2.12.07

Amor Infinito

O rosto seco e impávido de quem já muito chorara se impunha ao sol nascente na janela.

...- Ta tudo certo, né, minha linda? Não tamo esquecendo de nada, né? – disse tentando forçar um tom firme.

Ela assentiu sem olhar pra mim. Não era mágoa, era resolução. Estava prestes à redenção, ao tudo e total do todo. Minha pergunta, penso, não foi material. Queria saber se tava tudo certo por dentro. Na verdade, era só uma força.

O relógio de pulso marcava a sexta hora da manhã, mais um punhado de minutos rebeldes.

...- Ta na hora, nega.

Ela pegou a mochila e sem me olhar, dura, saiu pela porta que eu abria. A vi descer pelas escadas em trote, uma das mãos acariciando o corrimão. Aflito, corri para a janela e a observei atravessar a rua. Uma pedra embargava minha garganta, e meus olhos se sentiram mais a vontade. Chorei como uma cachoeira.

Através daquela vista embaçada de lágrimas, a vi cruzar o centro da praça em direção ao metrô da Sé, rumo à sétima hora daquela manhã sem fim. Ao entrar pela boca da estação não mais a vi, mas continuei à janela imaginando por onde ela ia no subterrâneo.

Rosto lavado, meu relógio apitou às 7 horas e houve um tremor no chão, que percorreu a estrutura dos prédios e chegou à minha alma. Olhos arregalados, vi a praça da Sé explodindo pelo subterrâneo como uma bolha crescendo na sola do pé de São Paulo, e logo depois do espasmo, a praça, as ruas e alguns prédios menores desabando e sendo engolidos pela terra.

Foi o momento de toda a redenção.

Morreu como uma mártir anônima, envolta de toda a nobreza e altruísmo sobre-humanos que a condição implica.

Morreu anônima de si para si.

2 comentários:

Heyk Pimenta disse...

bom como disse pro bacana, já falei o dito pelo telefone.
Mas o resultado é que o meu último texto é em cima disso. NUm teve jeito. Mexeu tanto que pari um poema.

Viva. Tem mais lá no quadrado?

Victor Meira disse...

Ultimamente tô mais orgulhoso do Doisconto do que do Quadrado, cara...

Mas valeu, Heyk, gostei pra cacete que você ligou, haha!

Bêjo, meu lindão.