez, que na época onde se originaram essas palavras o conteúdo pornográfico não passava, talvez, de uma espécie de manual para os amantes. Algo tipo o Kama Sutra que ao contrário do que pensa a maioria (nunca acreditem no Fantástico) nada tem a ver com ilustrações, se tratando apenas de um livro sem desenhos, de estudos teóricos e práticos sobre o ato sexual. Sim são muitas as posições! O curioso é que quem o escreveu nunca participou de nenhum ato sexual, dizem as escrituras que ele era um monge abstêmio.
Já, ao ver o homem ou mulher que alcança o prazer sensual registrando uma pessoa nua, pessoas nuas se masturbando, transando ou qualquer outra coisa por aí... esse registro pode ser foto, desenho, filme, pinturas rupestres, tatuagem e o que mais sua imaginação conseguir alcançar; ao constatar que existem pessoas que tem como fonte do prazer: fazer o registro (conheço alguns, eu mesmo acho a idéia interessante – devo lembrar que sou desenhista ta galera – rs...) ficamos diante de um caso onde se invertem os papéis: o que antes era a fonte passa a ser a motivação. O erotismo que representava a fonte da pornografia troca de papel e passa a ser o motivador, ficando então a pornografia parte central do prazer erótico.

Bom, isso é só uma curta tese, vocês podem se matar por aí, à vontade, negando, discordando, reafirmando ou transformando. Está ai pra isso... abraços...

10 comentários:

Heyk Pimenta disse...

Leon, sabe, não vi esse traço classista no texto na menina lá.
Ah, e em parênteses, achei o blog dela bem bonito e vou me comunicar com ela, na verdade nem sei se é uma menina, chutei que fosse.

Bom, mas achei um troço ruim, um negócio de depreciar pra caralho a postura dela no começo do seu texto, acvho viagem, acho que a gente tem que repensar a forma de propor o diálogo.

Mas o texto: achei besteira vc se basear no dicionário: também burguês e classista (só que pra direita). E se basear no histórico do termo: isso aí a gente inventa. Mas faltou a ela dizer o que queria com esses termos.

Porque você sabe, ainda mais eu, como poeta, invento novos sentidos pras palavras tranquilo. Como ela não disse o que queria dizer com as palavras que usou você realmente pode puxar o sentido delas pro português comum, e daí fazer o contraponto, que achei até que foi bem construído, apesar de um pouco rocambólico.

Mas enfim, conversemos. gostei da forma de abrir o diálogo.

Mas sabe que pelo que entendi do texto dela: ela só fala que "e daí qual é o nome?" e eu concordo. Como a burguesia estabelecida que escreve os dicionários vê o que é pornografia, ou como a burguesia que não entende de linguística acha o que é pornografia, é o de menos. O negócio é: em se tratando de arte, arte e nu, ou só de nu, que venham as sensações, os nomes que fiquem pra depois!

beijocas!
Até.

Leon Prado... disse...

bem, não vou ficar me defendendo muito, mas é que vcs não viram a discussão que a gente teve no msn. Lá no texto dela, ela só faz referencia ao nosso dialogo e ainda me ofende me chamado de "acadêmico". Mas se não me engano lá no texto dela mesmo, ta escrito que a maneira de separar pornografia e erótico é preconceituosa (ou que meus argumentos o eram). meu texto só rebate isso mostrando com muita ironia quais são meus argumentos. Esse texto não é só pra ela, eu coloco no começo dele que é para as rodas pseudo intelectuais, já cansei de ver diante dessa mesma discussão absurda em vários bares.
Vc está correto em mudar o significado das palavras e criar novos termos. Mas se tratando de uma discussão entre duas pessoas, não se pode fazer isso, vc não pode sair por ai discutindo o erótico e o pornográfico se pra vc isso são dois coelhos de bolinhas rosas (rs...) vc só pode fazer isso baseado no que significam de fato, se não, vc como eu expliquei no texto, cria um ruído enorme na comunicação que impede um dialogo construtivo.. Seria como um chines dicutindo com um alemão, cada um em sua língua nativa. A linguagem é algo complicado e usar corretamente os termos por ela contruido durante séculos facilita, acho q as pessoas deviam se ater mais a isso...

Os.: gente eu não to em pé de guerra com ela não, rs... a gente é amigo, e esse meu texto foi “estilístico”, fui invadido pela irônia, não representa minha personalidade real.... abraços.

