29.8.07

Resenha, Frankstein à brasileira

Se o tempo é o da tecnologia, o do progresso, o da invenção, não a nossa, mas dos que montam em cima de nós, inventando formas de segurar o cabresto e não sair de cima. Celebremos o de vez em quando em que a tentativa frustra, não a nossa, a deles. Celebremos Frankstein, e todas as revoltas do monstro contra o médico. Para tanto evoco também outra forma de ver o costurado mais famoso do cinema, quem dirá da literatura, o fato da própria costura, da montagem, do juntar cá com lá na tentativa do unir. Com essas duas, a revolta ao progresso técnico – esse como geralmente se apresenta, cabeçudo em si mesmado – e a montagem - a costura a dedo furado bonita até de perto - , é que venho chamar a tenção pros 90 minutos que passei com a Cia Onírica de Teatro neste último sábado, dia 25 de agosto.
Em última apresentação da temporada Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, Santa Teresa - Rio de Janeiro, com a peça A Queda o ‘quê’ de correr atrás de duas moças rindo pra poder acompanhar o enredo já indicava que seria saboroso o meu sábado. Com troca de ambientes, sendo muito bem aproveitado o casarão oitocentista do centro cultural, tinha medo, tinha vela, tinha escuro, tinha lanterna apontando pra cara. Bonito. Entre o caos interno de ser agredido-desafiado pelos atores a qualquer momento, visto que o clima era favorável, e o êxtase de acompanhar de perto o meu e o frio na barriga que dava aos outros expectadores os diálogos sussurrados e sedutores, resolvi brincar de ser levado e pronto.
O diálogo do teatro convencional está se transformando não numa construção ator-diretor, mas numa forma padrão de fazer teatro, numa forma padrão de falar no palco, numa forma padrão de cansar a gente na platéia, mas bingo! A Cia Onírica rompeu em momentos essenciais esse falar com força que mais cansa do que atrai, rompeu com jeito, chamando pra prestar atenção no texto. E eu, eu fiquei ali rindo com eles, fechando a cara quando o negócio era sério, e gostando muito quando a poesia tomava a cena e levava a gente pra dentro do personagem. Teve coisa que doeu de verdade. Bonito. Bonito de ver. Teve Caio Fernando Abreu pra quem gosta, no trechinho que mais deu vontade de entrar no meio e sentir junto. Sentir doer como eu já disse. A peça tem, com palavras do próprio Henrique Britto - o diretor, um dark side. E é com trechos de Morangos Mofados e de Contos, do Caio Fernando, que o dark side pega a gente pelo pé. Dá aquela coisa de “viu como tudo é uma bosta mesmo!”, mas passa. Passa porque a companhia não tem convênio com nenhum analista da região, pra mandar a gente pra lá pra enriquecer o cara. Passa porque tem piada, tem erotismo gostoso sem ser piegas nem novelesco, tem reflexão e crítica. Viva! Tudo isso pra falar da Morte, escrevo com letra maiúscula mesmo porque ela pesa igual gente. É nome próprio. Morte! E termina com dança, com música, com vinho – como foi gritado no durante no antes e no depois: Evoé Baco! E santa dança, santo e belo movimento. Quem tocava a batuta dos corpos na obra era Wagner Carvalho, que deixou redondo a hora que tinha que ser e jogou o soco no vento quando foi preciso. Se a arte fosse só conteúdo não tínhamos saído da tragédia grega. É preciso o gosto pelo que aos olhos toca, pelo que o corpo sente. E assim o movimento vem correndo pra mostrar pro texto o que tem de dança na paixão humana – quase tudo. Belo Wagner.
A peça não pode deixar de correr. A Queda, não a nossa a da Cia Onírica, tem que continuar.E pra fechar explico: sem verba – foi à merda o discurso que só se faz coisa boa com o bolso cheio de dinheiro, por isso a conversa da revolta ao progresso técnico – e montando tudo, recortando – fica claro que é tudo junto e misturado é que funciona, diversidade e completude, numa coisa só – é que A Queda se mostra o Frankstein mais bonito que já vi.

4 comentários:

Victor Meira disse...

Merda.
Quero ver.

Henrique Britto disse...

Bem, estou querendo comentar à respeito da
resenha,deste rapaz, desde o dia em que li.Mas como
eu ainda estou na era do acesso discado,sem contar a
faina diária, ficou meio complicado. Então, hoje parti
pra ação.
Evidente que fiquei/ficamos lisonjeados com as
explanações deste cabra sobre o nosso rebento.
Mas, seria tolo ficar usando a mesma como motivo de
jactância. Por isso, quero exaltar o que é mais
importante, a diligêwncia com a qual este moço
assistiu nossa peça. Quando me fez algumas perguntas,
sem nada anotar, eu não esperava que fizesse
comentário tão minucioso, com tamanha sensibilidade. E
isto, independe de elogios ou críticas. O mais
importante é a integridade do sujeito. Valeu, meu
querido!PARABÉNS À TODOS VOCÊS DO MANÁ ZINABRE! ARTE
DE EXCELÊNCIA, TEM ESTRO!
Estamos providenciando mais do mesmo! EVOÉ BACO!!!
Henrique Britto- Cia Onírica de Teatro

Rod disse...

Boa Heik! O Henrique é esforçado, e a peça está ótima mesmo. Os atores são muito bonitos. Comente sempre as coisas boas. Abraço, do Rod Britto.

Heyk disse...

Sabe, eu comentei isso com a caroll... Os atores são bonitos demais. Não sei o que ela não achou tanto. OS homens da peça são um capricho. E as meninas um exagero.

pena eu não ter comentado isso no texto!

beijos