Heyk Pimenta disse...

Mas sabe, Leon, se numa coisa vc tem razão é nisso. Eu mesmo já me peguei com esse papinho sem vergonha de pornografia não, erotismo sim. Já, isso pra mostrar coisa que não era pra galera. Mas apesar de saber o que quer dizer pornografia, nunca tinha posto nesses termos, e concordo, se a pornografia vai ser erótica bonitinha, ou se vai ser chula pá caraio, é uma coisa, mas é sempre pornografia.

FlaM disse...

Todos os imbecis da Burguesia que pronunciaram sem cessar as palavras: imoral, imoralidade, moralidade na arte e outras sandices, fizeram-me pensar em Louise Villedieu, puta de cinco francos, que certa vez, acompanhando-me ao Louvre, onde nunca estivera, pôs-se a enrubrecer, a cobrir o rosto, e puxanndome a cada instante pela manga, me perguntava, ante as estátuas e quadros imortais, como era possível exibir-se publicamente semelhantes indecências.

(Charles Baudelaire, Meu coração desnudado)

[A propósito do tema ver tambémi:
http://palavraetom.blogspot.com/2008/04/erotismo-pornografia-e-erotolalia.html

Abç, Flávia

Leon Prado... disse...

Nao concordo com esse ataque a burguesia tb, entre os burgueses tem todos os tipos de pensamentos. E nós mesmos, por mais que vcs nao queiram, temos hábitos e valores burgues. A diferença entre nós e eles nao é tão grande. Pode ter certeza q a diferença entre nó e o povo em sí eh muito maior, o que, na minha opinião eh lastimavel !

Leon Prado... disse...

Continuando,
não que devessemos parecer mais com o povo, muito pelo contrario acho q ele deveria estar mais proximo de nós.
E antes q me chamem de nazi, digo isso pois acho q deveriamos dar mais educação as pessoas e nivelar o pensamento por cima e nao por baixo...

Heyk Pimenta disse...

NOssa cabecinha é 100% burguesa mesmo, mas daí a char isso bonito e falar pra não criticar a burguesia é foda.

Agora, leia-se, burguesia é a classe possuidora dos meios de produção. Ter grana não quer dizer ser burguês, apesar de tendo ou não tendo grana, até os mais pobres e tal, t~em hábitos burgueses de fora a fora, e se não têm, gostariam de ter.

Mas aí a pergunta que fica, já mundando o assunto da pornografia: Só porque somos burgueses não criticamos a burguesia? Só porque somos nó, não criticamos a nós mesmos?

Abaixo os hábitos e a conduta burguesa em todas as suas estâncias. E instâncias.

E tô fora de nivelar por ciam como o Leon disse. Acredito mesmo é que esse nivelar por cima e comprar um com´portamento colonizado, europeu, hierárquico burro, que não tem nada a ver com as nossas paixões peladas luso-afro-tupinambás!

Haha!

FlaM disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
vc não concorda com Baudelair?

fico aliviada!
ele escreveu isso em meados do século XIX!
Revolução francesa, napoleão, burguesia, tudo era ainda novidade...
A propósito: "nós" quem, cara pálida?
bjs, Flávia

ET: a grande sacada dessa nota de CB não é o ataque frontal, ofensivo à burguesia, mas o exemplo que ele dá a seguir, que desestabiliza, relativiza uma moral sexual que se propõe como "a mais correta". Ele mostra que uma prostituta pode ser tão rigorosa moralmente com a arte que agrada ao gosto burguês, quanto o burguês o é com relação à prostituição.

Heyk Pimenta disse...

Nós mesmo, né, nós burgueses, por opção, por tentativa, ou não cooptação, com sorte, por repressão.

Burgueses. No mínimo querendo consumir que nem urso saindo da "ibernada". Sem utilizar grana pra gerar mais grana sempre. Mas se são valores que constituem um cara, um povo. Os nossos são burgueses, Dá-lhe misturança, mas são burgueses.

Não pensem que digo isso contente.

Leon Prado... disse...

ai galera, posta na segunda parte do post tema pra ficar mais fácil... rs...
vcs leram?
não sei, mas acho q a discussão sobre os valores burgueses não se enquadra muito no assunto... esses dois "objetos" o pornográfico e erótico já existem de muito tempo antes da burguesia...